"Manhãs de Setembro" é um delicado drama sobre complexidade familiar no difícil cenário brasileiro
Imagem: Divulgação/Amazon Prime Video

“Manhãs de Setembro” é um delicado drama sobre complexidade familiar no difícil cenário brasileiro

Protagonizada por Liniker, série do Amazon Prime Video é cheia de detalhes realistas, fundamentais para gerar empatia e encantamento com a produção

por Soraia Alves

AVISO: Este texto contém alguns SPOILERS da série.

“A partir do momento que a gente tiver uma protagonista trans numa série de terror, que não tem absolutamente nada a ver com a transição, com a identidade de gênero, com os arcos dramáticos que estamos acostumados a ver relacionados com uma pessoa trans, aí sim a gente vai estar começando a falar sobre representatividade de fato”. A afirmação feita pela roteirista Alice Marcone, em entrevista sobre a estreia de “Manhãs de Setembro”, é fundamental para entendermos a nova série do Amazon Prime Video estrelada por Liniker. Alice ainda citou o cineasta Jordan Peele como referência de alguém que tem aplicado essa representatividade real em conteúdos audiovisuais, e afirmou que a principal intenção de “Manhãs de Setembro” como produto cultural é a mesma. Portanto, essa é uma história protagonizada por uma mulher trans, e que fala sobre afeto, liberdade feminina e dramas intrínsecos a milhares de famílias brasileiras.

O dilema vivido por Cassandra (Liniker), que descobriu a existência do filho Gersinho (Gustavo Coelho) logo quando sua vida pessoal caminhava mais firme, é o mesmo de inúmeras mulheres surpreendidas por uma gravidez não planejada, inclusive Leide (Karine Telles), mãe de Gersinho que tem cuidado do menino sozinha nesses 10 anos. Acompanhamos o impacto que a descoberta traz à vida de uma mulher trans, preta e pobre, e é bem possível que o espectador crie seus próprios conflitos internos ao tentar “decidir” como Cassandra deveria se portar ou não dali em diante. É incômodo, por exemplo, ver o impulso da protagonista em replicar a prática de diversos pais brasileiros adeptos do abandono parental. No país, só em 2020 mais de 80 mil crianças foram registradas em cartório apenas com o nome da mãe. Ao mesmo tempo, é divertido perceber que Cassandra está longe de conseguir manter tal comportamento, afinal, inevitavelmente ela se envolve cada dia mais com o menino.


Todo o drama familiar e sentimental vem envelopado com a difícil realidade do brasileiro que “vende o almoço para pagar a janta”. E esse é um dos pontos altos da série, que utiliza muito bem da fotografia para representar o contraste entre a dureza do dia a dia e os pequenos prazeres possíveis de serem aproveitados. Enquanto a motogirl que faz entregas, Cassandra está imersa em uma São Paulo cinza, frequentemente chuvosa e sempre pouco amigável. Já nos momentos de alívio e satisfação da protagonista aproveitando seu lar, seu romance com Ivaldo (Thomás Aquino) e suas apresentações como cantora, o calor e as cores deixam os ambientes mais acolhedores.

A personagem de Karine Telles (impecável em mais uma atuação) também é fundamental para incrementar o contexto político-social proposto na série. Leide é uma mãe solo, sem-teto e que trabalha como vendedora ambulante quando a fiscalização “deixa”. Com seu arco, vemos a situação de muitos trabalhadores informais, as disputadas vagas de emprego que geram filas gigantescas, e o desespero de uma mãe que, apesar de todas as dificuldades, faz o que pode para cuidar bem do filho. Leide toma decisões nem sempre legais, nem sempre corretas. Mas é possível compreender cada uma delas vendo o contexto geral de sua vida.

As trajetórias de Cassandra e Leide convergem não apenas por causa de Gersinho. De certa forma, as duas compartilham um mesmo lugar de abandono social que dificulta as conquistas e o progresso feminino. A liberdade cerceada das personagens é um reflexo social, político e histórico, indo muito além do impacto de ter um filho. É justamente por isso que é tão fácil compreender os impulsos e decisões de cada uma, ainda que eles sejam questionáveis. Conquistar a independência, enquanto mulher, não é fácil, e por isso é tão complexo abrir mão dela em qualquer nível.

Essa é uma história protagonizada por uma mulher trans, e que fala sobre afeto, liberdade feminina e dramas intrínsecos a milhares de famílias brasileiras

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Em sua estreia como protagonista em uma grande produção, Liniker tem um desempenho muito realista. Embora algumas cenas possam gerar a impressão de “faltou mais emoção”, a verdade é que sua atuação comedida está alinhada à personalidade de Cassandra, já calejada pela vida. As reações de Cassandra aos clientes mal-educados, às pessoas preconceituosas, e até mesmo ao término do relacionamento com Ivaldo quase sempre vêm com uma certa resignação de quem já passou por isso antes. Não que ela se cale diante das situações. Pelo contrário, é como se ela já soubesse muito bem como lidar com aquilo.

Embora Liniker e Karine mantenham a história girando, e contem com um bom elenco de apoio com nomes como Paulo Miklos, Gero Camilo, Linn da Quebrada e Clodd Dias, é a atuação de Gustavo Coelho que encanta de forma genuína, sendo essencial para intensificar os conflitos que personagens e público sentem. A curiosidade de Gersinho em conhecer o pai é simples e inocente, e vai se transformando em um sentimento puro de amor com a convivência com Cassandra. Gersinho não tem preconceitos ou questionamentos sobre o pai ser, na verdade, uma segunda mãe. Com muita doçura, ele só quer também ser aceito.

Gersinho não tem preconceitos ou questionamentos sobre o pai ser, na verdade, uma segunda mãe. Com muita doçura, ele só quer também ser aceito

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“Manhãs de Setembro” ainda é uma bonita homenagem à Vanusa, musa inspiradora de Cassandra e constante voz em sua cabeça. O nome da série, inclusive, é referência direta à música da cantora. Essa relação entre Cassandra e Vanusa poderia ter sido um pouco mais aprofundada, especialmente porque ela está atrelada à história da protagonista com a mãe, que apenas sabemos que um dia a abandonou. Mas esse é um problema que pode ser atribuído ao fato da série ter apenas 5 episódios, o que afeta o desenvolvimento de alguns arcos, especialmente o de Cassandra e Ivaldo.

Contudo, “Manhãs de Setembro” consegue entregar uma trama delicada e cheia de detalhes realistas, fundamentais para gerar empatia e entendimento de dramas familiares que, num primeiro momento, podem parecer simples, mas são muito mais complexos. Além disso, a produção tem um significado ímpar para o audiovisual nacional, como ressalta o diretor Luis Pinheiro: “Ter uma protagonista preta e trans nesse momento obscuro que a gente vive, de advento da extrema direita, também tem sua importância enquanto resistência, enquanto contracultura”. Esperamos ver mais de Cassandra em futuro próximo.

“Manhãs de Setembro” está disponível no Amazon Prime Video.

nota do crítico

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