"Drive My Car" alinha dores do trauma com caminhos da criação
Imagem: Divulgação

“Drive My Car” alinha dores do trauma com caminhos da criação

Com adaptação de conto de Murakami, Ryusuke Hamaguchi cristaliza cinema de assombrações

por Pedro Strazza

Dada a duração de três horas e as diversas facetas que o filme foi adquirindo ao longo dos últimos meses, de adaptação de Haruki Murakami a indicado ao Oscar, faz sentido que “Drive My Car” já tenha ganhado tantas leituras do público e da crítica. É um filme sobre luto? Claro, mas para outros também um sobre a natureza da performance, da criação, até da pandemia pelo vislumbre inserido artificialmente no fim da projeção. O leque de temas é vasto e a produção aceita tudo em algum nível.

Mais interessante que a desmistificação (ou dependendo do olhar, mistificação) da simbologia, porém, é a forma como o cinema de Ryusuke Hamaguchi se processa nos rumos narrativos da produção, espécie de épico intimista que oferece mudanças aos procedimentos recentes do diretor japonês. Figura mais ou menos nova do circuito principal de festivais – sua primeira passagem é de 2015 com o homérico “Happy Hour” em Locarno – o cineasta desde essa revelação pro mundo se mantém como realizador de dramas regidos pelo espectro da assombração, despido dos pormenores do horror e focado numa ideia maior de presença. O centro emocional que une as intenções de “Drive My Car” ao seus antecessores imediatos, “Roda do Destino” e “Asako I & II”, é a elaboração de relações e relacionamentos como perturbações dos protagonistas, uma espécie de passado que se manifesta e atormenta pelo viés da má resolução.

A diferença crucial que separa este filme dos outros dois longas do diretor está no registro do jogo. Além de uma adaptação, “Drive My Car” é o único desses projetos que lida com a assombração interior sem de fato materializá-la, mantendo-a inscrita no luto que cerca o protagonista de Hidetoshi Nishijima. Centro gravitacional da trama, a esposa do personagem mantém presença na narrativa a partir de uma fita cassete ouvida repetidamente no Saab 900 do personagem, é verdade, mas a inflexão deste elemento também se encontra diminuída, até porque outras questões carregam maior atenção. De alguma forma o efeito dessa curva se mantém, porém, e a percepção desse modo de operação revela a força quase sobrenatural da obra.

A equipe no set de gravação

Despido de classificações apressadas do filme, o fato é que “Drive My Car” mantém várias bolas em movimento para atingir seus fins e muito deste trabalho serve de expansão aos limites do conto de “Homens Sem Mulheres”. Com quarenta páginas, a história que abre o livro de Murakami trabalha a mesma premissa do ator viúvo e atormentado pelas traições da esposa numa razão de performance muito específica, de olho no relato da aproximação do personagem de um dos amantes e na detecção de uma busca frustrada por preencher lacunas. O estilo confessional do autor lida com tudo isso na chave da incorporação que é uma ferramenta comum da atuação, entendendo que o disfarce assumido dentro e fora dos palcos não ajuda na compreensão do todo. Sublinha-se no conto uma noção de como sempre há uma parte faltando na desmistificação do outro, com esse mistério da ausência em algum nível fazendo parte das dinâmicas de atração.

Ainda que essa constatação “aceite o mistério” seja preservada do conto pro filme, a narrativa de Hamaguchi amplia essa estrutura a um conforme mais adequado a sua expansividade de atos, por sua vez um tanto derivada de John Cassavetes. Além da causa da morte da esposa Oto (Reika Kirishima) ir do definhamento do câncer à tragédia súbita de uma hemorragia cerebral, o longa abandona o foco na investigação dos casos para se concentrar na versão de “Tio Vânia” que o protagonista Yusuke (Nishijima) prepara durante uma residência em Hiroshima.

Enquanto esse movimento traz pra frente do palco todos os temas da peça de Anton Tchekhov, o roteiro do diretor e Takamasa Oe também dá espaço a outros personagens secundários que fazem parte da encenação e permeiam a vida de Yusuke. Falando em expansividade “hamaguchiana”, essa jogada permite a construção de mais dramas ao redor do diretor da peça, da atriz muda (Park Yu-rim) que volta a atuar para superar um aborto ao próprio ex-amante de Oto, interpretado por um ator jovem (Masaki Okada) e dotado da obsessão – e mesmo fúria – que no livro é do protagonista. Nesse meio tempo, aumenta-se ainda a participação da motorista pessoal de Yusuke, Misaki (Toko Miura), que abandona o papel de “entrevistadora” do personagem para ocupar maior centralidade na história.

Todas essas mudanças importam porque permitem a Hamaguchi que registre o drama de “Drive My Car” pela via do mosaico, sem recorrer à imagem de Oto ou a sombra que sua ausência projeta em Yusuke. De assombração o filme só existe no imaginário construído pelo próprio espectador, aliás: antes de entrar de fato na história, constrói-se um longo prólogo de uma hora que estabelece todo o trauma do protagonista em relação à esposa, de seu falecimento e traições até as histórias que ela inventa durante o sexo – por sua vez um elemento aproveitado de outro conto do livro, “Sherazade”. 

A manobra é fascinante por si só (até pela pontuação tardia dos créditos iniciais), mas não apenas por despir a produção de recursos como o uso de flashbacks e jogos alegóricos. Nada ali é de pertencimento exclusivo desses primeiros momentos, com todo fato sendo revisitado posteriormente nos diálogos, então essa encenação existe sobretudo para conceber o fantasma que atormenta Yusuke aos olhos do público. Soa como um artifício do teatro, até pela introdução do mistério do desfecho da história da garota que se masturba na casa de outro.

Hamaguchi registra o drama de “Drive My Car” pela via do mosaico, sem recorrer à imagem de Oto ou de sua sombra

compartilhe

Com o mosaico formado e tantos arcos se desenrolando, é natural que Hamaguchi se deixe guiar pelos atos de sobreposição manifestados nessa narrativa. Nesse ponto sente-se melhor essa referência em Cassavetes do diretor, e não apenas pelo registro naturalista de atuações e cenas – ainda que se permita maiores inflexões da melódica trilha de Eiko Ishibashi dentro disso. Há uma compreensão específica do longa como intersecção do conto de Murakami com a peça de Tchekhov e o drama por si só, e a direção se encarrega de interligar com sutileza os temas de perda e criação a partir de componentes distintos, sempre partindo de conversas que revelam nos pequenos atos as dores internas de seus interlocutores. 

Se na prática essa rotina parece sacramentada na montagem, que para além da boa encenação se encarrega de reforçar essa aproximação a partir de fusões ocasionais de dois planos entre uma cena e outra, entre os atores esse procedimento se entende na reiteração da lógica de aproximação e compreensão. Nesse ponto faz algum sentido que Hamaguchi brinque bastante com a verdadeira torre de Babel que é o elenco da peça e dê atenção ao método de direção de Yusuke pros atores, cujo trabalho inicial é de fazer todo mundo decorar o material inteiro para focar no como reagir a certos momentos: para além da unidade, cada personagem maior da trama vive um cosmo próprio de existência e o filme se encarrega de reforçar isso para construir a jornada de seu protagonista com os próprios traumas.

Ensaia-se então um road movie existencial que deriva o luto como uma dor fantasma em eterno prolongamento, mais ou menos como a falsa imagem de “deslocamento parado” enquanto se dirige, e “Drive My Car” trabalha isso em chave de difícil superação, similar aos efeitos de “Asako I & II” e “Roda do Destino”. Posto dessa forma, a maior força do longa está em como ele reconfigura o protagonismo para Yusuke e Misaki, pois a raiz do drama aqui existe menos na perspectiva individual que na confissão de lamentos. A percepção dos efeitos morte da esposa do ator e da perda da família da motorista formam no curso da narrativa um bate e rebate que se desenrola a cada nova movimentação da peça, e Hamaguchi aproveita como pode os textos à disposição para ressaltar o quanto um serve de reflexo ao outro nessa exploração – não por acaso, preserva-se aqui o momento em que Yusuke percebe a idade semelhante de Misaki e de sua filha falecida.

As imagens que se formam a partir dessa constatação são fortes e nessa hora vale notar o quão feliz é o filme na base de construção de cena, pois é um efeito direto da manutenção do tempo presente na narrativa. O passado é tratado como trauma em “Drive My Car” e todo momento entre personagens ressalta essa tendência, e para um longa tão impregnado pelo espectro da morte faz sentido que a reta final se ensaie como espécie de funeral, com direito a visita a cemitério simbólico e “vela” depositada junto à vala sentimental. O carro vermelho não se converte em confessionário dos protagonistas, mas seu deslocamento ruma a um para sacramentar a exorcização de fantasmas em curso.

A maior força do longa está em como ele reconfigura o protagonismo para Yusuke e Misaki, pois a raiz do drama aqui existe na confissão de lamentos

compartilhe

Esse procedimento da narrativa no fim deve ser responsável pelas múltiplas leituras do longa na sua recepção, se vale retomar a conversa das várias facetas adquiridas desde a estreia em Cannes, mas o que chama a atenção aqui é como Hamaguchi mantém especificado seu drama diante da tamanha universalidade do tema do luto. O diretor não deixa de ser um aprendiz de Kiyoshi Kurosawa e qualquer entusiasta de cinema japonês contemporâneo é capaz de detectar rapidamente essa influência no olhar dedicado aos fantasmas do curso da narrativa, mas é interessante perceber como o longa se diferencia de outros tantos produtos culturais recentes dedicados à mesma temática, até porque seu tratamento é tudo menos sobre uma superação expressa – e quase de auto-ajuda, se é pra ser sincero – da perda. Hamaguchi parece depreender naturalmente da expansividade um processo que não é curativo, mas digno de registro das dores e pequenas voltas por cima de seus personagens, e “Drive My Car” consolida essa mão sólida do diretor na área.

É uma cristalização que se ressalta nos dois finais do filme, aliás. Se a arte é um processo de interiorização e expulsão, faz todo o sentido que o longa termine narrativamente na peça, mas depois ensaie um epílogo contextualizado no cenário pandêmico. Se “Drive My Car” é um filme movido por enlaçamentos, Hamaguchi é preciso em criar a ponte emocional que liga sua obra ao trauma maior de nossos tempos. Afinal, a lógica da história é de interiorizar, sentir e seguir em frente, e poucas imagens seriam capazes de incorporar tudo isso que a final de Misaki com o carro e o cachorro.

“Drive My Car” estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, 17 de março, e chega à MUBI em 1° de abril.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link