fbpx
Imagem: Jasin Boland/Marvel Studios

“Shang-Chi” começa cheio de vida, mas cai na mesmice acinzentada de sempre do Marvel Studios

Filme empobrece conforme troca cores e tom mitológico pelo cinza e integração com o resto da produção do estúdio

por Matheus Fiore

AVISO: Este texto contém SPOILERS do filme.

De antemão peço desculpas, mas neste caso é inevitável falar de “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” sem antecipar uma informação do clímax: na reta final, o herói e seus aliados precisam enfrentar um exército de monstros interdimensionais que se fortalecem ao sugar a alma de seus inimigos. É uma dinâmica um pouco triste porque ela, infelizmente, se aplica à própria forma como a Marvel desenvolve seus filmes. Se “Shang-Chi” começa vívido, colorido, empolgante e mitológico, logo as cores vão desaparecendo, como se fossem sugadas, o filme se esvaísse e sobrasse apenas o que estamos tão acostumados a ver – bonecos lutando em um cenário cinza, com uma paleta de cores escura e desprovida de alma.

Esse sistema predatório da Marvel, que parece devorar as ideias dos diretores do filme à medida que a trama avança, já fez inúmeras vítimas. “Homem-Aranha: De Volta ao Lar” começa como uma história de adolescente muito digna, mas sua conclusão é um festival de referências nerds enquanto o herói enfrenta o vilão em uma… Ilha cinzenta com fogo ao redor para em seguida ser integrado aos Vingadores. Essa lógica também existe nas produções da concorrente DC Comics, ainda que geralmente isso se aplique ao filme inteiro – como não lembrar de “Batman vs Superman” ou “Mulher Maravilha”, com seus planos recheados de pancadaria em CGI com fundo cinza?

Destin Daniel Cretton (à esquerda) conversa com Simu Liu no set (Foto: Jasin Boland)

Mas a fim de evitar que esta crítica se torne uma crítica a todo o modelo de produção cinematográfica de blockbusters adaptados de gibis, vamos ao que interessa: antes do “sequestro” das cores, o que propunha “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis”? Ora, primeiro é importante entender quem está por trás da direção do filme: Destin Daniel Cretton é conhecido por seus dramas familiares, com “Temporário 12” e “O Castelo de Vidro” tendo no trato de seus protagonistas com seus pais e irmãos o cerne da narrativa.

É exatamente isso que sustenta em partes a produção, dando à história um pouco de humanidade. O protagonista do título (Simu Liu) precisa retornar à China para reencontrar sua irmã Xialing (Men’ger Zhang) e, juntos, impedir que seu pai, Wenwu (o lendário Tony Leung) invada e destrua uma região mística oculta em uma floresta, onde acredita que sua esposa (e a mãe do protagonista) o aguarda. Some essa história a muito kung fu, um pouco de mitologia chinesa e – infelizmente – a fórmula Marvel, e temos “Shang-Chi”.

O kung fu não é tratado meramente como combate, mas linguagem

compartilhe

Como em boa parte dos filmes da Marvel, o começo do filme é empolgante. A cena dos pais do protagonista se conhecendo é linda, e o espectador que já esteja beirando aos 30 anos deve se lembrar imediatamente de quando o ótimo cinema chinês invadiu o circuito brasileiro após o sucesso de “O Tigre e o Dragão”. O kung fu não é tratado meramente como combate, mas linguagem, podendo ser uma dança, um flerte ou um diálogo. É belo como Daniel Cretton entende o uso disso e homenageia as artes chinesas com carinho e competência.

Gradualmente, porém, todo esse encantamento pelas artes chinesas vai desaparecendo. “Shang-Chi” perde não o respeito pela cultura, mas o interesse por filmá-la de maneira decente. O tom aventuresco e despretensioso logo cede lugar ao sacrifício cinematográfico por “algo maior”, e não tarda para que as cenas de ação troquem as florestas encantadas e coloridas por… fundos cinza, um dos grandes males do cinema blockbuster na atualidade – é tudo escuro, homogêneo e desinteressante. Se filmes de ação como “John Wick” (que, aliás, também deve muito ao kung fu) são uma homenagem ao cinema chinês muito por seu carinho ao filmar e iluminar a ação, “Shang-Chi” apenas finge que o faz, já que logo deixa de importar o que é filmado, passando a dar valor apenas para o fim, para onde aquela história está indo. Mais importante do que dar uma conclusão digna, bem fotografada e filmada, é inserir o novo personagem na prateleira de produtos do dito MCU.

“Shang-Chi” perde não o respeito pela cultura, mas o interesse por filmá-la de maneira decente

compartilhe

A reta final do filme parece existir apenas para conectar “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” no próximo projeto do estúdio, revivendo o não inédito sentimento de “filme-trailer”: o longa que não pode existir por si, não se basta como obra de arte independente e precisa preparar o terreno para o próximo. Por mais que tenha o universo mais interessante já introduzido desde o começo do MCU, “Shang-Chi” só é validado quando integra algo “maior”: ele só pode ser finalizado quando seus personagens cruzam o portal para se unirem ao time de bonecos da Disney. Esqueça o belo mundo de Ta Lo que conhecemos ao longo da trama, o importante mesmo é que o nosso herói chinês vai conhecer o Hulk ou o Capitão América!

E assim segue a Marvel com sua fábrica de salgadinhos Elma Chips. Se ontem era o Fandangos de Presunto (“Viúva Negra”), hoje é a Ruffles sabor Cebola & Salsa (“Shang-Chi”). Você até sente o gostinho de algo novo no começo, mas já está chegando no ponto em que a única certeza é a de que qualquer aspiração ou potencial artístico serão sequestrados conforme os filmes se tornam mais cinzas, monótonos, engessados e – principalmente – parecidos com os anteriores. Assim como em quase todo filme da Marvel, “Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” não pode acabar enquanto todas as suas cores sejam substituídas pela escuridão e a obra esteja, enfim, na prateleira de salgadinhos, digo, filmes do estúdio. Toda cor, toda ideia e todo mínimo esforço artístico será castigado e punido.

O importante, no fim, é manter vivo o meme: “com ótimas (sic) cenas de ação e muito humor, Filme X é o mais novo acerto da Marvel”.

“Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis” está em exibição nos cinemas e previsto para estrear no Disney+ 45 dias depois de sua estreia no circuito.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link