"Ataque dos Cães" visita o faroeste pelo prisma das relações de desejo
Imagem: Kirsty Griffin/Netflix

“Ataque dos Cães” visita o faroeste pelo prisma das relações de desejo

História de rancheiro que aterroriza esposa do irmão é aproveitada por Jane Campion para localizar triângulo de relações adoecidas nas vocações do gênero

por Pedro Strazza

Em um momento em que os serviços de streaming parecem ter se firmado como espaço criativo confiável aos ditos grandes cineastas (e apenas eles) viabilizarem seus projetos mais ambiciosos, não deixa de ser uma coincidência intrigante que “Ataque dos Cães” e “On the Rocks” tenham sido lançados com um intervalo de pouco mais de um ano de diferença. Realizados neste momento de rebalanceamento da indústria, ambas as produções servem como espécie de retorno temático a suas diretoras, respectivamente a Jane Campion e a Sofia Coppola que no espaço de dez anos marcaram território no imaginário popular ao se tornarem a segunda e terceira mulheres a serem indicadas ao Oscar de direção.

Não que os dois filmes carreguem semelhanças na narrativa ou nas próprias histórias, mas o que está em jogo para ambas as produções soa como um ato de reaver propostas passadas da carreira e filtrar as mesmas por uma nova perspectiva. Enquanto o viés mais misógino da expressão “direção feminina” começa a se dissipar a passos de tartaruga em Hollywood (em 11 anos fomos de quatro mulheres indicadas a duas vencedoras do prêmio da Academia, pensemos assim), é como se as duas cineastas aproveitassem o momento para aprofundar seu cinema no âmago de suas intenções, investigando as próprias estruturas à procura de novos significados.

Se para Coppola isso se deu pelas inversões mais diretas das relações semibiográficas de pai e filha do filme que lhe rendeu o Leão de Ouro em Veneza, “Um Lugar Qualquer” (da mudança de Los Angeles a Nova York à própria dinâmica entre Rashida Jones e Bill Murray), para Campion esse movimento está na reaproximação com as relações trianguladas que definiram seu “O Piano”, filme que também a tornou na primeira diretora vencedora da Palma de Ouro em Cannes. Tanto o drama de época estrelado por Holly Hunter e Harvey Keitel quanto o faroeste protagonizado por Benedict Cumberbatch partem de um mesmo princípio de sentimentalismo represado, alimentado tanto por questões de cenário (lá a inexplorada Nova Zelândia, aqui a expansão para o Oeste norte-americano) quanto das próprias relações que se criam entre os personagens.

Jane Campion (sentada) no set

A própria escolha de Campion por fazer de seu primeiro filme em 12 anos um faroeste adaptado de um livro de Thomas Savage diz muito também do clima de retorno sem grande interesse no conforto que permeia a produção. Tanto “O Piano” quanto “Ataque dos Cães” se fazem como filmes de fronteira que aproveitam as paisagens inóspitas como reflexo das situações limite encenadas na história, e no caso do último aborda-se isso de maneira mais frontal. História de dois irmãos que tocam um rancho na Montana ainda não civilizada, o filme é criado menos em torno das tensões da vida na região que da adesão ao estilo de vida dos rancheiros e seus contratados: enquanto George (Jesse Plemons) traz no comportamento educado e gentil seu perfil mais próximo dos modos das grandes cidades, Phil (Cumberbatch) é fiel à vida de cowboy, contente em passar os dias cuidando do gado, confraternizando com os trabalhadores e se atentando aos detalhes do ganha-pão.

O que já é uma fraternidade com ruídos só se acentua quando George se casa com Rose (Kirsten Dunst), dona de uma estalagem próxima, e a traz para dentro da propriedade. Ainda que a passagem pelo internato do filho da mulher, Peter (Kodi Smit-McPhee), traduza o tempo passado na história, o grande trunfo de Campion nesse momento é não demarcar o andar dos dias e jogar tudo em cima das relações entre os personagens, pois é a partir daí que o espectador é submetido às tensões de Rose e Phil, que a vê como uma invasora de seu espaço e mais um sinal da civilização o qual se aproxima a cada dia passado. 

Eis aí o momento que se dá a inversão completa do triângulo de “O Piano”. Se lá era sobre o caso romântico da escocesa de Hunter e o marinheiro de Keitel enquanto o homem de fronteira de Sam Neill está ocupado nos trabalhos, aqui tudo que se encena é feito a partir do estranhamento do cunhado com a esposa enquanto o marido vai e vem na casa por conta do rancho. Tudo da perspectiva de Phil, claro, o estranho do trio que desta vez ocupa a posição de protagonista, e com Peter assumindo o mesmo lugar de espectador da ação que Anna Paquin tinha em 1993.

O grande trunfo de Campion é não demarcar o andar dos dias e jogar tudo em cima das relações entre os personagens

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O jogo de forças que se segue é interessante (sobretudo quando articulado em torno dessas relações de civilização e selvageria a partir da posição frágil de Rose), mas é como Campion subverte as noções do espectador dentro da narrativa que define “Ataque dos Cães”. O cinema da diretora desde sempre se entende diante de relações de desejo e dos impulsos os quais cercam vontades indômitas (Isabel Wittman define bem tal dinâmica como uma entre erotismo e morte) e dessa vez tal exercício se dá diante da aproximação do protagonista e (sobretudo) da compreensão das forças que o movem. Phil começa a história na posição de um monstro tirano, mas sua imagem é tratada pela diretora como uma mitologia a ser exposta, e é desse choque de interpretação que o olhar do público é guiado por grande parte dos eventos. 

O trabalho tão elogiado de Cumberbatch como o vaqueiro é primordial a essa equação (ainda mais em uma narrativa comprometida nos gestos sutis, a modalização da trajetória é particularmente difícil), mas também se mostra essencial o posicionamento de Dunst, Plemmons e principalmente Smit-McPhee para contrapor os arroubos do rancheiro. Campion é certeira de escalar a atriz para o papel de Rose, ainda mais por aproveitar a imagem desta como “estrela hollywoodiana que nunca foi” para acrescentar à fragilidade da personagem, mas os outros dois atores ocupam seus postos com uma perspectiva bem montada de refletir os efeitos da presença de Phil enquanto uma imagem dominante daquele espaço – Plemmons pelo antagonismo subjetivo do acuamento pela persona civilizatória, Smit-McPhee em todo o desenrolar de afogamento de sexualidade que se revela a partir da metade do filme.

Essa desconstrução também se mantém ativa quando se desloca o eixo da narrativa em sua reta final para a relação de Phil e Peter, sobretudo por sublinhar as questões de masculinidade da história. O âmago do filme está no desfazimento do mito pela ótica da sexualidade e, conforme move-se o olhar para longe de George e Rose, a produção concentra tudo na perspectiva do garoto e sua relação de atração e repulsa sobre o cruel rancheiro. Daí em diante Campion trafega na esfera do íntimo com pulso muito firme para captar essa aproximação dos dois personagens, e “Ataque dos Cães” se resolve muito bem tanto nas sutilezas (o plano fechado na corda fabricada, a caixa de revistas) quanto em seus momentos de pura ebulição temática na montagem – tudo que envolve o banho dos vaqueiros e a vida privada de Phil naquele instante pode ser descrito apenas como brilhante na reorganização dos elementos.

O âmago do filme está no desfazimento do mito pela ótica da sexualidade

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A trajetória final da narrativa é uma que inverte o procedimento mais tradicional da diretora, aliás, ainda que a máxima de destruição se mantenha intocada. Se em projetos como o próprio “O Piano” ou “Em Carne Viva” Campion se bastava em traçar o momento de incompatibilidade do protagonista com aquele mundo para demarcar os desfechos, em “Ataque dos Cães” se contamina essa constatação com a máxima do faroeste representar o fim, seja de um momento histórico, de um modo de vida ou de um folclore maior. A derrocada de Phil não é só uma história sobre a queda de um homem perante o cenário, mas do lamento do fim de uma época e de seu universo de relações.

Apesar da passagem bíblica que dá nome ao filme no original reforçar com precisão essa dualidade proposta na interpretação dos personagens pelo público, a imagem que consagra melhor os méritos do filme está na montanha onde Phil e (depois) Peter se revelam estar sempre avistando a figura do cachorro. Se nos territórios mais hostis encontram-se as figuras mais delicadas, Campion enfim encontra uma narrativa que dá conta de abarcar tal complexidade como o enigma que merece – ou como flores de papel cuja fragilidade esconde espinhos venenosos, talvez.

“Ataque dos Cães” está disponível na Netflix.

nota do crítico

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