Imagem: Netflix/Motorsport

Documentário “Schumacher” é homenagem ao piloto com um roteiro de Wikipédia

Aprovado pela família de Schumi, filme é homenagem à carreira do piloto, mas pouco explora as características de Schumacher como tal

por Soraia Alves

Apesar de estar constantemente sob os holofotes como um piloto sete vezes campeão mundial de Fórmula 1, Michael Schumacher sempre manteve a vida pessoal o mais privada possível. É respeitando e seguindo esse comportamento que a família do piloto não atualiza imprensa e fãs com informações claras sobre o processo de recuperação de Schumacher, após o acidente sofrido por ele em 2013. Sendo assim, já era de se esperar que o documentário “Schumacher”, dirigido por Hanns-Bruno KammertönsMichael Wech e Vanessa Nöcke, anunciado como “o único filme aprovado pela família do piloto”, fosse manter a privacidade em relação ao estado de saúde do atleta. No entanto, o filme disponível na Netflix é tão chapa-branca, que não oferece muito além do que qualquer pessoa que acompanha a F1, ou que leia a biografia do piloto da Wikipédia, já sabe.

Divulgação/Netflix

O doc segue de forma cronológica e linear a carreira de Schumacher, mostrando seu envolvimento com o automobilismo desde muito cedo, a entrada para o circuito oficial aos 22 anos através da Benetton, o apadrinhamento por Flavio Briatore e a evolução na F1. A narrativa, no entanto, não consegue nem mesmo ser digna do legado de Schumi. As conquistas do piloto são creditadas a uma eterna busca pela perfeição, o que posteriormente também se torna uma desculpa para as polêmicas nas quais ele se envolveu.

O “foco acima de tudo” suprime qualquer emoção do filme. Uma das poucas exceções acontece quando o material mostra o quanto a morte de Ayrton Senna fez Schumacher pensar, talvez pela primeira vez, sobre os riscos de um esporte de alta velocidade. “Foi algo muito estranho. Eu acordo durante a noite, durmo talvez três horas por noite”, comenta Schumi durante uma entrevista sobre como lidou com a morte de Senna, em cenas inéditas obtidas pela produção do documentário.  

Apesar do impacto gerado pela morte de Senna, a relação de Michael Schumacher e outros pilotos é praticamente inexistente. O próprio Senna é mostrado apenas como um adversário esquentado e incomodado com o novato alemão. Alguns pilotos dão depoimentos no filme, incluindo Ralf Schumacher, Eddie Irvine, David Coulthard, Mika Hakkinen e Sebastian Vettel. Com exceção de Ralf, irmão de Michael, o que se vê são somente comentários genéricos. Chama atenção que Rubens Barrichello, companheiro de Schumacher na Ferrari entre 2000 e 2005, sequer aparece na produção.

Os diversos momentos polêmicos da carreira de Schumacher são todos suavizados, sendo meramente mencionados. O filme não mostra as suspeitas de ilegalidade do carro Benetton B194, que levou o piloto ao título mundial de 1994, por exemplo, assim como omite algumas das punições tomadas por ele em diferentes GPs.

Dois momentos deixam claro a “passada de pano” em todas as situações consideradas antidesportivas envolvendo Schumi. Primeiro, sobre a famosa batida contra Damon Hill, durante o GP da Austrália em 1994. O filme traz uma entrevista como comentário de Schumacher sobre o acidente: “Eu estava balançando o carro para checar tudo e limpar os pneus. Foi o Damon que me acertou primeiro, no sidepod”. Já sobre a semelhante batida contra Jacques Villeneuve, em 1997, quem “limpa a barra” de Schumacher é Ross Brawn, então diretor-técnico da Ferrari: “Na cabeça dele, Jacques Villeneuve tinha batido nele. Na cabeça dele, foi o que aconteceu. Não foi um ato consciente, não foi um ato premeditado”.

Netflix/Paul-Henri Cahier/Getty Images
As conquistas do piloto são creditadas a uma eterna busca pela perfeição

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Incomoda bastante, que um filme totalmente parcial e feito como homenagem à carreira do piloto, pouco explore sobre as características de Schumacher como tal. Novamente, foco e determinação parecem explicar tudo, mas quase não há comentários sobre o estilo de Schumi ao dirigir, sua relação com os carros e o que de fato o tornava diferente dos outros competidores. Essa questão melhora um pouco quando o doc aborda a era Ferrari, mostrando o quanto o piloto se dedicava também fora das pistas no projeto de levar um campeonato mundial pela Scuderia. Com ele na equipe, é exigido de todos um nível totalmente diferente de comprometimento, especialmente em relação ao desenvolvimento do carro. É só aí que temos um pouco de noção do como Shumacher lidava com essa relação homem-máquina fundamental no automobilismo.

Conseguir o primeiro campeonato pela Ferrari é tratado como o ápice do documentário. Desse momento em diante, o filme acelera a narrativa para dar conta de passar por todas as outras vitórias de Schumacher, sem tocar em detalhes substanciais sobre cada campeonato. A pausa por três temporadas, e o breve retorno de Michael à F1, pela Mercedes GP em 2010, também é mostrado às pressas.

Netflix/Acervo pessoal familiar
Incomoda bastante, que um filme totalmente parcial e feito como homenagem à carreira do piloto, pouco explore sobre as características de Schumacher como tal

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A correria passa a dar espaço para relatos mais íntimos da família, especialmente de Corinna, esposa de Michael, e os filhos, Gina-Maria e Mick. E são nesses momentos que podemos finalmente conhecer um pouco mais de Michael Schumacher. Não é preciso escancarar a intimidade, nem mesmo quebrar o código de silêncio da família sobre a saúde do piloto. Apenas algumas fotos e vídeos caseiros, em família e praticando esportes radicais, nos dão um maior vislumbre sobre Schumi e suas emoções.

A busca por produzir uma homenagem perfeita tirou toda a emoção de “Schumacher”. Com uma carreira de feitos inquestionáveis, são exatamente as complexidades de Schumi que fazem dele não apenas um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, mas também um dos mais intrigantes. Pouco dessa curiosa figura é entregue no documentário. O legado de Michael Schumacher merece mais.

“Schumacher” está disponível na Netflix.

nota do crítico

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