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“Montero” é um fragmento pop essencial que subverte clássicos do hip hop hétero

Primeiro álbum de Lil Nas X apresenta novas camadas de um músico que quebra estereótipos desde que surgiu

por Soraia Alves

Não parece, mas “Montero” é o primeiro álbum de Lil Nas X. Desde 2019, quando a versão de “Old Town Road”, em parceria com Billy Ray Cyrus, dominou o ranking da Billboard por 19 semanas consecutivas, a presença de Nas é constante na mídia e nas paradas musicais. Embora tenha lançado um tímido EP também em 2019, o rapper já apresentou outros singles de sucesso que afastaram qualquer ideia de “one hit wonder” sobre sua carreira. Com isso, “Montero” não tem exatamente a função de provar Lil Nas X como um artista para além de “Old Town Road”, mas sim apresentar novas camadas de um músico que quebra estereótipos desde que surgiu. E assim o álbum o faz.

Levando o nome real de Lil Nas X (Montero Lamar Hill), também era de se esperar que o disco trouxesse uma carga intimista nos temas abordados. Nas faz isso de forma extremamente direta em todas as letras, seja para falar de sexo, de problemas familiares, bullying ou fama. É exatamente na verdade de Nas que “Montero” se torna original e um fragmento contemporâneo essencial.

O disco abre com “Montero (Call Me By Your Name)”, single já conhecido pelo polêmico clipe que incomodou os conservadores americanos. Na música, uma batida pop sob uma curiosa guitarra flamenca, Nas apenas aborda sua vida sexual com termos que tantos outros rappers usam há décadas. Mas ele é um homem gay assumido, e isso incomoda. Em seguida, “Dead Right Now” se sustenta numa estrutura de rap moderno, que lembra trechos de “Money Trees”, de Kendrick Lamar, enquanto a letra expõe, por exemplo, que o rapper apanhava da mãe quando ela estava bêbada.

Com produção de Kanye West e participação de Jack Harlow, “Industry Baby” é a celebração de quem chegou no topo do mercado, mas também reflete sobre a presença de um homem negro e queer no mainstream. A faixa traz referências aos dois Grammys vencidos por Nas em 2020 e frases como “Eu explodi. Agora todo mundo está tentando me processar”, deixando a parceria com West extremamente identificável.



É exatamente na verdade de Nas X que “Montero” se torna original e um fragmento contemporâneo essencial

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Uma das graças de “Montero”, inclusive está em identificar referências e “easter eggs” sutis e muito bem distribuídos ao longo do trabalho todo. “That’s What I Want”, por exemplo, é pura referência ao Outkast nos anos 2000. Já Elton John aparece apenas tocando piano em “One of Me”, numa espécie de apadrinhamento que uma figura queer icônica faz por outra.

Além dos já citados Elton John e Jack Harlow, o disco traz as participações de Doja Cat (“Scoop”), Megan Thee Stallion (“Dolla Sign Slime”) e Miley Cyrus (“Am I Dreaming”). Com exceção de Cyrus, que aparece deslocada em sua participação, todos os feats ajudam Nas a firmar uma musicalidade múltipla como personalidade pop.



“Montero” é majoritariamente produzido pelo duo Take a Daytrip, que incorpora diferentes gêneros musicais à base hip hop de Lil Nas X. É verdade que nenhum resultado é um hit tão estrondoso quanto o rap-country de “Old Town Road”, mas há investidas muito interessantes, como o arranjo de cordas em “Tales of Dominica”, que embala a dificuldade que Nas tem em revisitar o passado depois de viver a fama. Ou ainda a inserção de um synthpop oitentista em “Lost in the Citadel”, pérola que lembra alguns trabalhos de Twin Shadow. As guitarras de “Life After Salem” colocam a canção num patamar de pop-punk muito bem-vindo.

“Sun Goes Down” tem as letras mais reflexivas do álbum todo, falando abertamente sobre racismo e bullying sofridos por Nas na adolescência. A música é forte e, de certa forma, ajuda a reforçar o impacto de quem é Lil Nas X: um jovem que se perguntava se sua pele era muito escura e escondia sua sexualidade, e hoje é um artista que destaca homens negros em clipes como o de “Industry Baby”.

Ainda em “Industry Baby”, Lil Nas X se define como “um cara do pop como o Bieber”. “Montero” é, portanto, um álbum pop por essência. Mas também é um dos melhores álbuns de hip hop do ano, que incorpora elementos diversos que o amarram à premissa do pop. Mais importante, no entanto, é o quanto “Montero” subverte “clássicos” do hip hop hétero quando Nas canta trechos como “I don’t fuck bitches, I’m queer”.

Lil Nas X é um artista mais complexo do que muitos imaginaram, e é empolgante celebrar essa obra como a primeira de um universo inteiro ainda a ser explorado.

nota do crítico

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