Com profundidade humana, “Capitão América: Guerra Civil” se coloca um nível acima no universo cinemático da Marvel

Fruto do trabalho em conjunto, a clareza e domínio da audiência por parte dos irmãos Russo transformam o filme em um milagre do gênero

por Virgílio Souza

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Ao fim de “Capitão América: O Soldado Invernal”, a relação entre Steve Rogers (Chris Evans) e Bucky Barnes (Sebastian Stan) está em crise. O herói acredita ser possível trazer de volta o antigo amigo, transformado em vilão pela organização criminosa Hydra, mas ainda capaz de, ao menos por um instante, reconhecer e salvar o colega de um desfecho trágico.

Ao fim de “Os Vingadores: Era de Ultron”, a tragédia contamina o aparente êxito da missão em Sokovia. A atuação do super-grupo, embora capaz de salvar o planeta uma vez mais, deixa fortes rastros de destruição e morte. A legitimidade da equipe é posta em xeque, mas eles seguem lutando.

Essas duas questões, donas de influência mútua, são as forças que movem esse “Capitão América: Guerra Civil” desde o início. É razoável afirmar que a diferença de escala entre elas (micro versus macro, pessoal versus universal), somada às demandas por ação próprias do formato, gera desafios enormes para roteiristas e diretores.

Os diretores Anthony Russo e Joe Russo (ao fundo) no set

Os diretores Anthony Russo e Joe Russo (ao fundo) no set

Civil War

Felizmente, tanto Christopher Markus e Stephen McFeely, responsáveis pelo texto, quanto Anthony e Joe Russo, os diretores, têm absoluta clareza com relação ao projeto e seu escopo. O que interessa a eles não é somente o longa mais fácil de se produzir e vender, mas a confiança depositada nessa visão específica sobre o universo. O resultado é, sem dúvidas, fruto de trabalho conjunto, mas por vezes mais parece um milagre.

Fundamentalmente, trata-se de um filme sobre dois personagens, Cap e Bucky, e o modo como as circunstâncias levam um terceiro, Tony Stark (Robert Downey Jr.), a adentrar essa relação pela via do confronto. Mais do que isso, porém, é a história de uma dúzia de coadjuvantes, cada um deles dono de função narrativa importante, ainda que em graus variados. Flutuando de personagem em personagem, cenário em cenário, embate em embate, a trama encadeia as ações individuais até chegar a decisões coletivas mais ou menos estáveis — no limite, ao menos antes do momento derradeiro, #TeamIronMan contra #TeamCap.

É interessante notar como as lutas quase nunca se concentram em apenas um par de personagens: se dois heróis trocam socos em solo firme, por exemplo, é natural que outro desça dos céus ou use suas armas para interferir e remodelar a disputa. A participação de Chad Stahelski e David Leitch (realizadores de “John Wick”, aqui responsáveis pela direção de segunda unidade) é importante nesse processo, porque confere um dinamismo à coreografia das lutas que transborda no principal combate entre os grupos.

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Fundamentalmente, trata-se de um filme sobre dois personagens, Cap e Bucky, e o modo como as circunstâncias levam a um terceiro, Tony Stark

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O filme sabe dosar as potencialidades de suas criaturas tanto no que diz respeito aos poderes que eles possuem (e que não necessariamente conseguem controlar) quanto no que tange aos aspectos cômico e emocional. Aqui, a variedade de possibilidades não é um fardo pesado demais para os Russo, mas um recurso sobre o qual a dupla possui total domínio. Fatores como o tamanho do Homem-Formiga (Paul Rudd) e a juventude do Homem-Aranha (Tom Holland, que rouba a cena), para citar apenas as duas participações mais divertidas, são levados em conta para produzir humor e armar situações surpreendentes, inseridas em um drama bastante sólido.

Um nível acima das outras produções do chamado Marvel Cinematic Universe, “Guerra Civil” se vale da familiaridade estabelecida ao longo dos filmes anteriores para um propósito mais interessante do que destruir uma criatura de pouca identidade criada em computador.

Dessa vez, é preciso encarar o passado e seus impactos no presente. Isso significa, do ponto de vista coletivo, se debruçar sobre os erros cometidos nas missões anteriores (em Nova York, Washington, Sokovia e, agora, Lagos), e, individualmente, refletir sobre questões até então enterradas em algum lugar da memória (são as relações com familiares, amigos e demais heróis que, no frigir dos ovos, obrigam cada um deles a escolher lados na disputa).

Nesse sentido, é importante perceber que eles, os personagens, não necessariamente se conhecem como nós os conhecemos antes de a ação ganhar forma, o que gera momentos de (re)descoberta fascinantes. Ao mesmo tempo, é interessante a abordagem econômica frente aos heróis e vilões que aparecem (ou aparecem com destaque) pela primeira vez: não é preciso contar a história de origem de todos eles, como Stark afirma em um dos trechos mais inspirados do longa.

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Assim como os “Vingadores”, os diretores não mais podem tratar cidades inteiras como maquetes destrutíveis sem custo algum e seus civis como figuras anônimas

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Embora tomem apenas alguns dos pilares dos originais de Mark Millar, é inegável que os Russo sabem lidar com uma audiência mais apaixonada pela Marvel do que por qualquer diretor de cinema. Parece seguro afirmar que a dupla se tornou quase indispensável nessa empreitada, sendo apenas questão de tempo (ou do sucesso das duas partes de “Guerra Infinita”, ainda por vir) até que seus nomes frequentem com maior paixão o imaginário dos espectadores.

Afirmar o compromisso dos diretores com certos elementos do universo não significa, porém, que eles não espalhem aqui e ali seu arsenal particular de referências para além do universo dos heróis — a menção a “O Império Contra-Ataca”, por exemplo, é genial, e a ponta de Jim Rash, o reitor de “Community”, em que a dupla trabalhou, parece um novo capítulo de uma série de aparições especiais inaugurada por Danny Pudi em “O Soldado Invernal”.

Também não significa negar as mudanças radicais promovidas por eles com relação a episódios prévios realizados pela empresa, em especial “Era de Ultron”: assim como os Vingadores, os diretores não mais podem tratar cidades inteiras como maquetes destrutíveis sem custo algum e seus civis como figuras anônimas. Não por acaso, as duas maiores batalhas de “Guerra Civil” ocorrem em locais isolados, e algumas das vítimas ganham rostos e nomes, servindo ao menos como propulsores dessa mudança de postura dos heróis e do próprio filme.

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Altruísmo e egoísmo coexistem em praticamente todos os personagens. A questão é saber quais sacrifícios eles estão dispostos a fazer em nome da sobrevivência.

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O gatilho mais decisivo parte de um personagem cuja motivação passa longe de ser inédita ou original. A mágoa pessoal com relação aos Vingadores, porém, importa menos do que os meios pelos quais ele empreende sua vingança. Seu plano oferece um novo sentido à disputa interna dos heróis, já que não se trata mais de aderir ou não à supervisão das Nações Unidas, de maneira mais ampla, mas de arriscar a vida para defender convicções pessoais, no sentido mais íntimo possível.

Altruísmo e egoísmo coexistem em praticamente todos os personagens principais. A questão central é saber quais sacrifícios eles estão dispostos a fazer em nome da sobrevivência. Mesmo as figuras com menos tempo de tela nesse filme do que nos demais possuem motivações, traumas e inseguranças próprias: a Wanda de Elizabeth Olsen paga pelo descontrole; o Visão de Paul Bettany, por adquirir humanidade; o Clint de Jeremy Renner, pelo distanciamento da família; e a Natasha de Scarlett Johansson, pela posição anterior com relação ao governo — o uso dos nomes próprios e não dos codinomes, aqui, passa longe de ser acidental, porque esse é um filme também sobre pessoas.

O mesmo pode ser dito dos estreantes, cujos alicerces são erguidos com a simplicidade costumeira dos Russo, clara e manifesta em “O Soldado Invernal”. O destaque, nessa categoria, é T’Challa (Chadwick Boseman), uma das surpresas mais felizes desse capítulo, capaz de impressionar pela agilidade com o uniforme e pela combinação de firmeza e sensibilidade sem ele. É ótimo que o coração do filme esteja também nos diálogos e interações pessoais, sem lugar para o cinismo de projetos que escondem suas inconsistências em uma visão sombria (mas igualmente irregular) de mundo.

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Com muita sofisticação, “Guerra Civil” completa arcos iniciados em filmes anteriores ao mesmo tempo em que lida com novas reviravoltas

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Se o último “Capitão América” era organizado como um thriller de conspiração, com discursos e reuniões em escritórios desempenhando papel extremamente relevante, “Guerra Civil” é estruturado de modo a permitir recuos parecidos de intensidade que tornam até a ação mais poderosa. A calmaria imediatamente anterior à tempestade é que faz com que ela seja tão impactante. Assim, seguir uma boa dose de aventura com debates essencialmente políticos, próprios da filosofia dos heróis, é o que garante que os aspectos mais subjetivos não se percam em meio à grandiosidade das lutas.

O retorno final ao núcleo formado por Rogers, Barnes e Stark se beneficia também do resgate a elementos despejados anos atrás em outras produções do mesmo universo. “Eu poderia fazer isso o dia todo”, frase dita pelo Capitão América quando as tensões com o Homem de Ferro se agravam, por exemplo, faz referência à sua primeira luta, ainda franzino, em “O Primeiro Vingador”, naquele beco nos fundos de um cinema.

Com muita sofisticação, o trio completa os arcos iniciados em filmes anteriores ao mesmo tempo em que lida com novas reviravoltas. Bucky, em posição mais decisiva até do que no filme que leva seu nome, oscila entre a brutalidade de seus golpes e a desilusão em sua expressão facial. Assim como o colega de exército, ele não possui lugar nesse mundo, mas, se tem alguma intenção de encontrá-lo, deve controlar seu instinto assassino e sobreviver aos ataques daqueles que concordam com essa premissa — não é tarefa simples.

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A maior vitória do Capitão América não vem pelos golpes contra inimigos ou pela disputa com o Homem de Ferro, mas por suas habilidades mais humanas

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Por sua vez, a mudança de Tony da arrogância à fragilidade até parece abrupta, mas é justificada por um evento que soa como a gota d’água. Seu estado emocional tem outros contornos: a iniciativa que o levou a perder Pepper, a culpa pelo surgimento de Ultron, a responsabilidade por Wanda, Visão e Rhodes (Don Cheadle) e por aí segue a lista. A somatória desses fatores torna o personagem mais complexo e sua decisão de enfrentar o colega dos Vingadores, ainda mais complicada.

No fim das contas, contudo, esse é um filme sobre Steve/Capitão América. Do longa anterior, deriva sua dificuldade em confiar: em Natasha e Tony, na agente da CIA (Emily VanCamp) que despertou seu interesse enquanto mentia sobre sua função, no governo, nos demais colegas de equipe e, acima de tudo, em Bucky. Ainda, sua transição de soldado-modelo a rebelde foragido é acompanhada por uma urgência incontrolável por salvar o mundo — com base no que ele acredita ser salvar o mundo, porém, o que é também problemático. O marketing de “Guerra Civil”, nesse sentido, é um pouco enganoso: a maior vitória não vem pelos golpes direcionados contra os inimigos ou pela disputa com o Homem de Ferro, mas por suas habilidades mais humanas.

Rating: 5.0

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