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“O Destino de uma Nação” retrata momento decisivo na vida de Churchill

“O Destino de uma Nação” retrata momento decisivo na vida de Churchill

Filme tem como destaque a atuação de Gary Oldman, coberto por próteses e maquiagem

por Virgílio Souza

Uma das figuras mais influentes da história britânica, Winston Churchill já foi interpretado por diversos atores ao longo das últimas décadas. O amplo material à disposição sempre permitiu que as adaptações de sua biografia privilegiassem determinados ângulos de sua personalidade a partir de recortes temporais e enfoques temáticos específicos. Assim, é possível acompanhar a trajetória do político desde a juventude (com Simon Ward, em “As Garras do Leão”) até a velhice (com John Lithgow, no seriado “The Crown”), passando pelos capítulos mais notáveis ao redor da Segunda Guerra Mundial (e aqui podemos citar a dupla de filmes feita pela HBO, com Albert Finney e Brendan Gleeson ocupando o papel principal, além de “Churchill”, estrelado por Brian Cox e lançado nos cinemas há poucos meses).

A adição mais recente a essa longa lista de intérpretes é também uma das mais incomuns. Embora não esteja tão distante da idade do primeiro-ministro quando a trama tem início, Gary Oldman precisa de próteses e alguns quilos de maquiagem para entrar em sua pele. Felizmente, a transformação física convence, conseguindo esconder o ator ao mesmo tempo em que abre espaço para sua performance, e não provoca estranhamento mesmo quando a câmera se aproxima de seu rosto, um recurso que o diretor Joe Wright emprega repetidas vezes, seja para encerrar com grandeza os discursos em público ou para criar um senso de intimidade nos momentos de isolamento do protagonista.

Gary Oldman e o diretor Joe Wright no set

“O Destino de uma Nação” encontra Churchill num ponto especialmente complicado da carreira, quando o país precisa decidir sobre sua posição diante da ameaça nazista. O premiê enfrenta a resistência de parte do corpo político e a desconfiança do Rei George VI (Ben Mendelsohn), o que faz com que o roteiro de Anthony McCarten (de “Teoria de Tudo”) se desenvolva como um típico drama de gabinete na maior parte do tempo.

Longos e teatrais, os diálogos em que os personagens atropelam as falas uns dos outros são fundamentais para marcar as diferentes posições sobre o conflito, e é neles que Oldman mostra maior desenvoltura, usando a postura e o tom de voz para fazer imposições e minimizar concessões, às vezes aos gritos. “Você poderia parar de me interromper quando eu te interrompo?” é uma frase que o primeiro-ministro diz à certa altura, deixando claro seu protagonismo e revelando a instabilidade causada pelas disputas por poder dentro do governo. A dicção particular e o temperamento imprevisível apontam ainda para outra questão central do longa: a necessidade de “mobilizar a língua inglesa” e preparar o espírito da população para o pior, algo de que seus pronunciamentos inflamados logo darão conta.

Longos e teatrais, os diálogos em que os personagens atropelam as falas uns dos outros são fundamentais para marcar as diferentes posições sobre o conflito

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As estratégias da direção para adicionar urgência a uma trama relativamente conhecida funcionam em parte. Wright, auxiliado pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel, enche os cômodos com luzes fortes vindas das janelas e aproveita o ar esfumaçado e as sombras carregadas que se formam para criar uma sensação de claustrofobia e intenso calor. Os paletós escuros parecem dizer o contrário, mas o verão de 1940 foi um dos mais quentes já registrados em Londres, e essa inquietude (que é também da câmera, quase sempre colocada em movimento) se torna também parte da narrativa.

Por mais aquecidos que sejam os debates, no entanto, o filme sofre para fazer com que eles extrapolem os limites dos gabinetes e ganhem contornos palpáveis. Em mais de uma oportunidade, o espectador vê a Europa de cima, como se olhasse para um mapa, enquanto bombas caem do céu. Esse distanciamento das imagens impede que haja uma conexão maior da audiência com os eventos externos a Churchill, que aqui não parecem acontecimentos verdadeiros com impactos reais, mas simples artifícios para representar o avanço alemão e a situação cada vez mais desconfortável dos britânicos.

A dificuldade para dar ao longa uma dimensão humana, que ultrapasse a arena política, afeta também a construção do protagonista. O humor e a vulnerabilidade que aparecem na relação com a esposa, Clemmie (Kristin Scott Thomas), até removem algumas camadas de solenidade e facilitam a identificação por parte do público, assim como as interações com a secretária, Elizabeth (Lily James), servem para dar ares mais comuns à sua rotina. O problema surge quando “O Destino de uma Nação” tenta humanizar o político por meio do contato com a população, o que resulta em um dos segmentos mais constrangedores já vistos numa cinebiografia do tipo.

Por mais aquecidos que sejam os debates, o filme sofre para fazer com que eles extrapolem os limites dos gabinetes e ganhem contornos palpáveis

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No trecho em questão, Churchill decide tomar o metrô instantes antes de seu famoso discurso de união nacional. Filmada com direito a cidadãos completando versos de um poema recitado por ele, a cena é tão falsa que atira pela janela o esforço de recriar os passos duros que levaram até esse momento decisivo. Diferente do que ocorre na virada anterior da trama, quando o diretor preenche a tela de vermelho durante um pronunciamento via rádio para indicar o perigo imediato, aqui ele escolhe uma saída de conto de fadas, que se entrega facilmente à lenda e abandona o personagem e o realismo pelo caminho.

A escorregada é grande demais até para um filme que havia conseguido escapar de algumas principais controvérsias da biografia de seu protagonista, em parte graças ao estilo muito-bem-ensaiado de Joe Wright, que faz com que tudo pareça estar sempre no lugar certo; em parte porque o roteiro, no limite, se contenta em fazer reverência a quem retrata. Nem mesmo o grand finale armado para Gary Oldman brilhar no centro do parlamento, com toda sua carga histórica e dramática, consegue justificar o investimento no que acaba sendo apenas mais uma entre tantas homenagens.

nota do crítico

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