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“Maligno” é um dos grandes filmes de terror dos últimos anos

James Wan lembra o porquê de ser um dos melhores cineastas do gênero da atualidade ao homenageá-lo em suas diversas facetas

por Matheus Fiore

AVISO: Este texto contém SPOILERS do filme.

É seguro dizer que James Wan é um dos cineastas que mais entendem de terror neste século. Por mais que seja mais conhecido hoje por seu trabalho em “Aquaman” e “Velozes & Furiosos 7”, foi no terror que o diretor despontou para o mundo e ajudou a manter o gênero no topo. A saga “Jogos Mortais”, por exemplo, talvez seja a mais bem-sucedida e influente do começo dos anos 2000, e na década seguinte ele voltou a ditar tendências com a gigantesca franquia “Invocação do Mal”, cujo sucesso se explica pelas inúmeras sequências e derivados.

O novo filme de Wan, “Maligno”, é o seu primeiro projeto de terror desde 2016, quando lançou “Invocação do Mal 2” – de lá pra cá, o artista focou mais na produção e dirigiu apenas o citado “Aquaman”. Com o filme, porém, Wan mostra não só que não perdeu a mão, mas que conhece como poucos o formato que ama. O cinema é talvez a arte que mais fale sobre si, e o terror é sem dúvidas o gênero que mais fala sobre o próprio cinema. Não por acaso, os slashers são os filmes mais incompreendidos já feitos, já que boa parte do público costuma se incomodar com o humor e até com as incoerências do roteiro – que, no fim das contas, jamais importam – e acaba não percebendo que todo slasher é um filme sobre filmes.

James Wan (à esquerda) orienta George Young no set

Mesmo que não seja um slasher – ele até é em alguns momentos, mas também muitas outras coisas –, “Maligno” como tantos clássicos do terror é um filme que fala sobre o próprio gênero e sobre o cinema. Uma jovem tem visões de terríveis assassinatos e tenta investigá-los com ajuda da polícia antes que o assassino dê cabo de sua vida: esse fiapo de história existe apenas para que por quase duas horas Wan possa prestar uma homenagem ao gênero. 

Essas reverências vão desde referências simples, como um plano de uma televisão com imagem estática a la “Poltergeist” ou a primeira aparição da ameaça – digna de um filme de terror japonês -, até cenas inteiras que se descolam do todo, como a abertura que poderia ser um remake de qualquer giallo dos anos 70.

Além das eras, porém, Wan também está interessado na própria filmografia e nas diversas vertentes do terror. A vidraça digna de uma catedral na parede da protagonista, que ajuda a dar um tom sacro para o espaço em um momento no qual ainda não sabemos se a ameaça é ou não metafísica – naquele momento, tudo aponta para que “Maligno” seja um típico filme de espírito – relembra alguns momentos da citada série “Invocação do Mal”. Já as cenas do vilão em ação não falham em remeter diretamente à série “Jogos Mortais”. Mas como dito, Wan não se contenta em referenciar o próprio cinema e seus ícones, mas também o gênero como um todo.

O fiapo de história existe apenas para que por quase duas horas Wan possa prestar uma homenagem ao gênero

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Quando somos expostos ao terror dentro do lar da protagonista, “Maligno” se apresenta como um filme de possessão e espiritualidade. Os problemas reais, os conflitos familiares e mundanos são atravessados pelo que está além da compreensão humana. O inimigo parece se teleportar de um canto para o outro como Jason em “Sexta-Feira 13” e até a fotografia assume essa sobrenaturalidade para construir apreensão pela possível chegada de uma ameaça não-humana. É um momento no qual, sabiamente, Wan cria terror muito mais pelo que está no extra-campo, no que não vemos, mas imaginamos. É sobre o que está à espreita, escapando do nosso campo de visão.

Já quando o filme segue para outros ambientes, como a memorável cena da delegacia, Wan nos guia por puro gore. O filme se transforma, e a sugestão cede lugar para a superexposição (no melhor sentido possível). Não há vergonha em degolar e mutilar corpos para nos provar o quão poderoso é o “monstro”. Não há também nenhum truque para ocultar o antagonista, que quando exposto é filmado em planos duradouros para que o espectador enxergue e entenda tudo que está acontecendo em tela. A violência é bem coreografada, maquiada e iluminada, mas mais importante do que isso, ela é filmada de maneira bastante nítida. Ela é parte do impacto, e não pode ser ocultada por cortes rápidos ou câmeras tremidas.

Wan cria terror muito mais pelo que está no extra-campo, no que não vemos, mas imaginamos

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Sem medo de quebrar quaisquer regras lógicas, James Wan tem plena noção de que no cinema – e especialmente no terror – o mais importante é manipular seu espectador e promover um espetáculo. Não um show de referências, mas de imagens que, por acaso, possuem aqui e ali uma referência (ouviu, Marvel?). “Maligno” é um filme que se constrói sobre os diferentes terrores, do cinema e da vida de sua protagonista, e é capaz de transmutar das mais grotescas e mágicas formas ao longo de sua jornada.

Ao espectador, resta sentar e curtir a viagem.

“Maligno” está em exibição nos cinemas, previsto para estrear no HBO Max 35 dias depois de sua estreia no circuito.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

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