Imagem: Divulgação

Filme de verão, “Luca” rompe modo de operação da Pixar ao reduzir escala

Animação traduz jornada de descoberta do mundo em narrativa casual de pequenas ações

por Pedro Strazza

Depois de tantos anos de exaltação da Pixar como grande bastião da animação, soa como uma ironia fina a recorrência de comparações que correm e provavelmente vão correr entre o público e a crítica para tratar de “Luca”. Da piada da produção ser um cruzamento entre “Me Chame Pelo Seu Nome” e “A Forma da Água” à verdadeira lista de referências – de Miyazaki a Fellini – citadas pelo diretor Enrico Casarosa na divulgação, o filme parece despertar o instinto da localização imediata pelo perfil anômalo que ocupa na história do estúdio: entre tantas propostas ousadas e continuações pensadas para solidificar a presença da marca, de repente tem-se em mãos um projeto de ambientação específica e escala menor.

Tudo na produção atende a essa demanda, pelo menos. Da cidade litorânea de Portorosso aos dilemas e desafios enfrentados pelo protagonista Luca (Jacob Tremblay) e seu amigo Alberto (Jack Dylan Grazer), o longa existe sobretudo por uma perspectiva reduzida e numa lógica de ações localizadas. Há quem argumente que as histórias da Pixar são naturalmente diminutas e que tendem aos grandes temas por meio de seus personagens, mas mesmo sob essa ótica o filme de Casarosa escapa – a “grande lição”, afinal nunca transborda de tal maneira.

Se o esforço maior de categorização por parte da audiência diz muito mais respeito à indústria e ao momento específico da Pixar – ainda mais por ser efetivamente a primeira produção pensada após a saída de John Lasseter – à animação em si essa constatação elucida o exercício de seus realizadores. “Luca” é um filme menor por propósito e não consequência, recusando a propensão do estúdio por “pequenas grandes histórias” menos por inadimplência que por acreditar na força do conto de descoberta do mundo que se propõe a realizar. Se é para ser cafona, é mais sobre “sentir” que “navegar” pela trama e seus personagens.

É um tipo de formato que lembra muito os filmes de verão europeus, cuja leveza é caracterizada por narrativas bem mais desencontradas e casuais em seus eventos – e neste ponto não é muito difícil imaginar o esnobe mais inadvertido comparando a produção com os trabalhos de Éric Rohmer. Em especial no começo, o roteiro de Jesse Andrews e Mike Jones é esperto em situar o público dentro desta premissa: dos marinheiros assustados com os mitos aos primeiros instantes de Luca em terra firme, o longa corre em passo acelerado e sublimando como é possível o drama ao que lhe é essencial, da busca do protagonista por liberdade e do interesse pelo desconhecido.

Essa simplificação beira quase como sacrilégio à dinâmica tradicional do estúdio, que sempre prezou por esse tipo de situação para inflar acontecimentos aos olhos dos personagens e do espectador, e talvez por isso a animação parece estar tanto em conflito com a própria forma. Como em “Dois Irmãos”, não é lá muito difícil identificar a dita “fórmula” da Pixar em cada movimento, até porque ela não está sendo seguida à risca e ainda assim é repassada quase como uma obrigação. A diferença é que dessa vez não há grande contestação, com Casarosa tocando a trama como mera formalidade desinteressante dentro do fluxo geral da narrativa, e deve ser o primeiro filme da Pixar em que as viradas de trama são esperadas como o passar dos ponteiros de um relógio – seja nas traições, reviravoltas e mesmo conflitos.

O formato lembra muito os filmes de verão europeus, cuja leveza é caracterizada por narrativas bem mais desencontradas e casuais

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Verbalizado desta forma é fácil pensar que tudo no filme é um desarranjo de partes, mas aí vale reforçar como essa casualidade é proposital na animação. A grande motivação dos personagens marinhos é a conquista de uma moto Vespa, enquanto a amiga humana Giulia (Emma Berman) só quer derrotar “o império do mal” representado na figura do bully Ercole (Saverio Raimondo) e seu reinado… de vitórias no triatlo local. Se o arco de Luca envolve a descoberta da escola e sua luta para “sair do ninho”, o longa nunca exatamente converte essa premissa numa luta por afirmação de identidade e prefere o caminho bem mais humilde da aceitação – e daí é interessante perceber como “Luca” com naturalidade se envereda pela identificação de temas com a comunidade LGBT+.

A beleza do filme transcorre destas decisões, até porque elas esvaziam um pouco a dependência no texto e levam o público a identificar essa narrativa visualmente, um ponto que a Pixar há anos mostra ser forte mesmo quando no formato mais padronizado de suas animações. A jornada de Luca de encontro ao mundo é sensorial em essência e Casarosa busca elucidar este ponto quando possível, desde os primeiros momentos fora do mar aos voos físicos e imaginários que retomam o paralelo com Miyazaki. Posto assim, faz todo sentido que o clímax da história se dê por uma chuva: como em qualquer comédia de verão, é ali que tensões são enfim dissipadas, libertas das prisões interiores para sua revelação devida.

A jornada de Luca de encontro ao mundo é sensorial em essência

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Há um frescor muito envolvente da produção ao modo de operação do estúdio em tudo isso, claro, mas a parte boa mesmo deste desarme acontecer de maneira tão pouco ambiciosa é a possibilidade de assistir a releitura pelo que é, o de uma nova perspectiva. Até porque a direção de Casarosa não deixa de conciliar sua lógica com certos elementos que fazem a reputação da Pixar, em particular o tom de comédia puro e ao mesmo tempo inteligente nas soluções visuais – e quem diria que a piada boba de um gato com bigode típico de um policial cartunesco poderia render tanto?

É nestes pequenos momentos que o encantamento de “Luca” se encontra, afinal, e nada como uma despedida e um trem para sublinhar este traço.

“Luca” estreia no Disney+ no dia 18 de junho.

nota do crítico

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