"Get Back" é um presente para os fãs e uma reparação histórica para os Beatles

“Get Back” é um presente para os fãs e uma reparação histórica para os Beatles

Documentário de Peter Jackcon explora as complexidades da banda, e consegue reescrever a história de uma forma simplesmente realista

por Soraia Alves

Quando “The Beatles: Get Back” foi anunciado como um documentário de Peter Jackson sobre as gravações de “Let It Be”, imprensa e fãs imaginaram um material chapa branca. Com Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison assinando como produtores, Jackson deveria, de alguma forma, usar as mais de 60 horas de filmagens e 150 horas de gravações de áudio para diminuir o estigma de “Let It Be” (álbum e filme), período marcado como “o começo do fim dos Beatles”. É, portanto, uma tremenda satisfação concluir, após quase 8 horas na frente da TV, que “Get Back” não é um documentário clean e insosso, mas um material que explora de forma muito mais ampla as complexidades da banda. E sim, Jackson consegue reescrever a história, não de forma forçada ao otimismo, mas simplesmente realista.

O foco da narrativa não é o término do grupo. Sem pressa e com muitos detalhes, o diretor nos leva a entender os Beatles como banda, com um profundo olhar sobre o processo criativo e as relações que construíram a grandiosidade do grupo. Os Beatles são os Beatles por algum motivo, e “Get Back” nos mostra isso em cada conexão de olhares entre John e Paul, em cada frase despretensiosa de George apresentando músicas como “I Me Mine” e “All Things Must Pass”. Quando entendemos sua fórmula mágica, também percebemos de forma natural que ela tornou-se insustentável. É impossível manter o método Lennon-McCartney quando há um Harrison cheio de ideias e vontade de fazer muito mais do que lhe permitem. É difícil manter prazos não insanos (uma produção de 14 músicas em apenas 3 semanas) quando Starr vai se dedicar a gravação de um filme no próximo mês. É complicado manter o foco quando seus interesses são tão mais plurais do que a rotina de produzir mais um álbum. E é doloroso ver o fim iminente da banda chegando pouco a pouco.

A fidelidade à ordem cronológica, que mostra dia após dia daquele janeiro de 1969, é fundamental para trazer uma intimidade única ao material. Quem disse que o doc parece um reality show, não errou. E isso é um presente para qualquer fã. Longe de repórteres e do público podemos ver a essência de cada beatle, suas decisões artísticas e empresariais. O processo de restauração das imagens, que contou com o uso de ferramentas com inteligência artificial para isolar e limpar faixas até então inaudíveis, também é essencial para criar a atmosfera de pessoalidade. Como resultado dos 18 meses de trabalho de Peter Jackson, não parece que estamos vendo imagens de 52 anos atrás. No fim, somos todos como Yoko Ono ao lado dos quatro Beatles, acompanhando cada acorde na expectativa do que tudo aquilo vai se tornar.

Divulgação/Disney+
Jackson consegue reescrever a história, mas não de forma forçada ao otimismo, mas simplesmente realista

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Vale dizer que se “Get Back” é uma reparação histórica com os Beatles, é também com Yoko. São muitas horas de inquietações, planos de projetos paralelos, divergências criativas e comerciais que não deixam dúvidas sobre Yoko ser o menor dos problemas dos Beatles. A história sempre foi injusta (machista e xenofóbica) com a artista. Materiais como “O Diário dos Beatles”, de Barry Miles, chegam a culpar Yoko pela saída temporária de George Harrison da banda, no início das gravações de “Let It Be” ainda no Twickenham Studios. Ao menos agora isso é diferente. Nada unia ou separava os Beatles mais do que eles mesmos.

Entre os vários momentos para deleite dos fãs, aqueles que mostram o processo de criação das canções são verdadeiras pérolas. Ver Paul McCartney criando “Get Back” desde o estágio mais cru, apenas uma melodia tocada no baixo, é de fazer qualquer um se maravilhar (e os mais sensíveis chorar). As inúmeras jams com músicas de outros artistas não acrescentam de fato à produção do álbum, parecem uma grande angústia criativa, mas é como se a banda estivesse em busca daquele prazer de fazerem um simples rock juntos. Aquilo que um dia os levou a se juntarem como banda. A diversão acaba quando o trabalho pede urgência entre repetições de “Don’t Let Me Down” e a insistência do diretor Michael Lindsay-Hogg sobre onde e quando fazer uma apresentação vivo, a primeira dos Beatles em três anos, a última como depois ficou conhecido o mini show no terraço do Apple Studios. A apresentação em si é um capítulo à parte, cômico do início ao fim por conta da presença policial e da reação dos próprios beatles à situação.

Divulgação/Disney+

“Get Back” consegue mostrar de forma única quem eram os Beatles daquela época e porque tudo foi como tinha que ser. O fim de um relacionamento pode ter diferentes versões, de acordo com quem conta a história. Definitivamente, a versão de Peter Jackson sobre “o começo do fim dos Beatles” é com a qual precisamos ficar: um desgaste natural contra o qual não adiantava lutar.

“The Beatles: Get Back” está disponível no Disney+.

nota do crítico

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