Mesmo com a energia de DiCaprio, "O Regresso" perde o rumo em sua pretensa profundidade

Mesmo com a energia de DiCaprio, “O Regresso” perde o rumo em sua pretensa profundidade

O realismo cruel de Iñárritu funciona no nível físico, mas cansa sob uma lógica de repetição exaustiva

por Virgílio Souza

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Há pouco mais de um ano, “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” era lançado acompanhado da sensação de que seu diretor, Alejandro G. Iñárritu, valorizava o processo acima de qualquer outra coisa: o fato de simular um plano-sequência de quase duas horas de duração nos bastidores de um teatro fazia com que o cineasta chamasse atenção para seu mérito técnico constantemente. “O Regresso”, projeto de natureza bastante distinta, parecia caminhar em outro sentido, mas novamente se trata de um filme que só existe em discurso e em um punhado de making ofs.

As filmagens foram o inferno na terra. A produção atrasou meses e teve seu orçamento praticamente dobrado. As condições climáticas eram desafiadoras — fazia calor demais no Canadá e frio demais na Argentina. Membros da equipe abandonaram o barco ou foram demitidos por serem “como violinos desafinados na orquestra”. Muita gente sofreu de hipotermia. Leonardo DiCaprio comeu um fígado de bisão e dormiu em uma carcaça. Em algum momento dos últimos meses, todas essas foram manchetes relacionadas a “O Regresso”, entre expectativas para o Oscar e campanhas autocongratulatórias. Mas qual é o filme no meio disso tudo?

Iñárritu no set com Leonardo DiCaprio

Iñárritu no set com Leonardo DiCaprio

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Vagamente inspirado no romance de mesmo nome escrito por Michael Punke, o longa é centrado em Hugh Glass, explorador e comerciante de peles abandonado à própria sorte após ser atacado por um urso e deixado pelos colegas de caçada. No nível físico, as coisas funcionam bem. A dupla obsessão (por sobrevivência e por vingança) é o maior trunfo de DiCaprio, dono de uma energia raras vezes igualada em sua filmografia. A maneira como ele se suja, luta e se arrasta é digna de nota, sobretudo porque a brutalidade ao seu redor jamais cessa.

Para além das dezenas de ações que o protagonista precisa realizar, um repertório de opções que, a um só tempo, depende e se beneficia imensamente dessa entrega total ao papel, existe a figura de John Fitzgerald (Tom Hardy) como antagonista. O desconforto causado por sua presença é evidente até nas relações com o líder da expedição, Andrew Henry (Domhnall Gleeson), e o embate entre bem e mal ganha contornos interessantes aqui, mais do que em qualquer outro momento da narrativa, muito em função das ideias de ancestralidade estabelecidas — Glass tem um filho com uma nativa, seu desafeto carrega a cicatriz de um conflito com índios.

Quando parte da aventura para o plano espiritual, porém, Iñárritu perde o rumo. Há três formas de encarar o problema. Em primeiro lugar, a ausência de sensibilidade para encarar natureza e humanidade tem diversas implicações negativas. O que funciona no tratamento dos povos nativos, vistos como humanos, não como acessórios ou frutos do imaginário, definitivamente não vale para a saga do homem branco.

Revenant

Torna-se impossível conceber o olhar de contemplação quase transcendental em conjunto com o realismo cruel de Iñárritu

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O protagonista é apresentado como ponte entre os dois campos, pela manutenção do elo com o passado e o respeito ao ambiente que o cerca sendo balanceadas com a necessidade de viver. No fim das contas, contudo, ele pode ser entendido como qualquer outro personagem central da dita trilogia da morte (“Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”): alguém sempre à beira da desgraça, pilar de resistência à tragédia inevitável, um alvo para os golpes mais perversos. A espiritualidade de Glass, em especial quando se cruzam sua trama e a da tribo em busca de uma garota perdida, é apenas um truque, uma ilusão de profundidade que o cineasta já empregava no início de carreira.

A segunda questão é estética. Emmanuel Lubezki é um dos fotógrafos mais especiais da indústria, mas suas habilidades são também fatais para “O Regresso”. A construção das bases do filme por meio de longos planos rodados somente com luz natural vão pouco além de outro dado meramente processual, carimbo para o esmero técnico do trabalho. Na tela, por mais que certas sequências impressionem, a ideia de retratar tamanha selvageria com tal formalidade chega a inquietar.

Torna-se impossível conceber esse olhar de contemplação quase transcendental em conjunto com o realismo cruel de Iñárritu, neste caso uma abordagem mais visceral para a condição humana a partir de aspectos já trabalhados, por exemplo, em “Biutiful”. O roteiro, escrito ao lado de Mark L. Smith, não colabora: se ergue sob uma lógica de repetição exaustiva que entra em choque direto com essa câmera sempre fluida, que passeia pelos cenários até repousar novamente no rosto atormentado de Glass, pronto para mais um ataque de fúria.

Revenant

Mesmo adentrando universos que lidam com a força do simbólico e do místico, o cinema de Iñárritu permanece elementar

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Mesmo em termos espaciais, os recursos narrativos se esgotam rapidamente. DiCaprio tem um misto curioso de força e fragilidade, algo que o longa explora inicialmente, colocando seu corpo em contraste com a imensidão do entorno. No entanto, o frescor se perde após a décima repetição, em parte porque os segmentos de sonho, memória e alucinação, presos nessa estrutura, não respiram, e remetem mais aos momentos oníricos de “Gladiador” do que a Tarkovsky e Malick — de quem as enormes árvores, imagem recorrente no filme, parecem emprestadas.

A terceira questão é conceitual, mas parte também da preocupação com o processo. O ato de filmar sob essas condições, não apenas expondo equipe e elenco a toda sorte de intempérie, mas fazendo marketing do sofrimento, é anunciado como uma tentativa de chegar o mais próximo possível da verdade. Nesse sentido, soa problemático que o filme só encontre essa verdade a partir do sofrimento extremo, e que disfarce a própria vulgaridade com a beleza visual mais óbvia. É desolador que, mesmo adentrando universos que lidam com a força do simbólico e do místico, o cinema de Iñárritu permaneça tão elementar.

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