“Não podemos mais confiar em qualquer imagem, áudio ou vídeo”, diz criador do Photoshop

Em entrevista ao B9, Thomas Knoll falou um pouco mais sobre a criação do icônico software e seu trabalho com fotografia

por Pedro Strazza

Camisa social azul, calça cáqui escura, um Apple Watch no pulso esquerdo e uma bolsa marrom a tiracolo: era esse vestuário discreto e casual que Thomas Knoll estava trajando no lobby do prédio, sentado e bebendo uma água enquanto o seu próximo compromisso não começava. Figura magra e de semblante cansado – culpa da exaustiva viagem de mais de doze horas que tinha acabado de fazer, vindo de Los Angeles a São Paulo -, o programador de 57 anos com tranquilidade poderia se passar (e na verdade se passava) por mais um hóspede comum do lugar, como se fosse um turista e estivesse aguardando alguma van ou ônibus que o levasse para os pontos turísticos da cidade.

Thomas, entretanto, não estava de visita em São Paulo para turismo, mas sim para divulgar e compartilhar o seu trabalho com outras pessoas. Há quase 30 anos, ele e o irmão John foram responsáveis pela criação do Photoshop, famoso programa de edição de imagens que fez parte tardiamente da revolução tecnológica realizada no Vale do Silício de Steve Jobs e Bill Gates nos anos 80. O software sem dúvida transformou a vida de Thomas, que a princípio desenvolveu o produto como parte de seu PhD em programação para depois vendê-lo à Adobe e ver sua criação ver seu trabalho diário.

Embora o paralelo imediato que a maioria das pessoas façam é com esses grandes visionários por trás de empresas como a Apple e a Microsoft, Thomas está muito mais próximo de um Steve Wozniak no perfil e na simpatia. Descomplicado, um pouco gago e também risonho, o criador do Photoshop foi quem realmente desenvolveu o software e suas aplicações na prática, deixando ao irmão – na época trabalhando e hoje CCO na Industrial Light and Magic – a tarefa árdua de vender o software às grandes empresas de tecnologia. A maneira como conversa, inclusive, revela um pouco disso:  ele nunca encara o Photoshop como um produto, mas sim como um programa a ser desenvolvido.

Hoje, mais envolvido com a equipe de desenvolvimento do Photoshop Lightroom que o Photoshop original, ele também trabalha no tempo livre com o ramo da fotografia, uma paixão antiga que lhe rendeu agora uma exposição no MIS, uma viagem ao Brasil e inúmeras palestras em São Paulo. Sua relação com a fotografia, bem como toda a história de sua maior cria, foram temas de uma entrevista que Thomas concedeu ao B9 há duas semanas, no mesmo hotel onde aguardava tranquilo o seu próximo compromisso.

Da infância à criação do Photoshop

O interesse de Thomas pela fotografia começou cedo. Quando em seu aniversário de onze anos, o seu pai, Glenn, o presenteou com uma câmera de 35 mm (“bem básica e manual”) e criou uma câmara escura no porão, onde ele o ensinou a fazer suas primeiras fotos em preto e branco. “Foi assim que eu comecei na fotografia, durante a minha juventude inteira eu passei horas naquela câmara fazendo impressões”, diz ele, que tirava grande parte das fotos durante as viagens de família e revela que pouco tempo depois trocaria a câmera para uma TLR.

A fotografia, porém, ficou mais como um hobby nessa fase de sua vida, pois o seu maior interesse estava na programação, uma atividade que desenvolveu sozinho e logo depois se transformou numa carreira. Ele foi apresentado ao meio ainda nos anos 70, quando na aula de matemática da escola ele teve uma “breve introdução” à programação de computadores, onde a sua turma lidava com programas muito básicos e um teletipo. Apesar de muito simples, o processo de escrever códigos e ver eles executarem tarefas fascinou bastante o jovem Thomas, que depois daquele curso introdutório passou a explorar o meio com atenção:

Eu gastava horas depois da escola escrevendo programas e me ensinando como programar, e isso se seguiu por mais ou menos um ano. Havia uma grande quantidade de crianças daquela classe que continuou a fazer isso, mas eu provavelmente era o mais entusiasta daquele processo”.

Percebendo isso, uma empresa local de softwares que procurava por estagiários na época o contratou para trabalhar em meio período durante as aulas e o dia inteiro nas férias, um serviço que Thomas levou de seus 16 anos até o quarto ano da faculdade.

No ensino superior, o programador escolheu como tema do PhD o “computer vision”, o processo de ensinar a máquina a entender imagens. Por meio de algoritmos que modifiquem e facilitem o entendimento da imagem ao computador, a sua pesquisa o levou às bases do que seria depois o Photoshop, que na origem teria outro nome. Por estar lidando apenas com ferramentas que basicamente mexiam com o display da tela do computador – como o dithering, que chega a uma cor à partir do valor médio das cores de dois pixels diferentes – Thomas a princípio nomeou sua criação de Display, mas John o fez expandir o conceito do software para outros campos graças a sua atuação na área de computação gráfica na confecção de efeitos visuais na ILM. “Eu dei uma cópia a meu irmão, que na época tinha como projeto de hobby ensinar a si mesmo computação gráfica, que é o processo de fazer computadores gerar imagens. Era um campo relacionado ao meu, ele precisava do Display para fazer o display das imagens.”, relembra Thomas: “Então ele começou a brincar bastante com o meu programa e ficava sugerindo recursos que eu poderia adicionar a ele. Isso aconteceu bastante: ele fazia um pedido e eu adicionava o recurso às utilidades do programa”.

A relação sinergética entre os irmãos rendeu bastante. Embora ambos estivessem (e ainda estejam hoje) em campos muito distintos, com Thomas na área da programação e John trabalhando em efeitos visuais, ambos possuíam uma percepção de mundo muito similar – presente desde cedo nessa prática curiosa de transformar hobbies em profissões – e isso permitiu que o Display logo se transformasse no Photoshop.

O Photoshop e o mercado

Criado o produto, era hora de colocar no mercado. Segundo Thomas, “Foi meu irmão que na verdade teve a ideia de tentar vender o software como uma aplicação. Ele me disse um dia: ‘você se importa se eu mostrar isso em alguns lugares e ver se alguém tem interesse em comprar?’.”. Trabalhando à noite na ILM, John dirigia por todo o Vale do Silício distribuindo uma pilha de floppy disks às empresas de tecnologia da área. As reações ao programa foram bem diferentes: “Algumas diziam ‘Ah, nós estamos trabalhando em algo similar mas na verdade nós não podemos falar sobre isso, nós nem queremos ver o que vocês fizeram aí'”, revela Thomas, descrevendo uma resposta particularmente conhecida da região nos anos seguintes à Apple de Jobs e seu famoso roubo de projeto da Xerox. A gigante da maçã inclusive foi uma das empresas que rejeitou o Photoshop, pois segundo o programador “eles não estavam no ramo de softwares na época”. “Curiosamente, eles foram uma das fontes de pirataria da primeira versão do Photoshop, a versão do Macintosh foi a mais pirateada”, ele ri.

Mas houveram compradores, e depois de uma negociação com a SuperMac Technologies dar errado (“eles meio que faliram”), John conseguiu acertar o negócio com a Adobe em setembro de 1988. “Demorou um mês ou algo assim. Da demonstração inicial que meu irmão fez na época até o momento que eu fui até a sede e tive um acordo verbal foi mais ou menos um mês”, relembra Thomas, que diz que ainda demorou uns seis meses para acertar a compra com os advogados e dois anos para lançar a primeira versão do programa.

E se Thomas tivesse criado o Photoshop, ele também teria vendido o software a uma empresa? O programador acredita que sim:

Não acho que seja muito diferente vender uma empresa agora do que antes, só porque hoje é mais fácil começar um negócio. Provavelmente é a mesma negociação. Naquela época eu pensei que já estava atrasado por estar nos anos 1980 e que pra fazer isso tinha de ser nos anos 70, quando a Apple estava sendo criada e a Microsoft vinha com o PC. Eu pensava ‘esse foi o verdadeiro auge, quando as pessoas faziam coisas nas suas garagens, e agora tudo foi feito pelas grandes empresas e eu nunca poderei competir com isso’ e no fim eu podia”

O que mudou, em sua visão, é que hoje é mais fácil de se fazer notar por essas corporações, graças às melhorias nas formas de distribuir o seu produto. “Você basicamente tem uma escolha. Você pode criar um programa e vender você mesmo ou programar algo que pode ser comprado por alguém, e para os dois você precisa ter uma prova de conceito e criar a aplicação”, ele afirma.

Aplicações e a vida pós-Photoshop

Não demorou muito para o Photoshop estourar, mas para a sorte de Thomas sua criação não lhe rendeu uma fama instantânea. “Eu não invejo a vida das estrelas de Hollywood”, confessa:

Na maioria das vezes eu posso reagir com o mundo e ser uma pessoa normal, mas se eu vejo um filme ou uma série e ouço uma referência ao Photoshop eu fico ‘Ei, eu criei isso!’. É um lembrete muito legal”

Nas viagens que realiza com a Adobe, o programador entra em contato com as pessoas que usam sua criação e tiveram suas vidas transformadas por ele, e os usos criativos do programa feitos pelos usuários o fascinam. O uso mais inesperado do Photoshop, porém, veio do irmão nos primórdios do software, quando ele recuperou arquivos de um hard drive corrompido à partir da ferramenta de camadas do programa. Os arquivos, segundo Thomas, funcionava em algumas partes e outras não de maneira diferentes a cada vez que era rodado, e John foi juntando essas diferentes versões para formar uma cópia perfeita do original à partir do seu software. “Ele usou o Photoshop para recuperar data corrompida, um sistema que não tinha nada a ver com imagens. Foi um uso não intencional mas funcionou porque ele entendia a matemática subjacente em termos de sistema de arquivos”, afirma o criador.

Há quem use o seu programa para fins não muito corretos, contudo, como as revistas masculinas e de saúde que embelezam seus modelos a um nível de perfeição além do irreal. “O Photoshop é uma ferramenta, e há usos e abusos dele.”, comenta Thomas sobre o assunto, relembrando um pouco de sua experiência com fotografia:

O fato é que as pessoas sempre gostam de retocar um pouco de si mesmas porque elas querem que a imagem corresponda à realidade da percepção que elas tem delas próprias, e retocar é algo que vem sendo feito pela fotografia anos antes do Photoshop”

O único problema do Photoshop, nesse sentido, é que ele facilitou o processo: “Ele democratizou um monte de coisas que antes eram muito mais difíceis de fazer. De uma certa maneira isso é bom porque mais pessoas percebem o que pode ser feito. E você sabe, você photoshopa imagens e outros programas vão fazer isso para outros meios de comunicação, como o áudio e o vídeo, mas isso é com qualquer coisa. Sabe, você não pode mais confiar em qualquer coisa, porque a tecnologia evoluiu ao ponto de ser muito fácil mexer em diferentes mídias”. Se pensar o fake news, a afirmação de Thomas Knoll é das mais verdadeiras.

Knoll entre suas obras expostas no MIS

O Lightroom e a volta à fotografia

Thomas Knoll permaneceu na equipe de desenvolvimento do Photoshop até 2002, quando de certa maneira trocou sua antiga criação por uma nova. Tudo aconteceu por causa de uma… câmera. “Em 2002 eu comprei minha primeira câmera digital HD. Era uma câmera de seis megapixels e a única maneira de processar as imagens que ela tirava na época era pelo software da fabricante, que não era muito bom, era bem lento. Eu fiquei pensando no design daquele programa e na época tinha um pedido pra equipe do Photoshop de adicionar um suporte próprio para fotos”. Por causa de sua história com o Photoshop Thomas podia escolher os seus próprios projetos, então ele se voluntariou para a equipe que criaria o Adobe Photoshop Lightroom.

E, de repente, a fotografia se tornou divertida novamente: “Eles queriam sair e testar o produto, então eu comecei a fazer várias viagens fotográficas ao redor do mundo para tirar fotos”. Essas viagens, feitas com a Adobe ou por conta própria, incluem também os lugares que ele visita para fazer suas palestras e também as reuniões com a equipe do Lightroom. Para o programador, o Lightroom o permite fazer seu trabalho e hobby ao mesmo tempo: “Uma das grandes vantagens de trabalhar no time é que você tem como hobby tirar fotos, pois isso permite que a gente use nossos produtos e entenda muito melhor as necessidades dos usuários, realizando decisões que irão beneficiá-los. Nós estamos em maior contato com os usuários e podemos nos simpatizar com eles a partir de nosso design”.

Isso significa que Thomas usa o Photoshop para editar suas fotos? “Com certeza”.

Parte desse trabalho de Thomas Knoll em fotografia segue em exibição no MIS até o próximo domingo, dia 20 de agosto. Intitulada Infinitude, a exposição curiosamente está em anexo a uma sobre Steve Jobs, que acontece nas instalações principais do museu.

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