"Ambulância" é ensaio de Michael Bay sobre Los Angeles
Imagem: Jake Gyllenhaal as Danny Sharp in Ambulance, directed by Michael Bay

“Ambulância” é ensaio de Michael Bay sobre Los Angeles

Filme norteia história de perseguição a partir da noção de relações efêmeras que definem a identidade de uma cidade em eterna transformação

por Pedro Strazza

Um diretor citar a si mesmo no próprio filme não é exatamente uma jogada nova, mas que no geral acontece para colocar o autor em perspectiva dentro de sua obra. Na maior parte das vezes, esse recurso se dá em tom de humor, seja de chacota ou irreverência, até porque ele não deixa de ser um lance dos mais artificiais.

Em “Ambulância – Um Dia de Crime”, novo trabalho de Michael Bay, a conversa entre dois personagens policiais logo no começo da história relembra de dois outros longas do diretor, “A Rocha” e “Bad Boys”, na chave da ironia clássica do velho com o novo. O oficial mais jovem, inclusive, chega a verbalizar em tom de chacota que “assistiu e até gostou” da produção estrelada por Martin Lawrence e Will Smith, para o desespero do veterano.

Por se tratar de Michael Bay, é apenas óbvio que essa inserção passe longe da discrição, mas ela não soa como o ponto de suas intenções com o projeto. Considerando o status do diretor como notável (em todos os bons e maus sentidos), é possível dizer que “Ambulância” se sugira do princípio como obra mais “consciente” em sua carreira, até porque em meio ao seu furacão de aspirações e fetiches ele mantém uma constante de registro dos arredores de Los Angeles que não passa despercebido ao olhar do espectador. Também não é algo que se faça tanto mistério assim, aliás, com cineasta e o estúdio muito firmes em destacar o “LA” no título como semimanifesto de intenções – olhem, parecem dizer, Michael Bay está para fazer seu filme sobre a cidade onde nasceu.

Ao mesmo tempo, definir como “mais consciente” a produção é uma manobra que inferioriza para além do necessário o cinema de pulsões do diretor, cuja sede destrutiva dos filmes – literal e simbólica – se confunde com as acepções gerais do que é visto como pior na Hollywood de hoje. É verdade que Bay pode ser enquadrado como sintoma dos rumos da indústria norte-americana, mas nesse meio do caminho também vale ser dito que ele foi um dos nomes responsáveis pela gramática hiperativa do cinema de ação contemporâneo, derivada dos clipes de música que fez no começo da carreira, e essa noção importa porque em parte alimenta suas ambições crescentes dos últimos anos. Bay é uma mescla sem forma de intenções autorais e sintonias nada sutis com os anseios do meio, mas um rápido sobrevoo por sua carreira revela o quanto a primeira parte fomenta o ego envolvido nos projetos.

Assim, é no mínimo instigante que se insira em “Ambulância” seus dois primeiros grandes sucessos de uma forma datada, muito por revelar o tipo de projeto que o cineasta move aqui. Se o filme direciona o olhar à própria cidade, Bay nesse ínterim se posiciona como peça de um passado, distante o suficiente para se encenar uma perspectiva: afinal, que Los Angeles é essa onde os desdobramentos de um assalto tomam uma ambulância de refém?

Michael Bay (ao centro, de branco) orienta o elenco no set

De novo, se trata de um filme de Michael Bay, então tal provocação está distante da melancolia e se assume no fluxo da ação, que dessa vez faz valer a reputação de “imparável” de seu realizador. Já virou uma piada recorrente quando se fala da produção, mas não custa lembrar de novo que “Ambulância” refaz a história de um thriller dinamarquês de mesmo nome de 2005 pela inversão de polos, deixando de lado a proposta “contida” da premissa de um filme de ação de baixo orçamento (e focado no interior do veículo) para se render a toda a extravagância do provável orçamento de mais de 200 milhões de dólares. Não é uma jogada de capricho, porém: o longa de fato não se interessa tanto pelas dinâmicas de tensão que surgem entre a socorrista vivida por Eiza González e os assaltantes de Jake Gyllenhaal e Yahya Abdul-Mateen II, preferindo enquadrá-las dentro do gato e rato que a polícia nutre para capturar os bandidos.

Nesse sentido, a direção de Bay e o roteiro de Chris Fedak não economizam em urgência. A história pode se passar durante apenas um dia, mas o curso da ação encena uma sequência mirabolante de eventos que vão da chegada de Abdul-Mateen II ao plano e o assalto em si às negociações que ocorrem entre as diferentes forças da polícia e dos criminosos com a máfia local. Em certa medida, esses momentos de registro da hierarquia de poder e a própria jornada do protagonista emulam a estrutura de “Dragged Across Concrete”, e não parece lá impossível que Bay tenha assistido e se inspirado no suspense de S. Craig Zahler.

O que há de diferente entre os dois filmes é a inserção do elemento civil, entretanto. Enquanto “Dragged Across Concrete” é outro dos trabalhos de Zahler que se banha no pulp para brincar com limites (e daí talvez derive boa parte do thriller), Bay é bem mais comedido, optando por enquadrar figuras e arquétipos nascidos nos caminhos da ação desenfreada de “Ambulância”. Essa noção é muito melhor sacramentada na personagem de González que nos assaltantes irmãos, por sua vez, até porque seu drama move mais a tensão: em meio ao sequestro e a perseguição, a socorrista não só lida com as mudanças constantes dos criminosos como ainda precisa manter vivo um policial ferido na ação (Jackson White), dado que sua morte pode acarretar numa reação revanchista por parte das forças oficiais nos bandidos.

Esse jogo de vida e morte é crucial a todas as dinâmicas da produção, muito mais que o próprio assalto, e Bay não só reconhece isso como a eleva com naturalidade à enésima potência. O que surpreende nesse processo é a transformação da narrativa. Sai o gato e rato policial, entra o faroeste urbano de perseguição, com a lógica exibicionista do diretor chegando a aproveitar flashbacks da juventude dos personagens de Gyllenhaal e Abdul-Mateen II para introduzir essa virada, vestindo-os adequadamente de cowboy.

O jogo de vida e morte é crucial a todas as dinâmicas da produção, muito mais que o próprio assalto

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Sob esses termos, fascina o fato da direção de Bay assumir traços praticamente hawksianos no tratamento dos personagens e do curso da ação, muito por sugerir uma ordenação que não só escapa como remodela seus impulsos – e daí pode se concluir que a regência da narrativa como uma gigantesca cena única de perseguição seja essencial a tal mérito. A “brodagem” característica dos filmes do diretor aos poucos se dissolve da literalidade dos irmãos para a construção da relação de amizade de González e Abdul-Mateen II, um deslocamento de confiança que orienta a narrativa a ponto de assumir o viés carnal na cirurgia improvisada dos dois ou do acidente final entre eles. Esse último momento não por acaso é registrado com toda a magnitude possível do slow motion de Bay, aliás, até para denotar sua importância junto das reviravoltas do desfecho, e por ser hawksiano é evidente que essa aproximação passa longe do romântico – o assaltante está ali para fins nobres de salvar a esposa, afinal.

Essa dinâmica também é central ao filme porque canaliza o esforço do diretor de pintar algum tipo de comentário sobre Los Angeles enquanto cidade, e nessa hora é interessante observar o quanto “Ambulância” (e portanto Bay) guarda esse fechamento para seus últimos momentos. Até lá, o intuito é de registro no viés fiel do “bayhem”, com a câmera captando os espaços da metrópole dentro do altíssimo dinamismo da imagem, dos grafites nos muros às ruas tomadas pelo trânsito tantas vezes alardeado pelos personagens. Nesse sentido, é fascinante observar como esse comprometimento da direção é tamanho que afeta o uso de filmagens em drone, devidamente instrumentalizados para ir além dos sobrevoos enfadonhos e assumir o frenesi até mesmo nesses momentos de situação – e possíveis sensações de vertigem à parte, é divertido pensar que Bay conseguiu enfim tornar essa parte “monótona” das cenas em parte de seu estilo movido a altas doses de adrenalina.

Para além dos fins cômicos e de ação, porém, essa atenção maior aos arredores dá conta de ilustrar a efervescência de LA no lado da eterna mutação pelas vias da gentrificação – nesse ponto, é interessante notar como o visual dos assaltantes com as malas vestidas lembra os de entregadores de apps de delivery. Bay não é nenhum Thom Andersen, vale sempre acrescentar, mas “Ambulância” é tão impregnado dessa propensão ao retrato que seu percurso parece organizado em tal mérito, indo e voltando entre o “downtown” vertical e as periferias tomadas de estradas e casas para denotar tal avanço monocultural que afeta as relações. O que frustra é o longa não ser capaz de dar cabo disso personificando esse artificialismo na burocracia da polícia, e o conservadorismo se faz notar de forma um tanto ridícula nessa hora quando todo traço de juventude é visto como espécie de mal, da operadora da força cheia de ironias e poréns com o chefe (Garret Dillahunt) ao assaltante hipster que usa sandálias no ato.

O intuito é de registro no viés fiel do “bayhem”, com a câmera captando espaços da metrópole no altíssimo dinamismo da imagem

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Daí a definir a produção como saudosista é um exagero, porém, pois dá pra dizer que “Ambulância” é um “filme sobre LA” muito mais feliz em seus méritos que o romantismo moderno de um “La La Land”, por exemplo. Em especial porque interessa a Bay não o ensaio crítico da “cidade dos sonhos”, mas seu retrato a nível social, das relações construídas entre a ira e a cooperação pela população da região. Isso é denotado ao longo da história, nos pequenos atos do entorno da perseguição e equilibrados entre a tragédia e o carinho. É a cirurgia improvisada que leva um médico a convocar colegas especialistas para ajudar a ex-namorada, a tragédia familiar que abate o chefe da máfia, o policial que se dedica ainda mais à missão por se sentir culpado de colocar o parceiro no meio dos acontecimentos… esses pequenos momentos interessam subjetivamente a ação – e portanto o público – muito por contribuírem aos rumos da trama principal, da sobrevivência do trio protagonista.

É como se Bay entendesse que nessas situações se destilasse a real essência da cidade, mesmo quando movidas pelos interesses oportunistas, inscritos no enriquecimento rápido ou na salvação imediata. Por esse ângulo, o desfecho de “Ambulância” é preciso não apenas por fechar o encadeamento hawksiano da narrativa, mas por denotar a completude individual desses momentos de socorro para muito além do automatismo operacional dos ditos “futuros da humanidade” e presente no ritual de doze minutos da socorrista. É um bizarro caso de filme sobre o fator humano, portanto.

“Ambulância – Um Dia de Crime” estreia nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, 24 de março.

A pandemia ainda não acabou. Embora a vacinação avance no país, variantes do coronavírus continuam a manter os riscos de contaminação altos no Brasil. Se for ao cinema, siga os protocolos e ouça as autoridades de saúde sobre o melhor curso de ação após completar o esquema vacinal.

nota do crítico

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