“O Agente da U.N.C.L.E.” diverte, mas se perde nos vícios de Guy Ritchie

Preocupação excessiva com a embalagem faz com que o diretor abandone todo o resto em prol da estilização

por Virgílio Souza

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Na segunda metade da década de 1990, Guy Ritchie conquistou uma legião de admiradores graças à combinação entre tramas repletas de reviravoltas, forte estilização visual e um texto bastante ágil, marcante sobretudo em “Snatch: Porcos e Diamantes” e “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes”. Quatro anos depois de “Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras” — que confirmou sua posição no alto escalão de rentabilidade da indústria ao repetir o sucesso do anterior, arrecadando novamente mais de 500 milhões de dólares nas bilheterias — e sete após “Rock’n’Rolla: A Grande Roubada” — seu último e não tão elogiado trabalho como roteirista — ele apresenta “O Agente da U.N.C.L.E.”, uma nova tentativa de explorar as características que o consagraram. O projeto, baseado na série de televisão de mesmo nome exibida nos anos 1960, carrega muito claramente a assinatura do cineasta, mas falha por repetir os mesmos erros de seu passado recente.

Situado em um dos momentos mais tensos da Guerra Fria, o filme gira em torno da missão conjunta de dois espiões, Napoleon Solo (Henry Cavill) e Illya Kuryakin (Armie Hammer), respectivamente, funcionários-modelo da CIA e da KGB. Designada para a tarefa de desarticular uma misteriosa organização prestes a conseguir acesso à tecnologia nuclear, a dupla se envolve com a mecânica alemã Gaby (Alicia Vikander), cujo pai, um experiente cientista, possui os conhecimentos necessários para desenvolver tal armamento. A trama é desenvolvida de maneira relaxada e com altas doses de humor, o que, a princípio, parece ser uma decisão acertada ao menos no sentido comercial, para destacar a produção de seus semelhantes mais próximos no gênero, como “Missão: Impossível – Nação Secreta” e o próximo capítulo da franquia de James Bond, “007 Contra Spectre”, com previsão de lançamento para o fim deste ano.

Henry Cavill e Guy Ritchie no set

Henry Cavill e Guy Ritchie no set

Uncle

O primeiro problema, porém, emerge da própria natureza do projeto. Ritchie e seu parceiro roteirista, Lionel Wigram, são incapazes de criar qualquer senso de urgência na narrativa. A ideia de perigo somente transparece na sequência de abertura e em um curto trecho no decorrer da história, em que imagens de arquivo se dedicam a explicar a gravidade da situação — e, no limite, o fato de que o planeta está em risco. A relação entre Solo e Illya, melhor entendida como um misto de rivalidade mortal e bromance, não colabora para que o espectador se importe com o destino dos personagens e do universo construído ao redor deles. A descontração excessiva, nesse sentido, é extremamente prejudicial à proposta, mais até do que em “Kingsman: Serviço Secreto”, por exemplo, que de forma clara bebe da mesma fonte que os autores deste filme.

Ainda assim, a química entre os protagonistas funciona. Caracterizados como lados diferentes da mesma moeda, Cavill e Hammer trocam farpas a todo instante e possuem traços que favorecem essa interação passivo-agressiva, como o gosto por moda, que gera alguns trechos divertidos e desvia a atenção para um dos elementos mais interessantes da produção: a ambientação nos anos 1960. A atmosfera retrô se vale de uma trilha sonora impecável de Daniel Pemberton, que engrandece momentos-chave, e de figurinos vivos, que auxiliam na composição dos personagens. Vikander, com seus vestidos coloridos e chapéus espalhafatosos, é quem mais se beneficia: ela ganha presença em tela e se torna o centro da ação sempre que surge em cena, tomando com muita tranquilidade os holofotes da dupla masculina.

A química entre os protagonistas funciona, mas o roteiro é incapaz de criar qualquer senso de urgência na narrativa

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O que é satisfatório visualmente, porém, não encontra reflexos na construção narrativa. Solo e Illya se mantém o tempo todo como estereótipos ambulantes, variando apenas o grau de proximidade entre eles e os coadjuvantes, com destaque para Waverly (Hugh Grant), o que não é de todo ruim. Por outro lado, embora seja decisiva para o desenrolar da trama, Gaby é infelizmente subvalorizada em termos de ação, sendo no fim colocada de volta no posto de mocinha em perigo, algo incoerente com sua apresentação como uma personagem independente e tão (ou mais) forte que seus colegas.

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A articulação do ato final repete uma tendência negativa de Guy Ritchie de não conseguir juntar as peças de maneira harmoniosa

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É também inconsistente a maneira como Ritchie se apega a plot twists para conduzir o filme. Suas reviravoltas, anteriormente surpreendentes e dignas de maior interesse, aqui surgem sem muita cerimônia, como se o roteiro se prestasse apenas a preparar a arena para cada nova virada. Por depender tanto deste recurso, “O Agente da U.N.C.L.E.” acaba transformando em tédio um de seus maiores trunfos — fator que já incomodava no segundo “Sherlock Holmes” e em “Rock’n’Rolla”, por exemplo.

O mesmo pode ser dito da articulação do ato final, que parece repetir uma tendência negativa do cineasta de não conseguir juntar as peças de maneira harmoniosa. Exceção feita a uma perseguição específica, até mesmo o aspecto visual sofre pela irregularidade com que o diretor decide resolver suas pendências. O resultado é um desfecho confuso, em que a própria estilização se rende a antigos vícios de câmera na ausência de recursos mais interessantes. Ritchie recorta a ação na montagem, impede que seus personagens mostrem suas habilidades — físicas, inclusive — e não contribui para tornar as sequências mais intensas ou dinâmicas.

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Mais uma vez, o diretor se concentra demais na perfumaria e deixa para trás um potencial enorme para fundar uma nova franquia

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Parte daí outro problema do longa: sua indecisão. A impressão é de que não se trata de um filme de ação sobre espiões, tampouco um filme sobre o ofício da espionagem. Situado no meio do caminho, oscilando entre uma coisa e outra, Ritchie prefere apostar quase exclusivamente nesse visual cool e não vai muito além disso. Não há suor, porque os protagonistas são elegantes demais, mas também não parece haver muito raciocínio, pela postura relaxada que domina todas as esferas do filme. Por depender tanto de viradas inesperadas, o roteiro sofre por não conseguir torná-las críveis ou minimamente intrigantes — personagens mudam de lado uma dúzia de vezes sem produzir um senso real de consequência e vilões aparecem e são derrotados sem que a ideia de superioridade dos heróis seja sequer abalada.

O tom adotado é, curiosamente, o que garante o relativo sucesso e aumenta as chances de fracasso. A capacidade de entreter — pela relação entre os personagens e a atmosfera sessentista — e a tendência a escorregar — pela estrutura que valoriza o que há de pior no filme, seus plot twists — possuem a mesma origem: uma preocupação única com a embalagem, que faz com que o diretor abandone todo o resto em prol da estilização. Mais uma vez, o diretor se concentra demais na perfumaria e deixa para trás um potencial enorme para fundar uma nova franquia com maior frescor e equilíbrio. De todo modo, o gancho para uma sequência existe. Resta saber quais são as pretensões de Ritchie, caso seja ele o responsável por levar a proposta adiante.

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