"Matrix Resurrections" é a obra-prima que mapeia o cinema de franquia contemporâneo
Imagem: Divulgação

“Matrix Resurrections” é a obra-prima que mapeia o cinema de franquia contemporâneo

Filme de Lana Wachowski se assume como farsa mercadológica para criticar indústria e propor discussão sobre o cinema de autor na era Marvel

por Matheus Fiore

Ao lado de sua irmã Lily, Lana Wachowski percorreu um caminho bem curioso em sua carreira cinematográfica. Após sequestrar todos os olhares com “Matrix”, um dos filmes mais influentes das últimas décadas, as duas diretoras continuaram o sucesso até fechar a trilogia com “Matrix Reloaded” e “Matrix Revolutions”. Tudo que veio depois, porém, foi tão divisivo quanto as sequências. O esteticamente visionário e, até hoje, único, “Speed Racer”, criticado por ser estilizado demais, só é lembrado com carinho por um nicho; o estruturalmente audacioso e extremamente sentimental “A Viagem”, incompreendido por não ceder aos caminhos óbvios de uma narrativa blockbusteriana, mal foi visto; e o politicamente incisivo “Destino de Júpiter”, que revisita com maestria as ficções-científicas dos anos 50 e 60, foi mal recebido por nunca fugir de seu lado fantasioso e se tornou outra obra incompreendida. 

As irmãs Wachowski possuem uma das carreiras mais ricas do século XXI, atrás de no máximo um punhado de cineastas. Mesmo assim, não possuem nem de longe o reconhecimento que merecem. Metade de seus filmes são odiados. A paixão da indústria e do público se limita ao que as alçou à fama: “Matrix”. Veio, então, o desafio de revisitar uma das maiores trilogias de todos os tempos. Lily, sabe-se lá o porquê, não topou. Já Lana, sozinha, enfrentou o desafio. Com boa parte do elenco de volta e a diretora de novo no comando de tudo, temos um filme.

Lana Wachowski (no topo) orienta a equipe no set

Como anunciado nos trailers, “Matrix Resurrections” é um filme bastante consciente de seu lugar no mundo. Lana não poupa as referências em sua narrativa metalinguística e faz da jornada de resgate de Neo (Keanu Reaves) e Trinity (Carrie-Anne Moss) uma revisita à trilogia, o qual começa parecendo uma simples brincadeira mas vai bem além. Com uma Wachowski, a narrativa sempre vai além. Seja pela profundidade dos temas abordados no roteiro, seja pela eterna busca pelo rompimento com padrões estilísticos e estéticos, a diretora sempre tenta dar um passo maior do que o esperado. O quarto filme existe para reafirmar a autoralidade de Wachowski, que engana tanto público quanto estúdio e frustra expectativas ao fazer uma obra extremamente pessoal.

Nessa busca pela representação de questões pessoais, “Matrix Resurrections” se torna um filme com potencial para desagradar bastante uma boa parcela do público. Muitos esperam de “Matrix” tiroteio, pancadaria, uma ação esteticamente revolucionária ou algo do tipo, e Lana parece bem ciente disso e pronta para inverter essas expectativas. Essas características que marcaram a trilogia clássica existem, mas em vez de meramente revisitadas, são desconstruídas. A ação “bullet time”, que marcou época quando Trinity foi apresentada ao público na introdução do longa de 99, está de volta, mas como autorreferência. Quando o tempo “congela” para ação acontecer, o que está em jogo não são chutes, socos e balas, mas sentimentos. “Resurrections” põe de lado a busca pela ação para desacelerar e pensar sua própria forma. 

“Resurrections” põe de lado a busca pela ação para desacelerar e pensar sua própria forma

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Se parte da graça de “Matrix” é ver os personagens tentando revolucionar o sistema capitalista sequestrando as pessoas para a causa ao despertá-las, a lógica se aplica também ao próprio fazer do quarto capítulo. Lana Wachowski sequestra o próprio filme e faz dele não a continuação cheia de referências e fan services estúpidos que inundam e empobrecem o cinema contemporâneo, mas um filme que questiona sua própria existência dentro do mercado que o concebeu. Há até mesmo cutucadas diretas à Warner Bros. ao longo da projeção. Lana parece bastante interessada em sugerir um filme grandioso em escala, apenas para reverter isso e resolver seus principais conflitos em conversas em uma cafeteria. Aqui, a grandiosidade da imagem existe apenas para ser subvertida em prol da grandiosidade dos sentimentos. Municiado de uma causa, o indivíduo é maior do que o sistema.

Lana Wachowski parece decidida a criticar a própria indústria por ter constatado que os grandes estúdios não vão mais financiar projetos grandiosos e autorais. Se Lana só teria liberdade para fazer sua arte dentro dos moldes das grandes companhias, a cineasta o faz sequestrando a narrativa. No fim do dia, “Matrix Resurrections” é também um filme sobre a impossibilidade de um autor ter acesso à produção de grandes filmes na contemporaneidade – um processo que vem se intensificando desde o fracasso do incompreendido “O Portal do Paraíso”, de Michael Cimino. Se é para revisitar o passado, que seja derrubando tudo, desconstruindo e refundando a própria mitologia e reafirmando suas posições ideológicas de maneira ainda mais incisiva, como faz Wachowski.

O filme questiona sua própria existência dentro do mercado que o concebeu

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Ao se assumir um filme sobre, entre outras coisas, o peso da própria saga, “Matrix Resurrections” é o tipo de blockbuster que não se priva de deliberadamente frustrar as expectativas de público e acionistas ao só trazer as referências desejadas como farsa ou como bonecos – ou estátuas estáticas, incapazes de realizar a ação inspirada no cinema de Hong Kong que tanto marcou época. Até quando algum fan service é jogado na tela, chega como meio de comentar a necessidade de haver esse fan service. Sob certa perspectiva, a obra é uma especie de anti-Marvel que desdenha da produção em massa de mega franquias.

Quando falo de séries de filmes, gosto de diferenciar os termos saga e franquia. Franquia costuma trazer aquele gosto de produto, um tanto quanto enlatado, sem necessariamente ter um impulso artístico ou uma ideia interessante que mova sua produção. Lana pega, então, uma série consagrada de filmes e trata justamente como o estúdio quer, uma franquia. De bonecos, filmes, jogos… E o que mais o estúdio quiser. É sem dúvida um filme que divide opiniões, mas também um que, veja só, tem algo a dizer. Sobre si, sobre sua autora, sobre a indústria. Uma resposta aos últimos movimentos da indústria, do cinema, do público, e por ai vai.

A pedra de Roseta do cinema contemporâneo, que sempre poderemos revisitar quando, no futuro, com uma visão mais esclarecida do que acontece hoje, quisermos estudar e entender porquê filmes como “Matrix” não surgem como surgiam no passado. Enfim, cinema.

“Matrix Resurrections” está em exibição nos cinemas brasileiros.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

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