“Liga da Justiça” evita grandes riscos para tentar acertar os rumos do universo DC

Zack Snyder e Joss Whedon investem nos personagens em filme mais convencional que os anteriores

por Virgílio Souza

⚠️ AVISO: Contém spoilers menores

“Liga da Justiça” deveria ser a reunião dos maiores heróis do universo, parte deles alçada à condição de deuses, mas o destino quis (e os produtores pouco fizeram para impedir) que o capítulo mais importante da trajetória da DC Comics nos cinemas fosse lançado sob mais uma nuvem de desconfiança e sem a pompa que o evento recomenda. Como se seguisse uma tradição extra-oficial das adaptações da casa, o filme precisa se preocupar com o peso de seus antecessores antes de se concentrar em contar a própria história, e isso tem uma série de consequências diretas no produto final.

Não é novidade para quase ninguém que as duas principais empresas de histórias em quadrinhos seguiram caminhos bem distintos na construção de seus universos cinematográficos. Se “Os Vingadores”, lançado há pouco mais de cinco anos, combinava os principais nomes da Marvel para consagrar uma trajetória e uma fórmula trabalhadas com cuidado a partir de uma série de filmes solo bem sucedidos, “Liga da Justiça” tem outras obrigações a cumprir para alavancar a franquia rival nos cinemas.

“Liga da Justiça” precisa se preocupar com o peso de seus antecessores antes de se concentrar em contar a própria história

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Tratado menos como clímax e mais como novo ponto de partida, o longa dirigido por Zack Snyder toma em consideração os resultados divisivos das experiências anteriores para oferecer um produto capaz de agradar uma parcela maior do público e da crítica — há dúvidas quanto à eficiência dessa estratégia. Nesse sentido, a reunião dos heróis deixa de lado algumas das questões mais ousadas (e questionadas) de “O Homem de Aço” e “Batman vs Superman”, se aproximando do esquema mais convencional (e elogiado) de “Mulher Maravilha” e, felizmente, escapando por uma boa margem do desastre de “Esquadrão Suicida”.

Zack Snyder com Ben Affleck no set

Como a descrição sugere, algumas mudanças são positivas. Snyder, também roteirista ao lado de Joss Whedon e Chris Terrio, dá atenção especial a dois dos aspectos mais importantes nessa transição: a necessidade de ajustar certos personagens e a missão de introduzir vários novos após breves aparições no filme anterior. Para conciliar tantas personalidades diferentes, o diretor aposta numa abordagem mais convencional, ainda que suas preferências de estilo permaneçam visíveis em diversos pontos.

Assim, o clima sombrio e os dramas intensos de “Batman vs Superman” saem de cena e dão espaço para uma proposta relativamente leve, que em alguns trechos segue os moldes do universo Marvel, mas que no limite aposta no heroísmo típico dos heróis da DC. O roteiro não hesita em tratar os novatos Flash/Barry Allen (Ezra Miller) e Aquaman/Arthur Curry (Jason Momoa) como válvulas de escape para o humor, o que ajuda a criar um senso de união na equipe, como se a comédia fosse capaz de eliminar os ruídos entre eles quando não há tempo para desenvolver essas relações com maior profundidade.

O clima sombrio e os dramas intensos de “Batman vs Superman” saem de cena e dão espaço para uma proposta relativamente leve

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Algumas dessas dinâmicas sofrem pelo caminho, no entanto. O Ciborgue/Victor Stone (Ray Fisher), por exemplo, fica deslocado do grupo pela seriedade com que seu arco é apresentado, e as tentativas de torná-lo parte integral da trama conseguem resultados mistos. Seu envolvimento na ação chega a ser surpreendente, sobretudo considerando o poder dos demais integrantes da Liga, mas é ainda mais forte a sensação de que uma porção significativa de sua história (com um tom mais trágico que o entorno) foi deixada para trás na ilha de edição.

Pela primeira vez desde sua refundação nos cinemas, em 2013, Superman consegue representar os ideais de justiça e esperança que o transformaram no personagem mais icônico da DC

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O modo como a trindade da DC é trabalhada, por outro lado, dá sinais importantes de uma correção de rumos que não se envergonha em investir no que deu certo e descartar o que deu errado no passado. Diana Prince (Gal Gadot) aproveita o embalo de uma história de origem bem contada e, também por isso, ganha maior protagonismo na equipe. O sucesso de seu filme solo rende momentos adicionais de ação (até mesmo sem que ela esteja envolvida, como na longa sequência na ilha de Temíscira), e o carisma da personagem garante que ela se destaque do conjunto.

É o que ocorre pelo menos até o Superman (Henry Cavill) entrar em cena. Pela primeira vez desde sua refundação nos cinemas, em 2013, ele consegue representar os ideais de justiça e esperança que o transformaram no personagem mais icônico da DC. Por mais que sua participação como membro efetivo do grupo seja reduzida e os efeitos usados para corrigir as cenas gravadas ao fim da produção causem algum estranhamento, sua chegada transforma o filme por completo — no melhor sentido possível.

Por fim, o Batman de Ben Affleck segue sendo um sujeito duro, mas o caminho percorrido desde a batalha contra o kriptoniano tira um pouco do peso quando o personagem surge sem capa e máscara. A compreensão do valor simbólico dos super-heróis, a relação de confiança estabelecida com a amazona e a responsabilidade de lutar ao lado de seres ainda mais fortes que ele levam Bruce Wayne a superar tanta amargura e ensaiar conexões antes restritas ao mordomo/sidekick Alfred (Jeremy Irons).

Ele também parece diferente porque o filme valoriza menos a força bruta, uma de suas características mais destacadas anteriormente e um dos traços marcantes dos demais trabalhos de Snyder. Em combate, resta ao envelhecido Homem-Morcego usar seus recursos tecnológicos e sua habilidade como piloto — características que o universo cinematográfico da DC parece valorizar mais que suas qualidades de detetive, por exemplo, evidentes apenas durante um interrogatório no telhado.

O resultado de todo esforço é um filme mais agradável, certamente de digestão mais fácil

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No restante do tempo, a direção não chega a se concentrar nas coreografias das lutas como nas sequências comandadas por Patty Jenkins em “Mulher Maravilha”, mas ao menos evita a confusão de David Ayer, de “Esquadrão Suicida”, quando reúne o elenco em cena. Visualmente, as mudanças constantes de velocidade continuam sendo um importante trunfo, ajudando a destacar a superioridade dos heróis diante dos humanos e, em duas cenas específicas (uma delas pós-créditos), gerando humor ao comparar seus poderes.

A proposta mais comportada alcança também a trilha sonora, com a substituição de Hans Zimmer por Danny Elfman. No geral, ele cria uma atmosfera bem menos carregada e, em trechos específicos, recorre a melodias conhecidas para deixar o espectador confortável. Seu próprio tema para o Batman, além da composição clássica de John Williams para o Superman e da música de entrada da Mulher Maravilha, dão as caras aqui.

O resultado de todo esse esforço é um filme mais agradável, certamente de digestão mais fácil, e a impressão se torna mais evidente quando pensamos na entrada de Whedon (responsável por levar os Vingadores aos cinemas) na reta final da produção, após o afastamento de Snyder (dono de uma visão bastante particular dessas criaturas) por problemas pessoais. No fim das contas, porém, a ideia de assumir menos riscos pode até evitar os erros mais escandalosos, mas não garante os acertos necessários para carregar as bandeiras da Liga de Justiça e de todo o universo DC daqui pra frente.

nota do crítico

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