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Ex-funcionária do Facebook afirma que empresa incentiva discurso de ódio e “prefere lucro à segurança”

“O Facebook percebeu que, se mudarem o algoritmo para ficar mais seguro, as pessoas passarão menos tempo no site", diz a ex-funcionária da empresa

por Soraia Alves

Recentemente, o Wall Street Journal publicou documentos internos do Facebook que revelaram algumas informações confidenciais da empresa, incluindo que a companhia está ciente de como o Instagram afeta a saúde mental dos adolescentes. Agora, Frances Haugen, a ex-funcionária que vazou os documentos para o jornal, veio a público em uma entrevista dada ao “60 Minutes” para contar ainda mais detalhes sobre o funcionamento interno da empresa de Mark Zuckerberg. “O Facebook, repetidamente, mostrou que prefere o lucro à segurança”, disse Frances, em uma das frases mais “polêmicas” da entrevista.

Frances Haugen entrou no Facebook em 2019, atuando como gerente de produto para o grupo Civic Integrity, que basicamente lidava com questões sobre democracia e desinformação. Ela deixou a empresa em maio deste ano, quando o grupo foi dissolvido. Segundo a ex-funcionária, a empresa não está “disposta a investir o que realmente precisa ser investido para evitar que o Facebook seja perigoso”.

Frances ressalta que já trabalhou em várias outras big techs, incluindo Google e Pinterest, mas que o Facebook “era substancialmente pior” simplesmente porque a empresa sempre coloca os lucros acima do bem-estar dos usuários. “Existiam conflitos… entre o que era bom para o público e o que era bom para o Facebook”, disse Haugen durante a entrevista, “e o Facebook escolheu várias vezes otimizar para seus próprios interesses, para ganhar mais dinheiro”, completa.

Ela apresentou “dezenas de milhares” de páginas de documentos internos do Facebook para John Tye, fundador do Whistleblower Aid, solicitando proteção legal e ajuda na divulgação das informações. Os documentos incluem pesquisas internas da empresa, apresentações de slides, cartas de apresentação, entre outros conteúdos. Frances também entrou com uma denúncia na Securities and Exchange Commission (SEC), acusando o Facebook de tomar medidas internas que não correspondiam às suas declarações públicas.

Na denúncia apresentada à SEC, Frances Haugen compara pesquisas internas e documentos do Facebook a declarações públicas e divulgações feitas por Mark Zuckerberg e outros executivos da empresa. Em um exemplo, ela garante que o Facebook contribuiu para a desinformação durante a última eleição nos Estados Unidos, assim como para a invasão ao Capitólio, ocorrida no dia 06 de janeiro deste ano: “O Facebook divulgou seu trabalho para combater a desinformação e o extremismo violento em relação às eleições e insurreições de 2020. Mas, na realidade, o Facebook sabia que seus algoritmos e plataformas promoviam esse tipo de conteúdo prejudicial e não conseguiu implantar contra-medidas recomendadas internamente ou duradouras”.

Segundo a ex-funcionária, a raiz do problema para as questões de desinformação e discurso de ódio são os algoritmos lançados em 2018, que comandam os conteúdos que os usuários consomem na plataforma. De acordo com ela, o objetivo desses algoritmos é impulsionar o engajamento, e o Facebook descobriu que o melhor engajamento é aquele que inspira medo e ódio nos usuários. “É mais fácil inspirar as pessoas à raiva do que a outras emoções”, completa Hagen.

A plataforma permite conteúdos divisionistas porque eles promovem engajamento. “O Facebook percebeu que, se mudarem o algoritmo para ficar mais seguro, as pessoas passarão menos tempo no site, clicarão em menos anúncios e eles ganharão menos dinheiro”, resume a ex-funcionária.

Frances Haugen encerrou a entrevista pedindo uma regulamentação mais ampla das redes sociais. Já o Facebook ainda não se pronunciou sobre as revelações.

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