“Philip K. Dick’s Electric Dreams” busca no sonho a plataforma para uma antologia de ficção-científica

Série distribuída pela Amazon adapta de forma esquizofrênica os contos do famoso escritor americano

por Pedro Strazza

A ficção-científica nunca chegou a morrer de fato na televisão, mas é fato que o gênero parece ter ressuscitado dentro do mainstream televisivo nos últimos tempos. Graças ao crescente interesse por séries como “Doctor Who” e “Black Mirror”, produções do tipo voltaram a ocupar algum espaço nos palcos centrais da telinha, sendo capaz de levar a Netflix a investir no gênero com a caríssima “Altered Carbon” e fazendo a CBS trazer “Star Trek” de volta à programação. Quem busca pegar carona nessa onda de sucesso agora é a Amazon Studios, estúdio que foi buscar na obra de Philip K. Dick as bases para veicular o seu próprio seriado de antologia do gênero, aos moldes do sucesso da produção de Charlie Brooker.

Mas ainda que a estrutura primária do programa seja bastante similar à de “Black Mirror” e sua origem também esteja na Channel4 (canal inglês que produziu ambos os programas), “Philip K. Dick’s Electric Dreams” mostra desde seus primeiros minutos uma pré-disposição latente de seguir caminhos muito diferentes aos percorridos pela produção atualmente da Netflix – uma decisão inicial, vale acrescentar, que só é benéfica às suas intenções. Se a antologia de Brooker opta pelo caminho do terror imediatista em torno de questões humanas com a tecnologia, a série desenvolvida por Ronald D. Moore (produtor conhecido pelos sucessos de “Outlander” e a reencarnação dos anos 2000 de “Battlestar Galactica”) mira rumos mais próximos do abstrato, adaptando contos do famoso escritor que mexem de alguma forma com o conceito do imaginário humano.

É uma tendência discreta esta que a produção conduz, ainda mais porque – como é de se esperar de qualquer antologia – a variedade de temas ao qual ele percorre em seus dez episódios é imensa. Os dez contos selecionados por Moore para compor esta primeira temporada vão de distopias e pretensas utopias passadas em futuros muito distantes a realidades povoadas por novas tecnologias (ou seres) que assemelham muito aos tempos de hoje, trabalhando uma miríade de assuntos que por vezes soam até antagônicos em suas abordagens (no bom sentido). Mas por serem parte do mesmo conjunto da obra de um escritor, duas temáticas maiores hão de permanecer constantes mesmo que em determinados capítulos elas sejam tocadas tangencialmente: a grande questão do que compõem a humanidade do ser humano e, em um parâmetro mais subjetivo, a nossa relação com o sonho.

Ainda que esta última vá se esvaziando ao longo da temporada por conta de outros problemas, a presença desta parte da nossa imaginação é um pivô no mínimo interessante para unir os episódios da série. Os escritos de K. Dick sempre remeteram ao tema sob diferentes ângulos e raciocínios narrativos (uma noção que só foi ressaltada nas várias adaptações de sua obra), e “Electric Dreams” de pronto parece se encarregar da tarefa de adaptar este material dentro desta diversidade de pontos de vista, usando do sonho desde elemento narrativo – casos de “The Hood Maker” e “Real Life”, capítulos estabelecidos em cima de personagens que lidam com problemas pessoais à partir deste mundo – a alicerce central da trama – como “The Forbidden Planet”, cuja estruturação de fantasia espacial é somente o ponto de partida para uma trama sobre predestinação impossível e metas de vida despedaçadas, protagonizada por Jack Reynor e Geraldine Chaplin.

A série mira rumos mais próximos do abstrato, adaptando contos do famoso escritor americano que mexem de alguma forma com o conceito do imaginário humano

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Postos estes dois extremos, os melhores episódios de “Electric Dreams” surgem sem surpresa quando mais próximos do último que do primeiro. Além de “The Forbidden Planet”, um capítulo que se destaca bastante no todo é o “The Commuter” estrelado por Timothy Spall e Tuppence Middleton, cuja história sobre uma sociedade utópica escondida no interior da Inglaterra de hoje traz uma alegoria singela e emocionalmente difícil sobre o Reino Unido no pós-Brexit e a dificuldade de uma nação em aceitar as próprias imperfeições. O roteiro de Jack Thorne, recentemente contratado para redigir o nono capítulo da saga “Star Wars”, é um dos bons casos de atualização do material do programa junto do “K.A.O.” de Dee Rees, cuja simplicidade no modo de operação não prejudica o valor da completa remodelação que a cineasta faz do “The Hanging Stranger” de K. Dick.

São acertos, porém, que acabam um pouco diminuídos no fim quando se encara o quadro geral estruturado pela série, cujo pecado maior talvez seja sua decisão de elaborar equipes criativas completamente distintas para cada capítulo. Ainda que a autonomia conferida aos episódios seja interessante na teoria e muito bem-vinda por conceber uma variedade estilística à produção, Moore comete erros de curadoria muito dolorosos no que consta à escolha das histórias, especialmente em quantidade e diferenciação temática. Além disso, falta um pouco de direcionamento prévio aos diretores e roteiristas encarregados, cujas escolhas arbitrárias entre adaptações literais e reinvenções completas do material dão à série uma aparência esquizofrênica de viver tanto em futuros do presente quanto do passado.

“Electric Dreams” comete erros de curadoria muito dolorosos no que consta à escolha das histórias, especialmente em quantidade e diferenciação temática

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Esses problemas, especialmente o de repetição, começam a ficar mais evidentes (e sofridos) conforme o seriado avança em direção aos seus episódios finais. Se os três primeiros capítulos – os já citados “The Hood Maker”, “The Forbidden Planet” e “The Commuter” – apontam uma sólida coesão de temas similares, a maioria dos que os sucedem se rendem a esses equívocos e ainda acentuam a frágil dramaturgia da série. “Autofac” e “Safe and Sound” fazem a ambientação de manipulação corporativa sob um mesmo ângulo; “Human Is”, protagonizado por Bryan Cranston e Essie Davis, surge por outro lado como uma distopia militarista que cheira aos moldes da paranoia comunista da época em que o conto foi publicado; já “Crazy Diamond” mostra-se antiquado e mesmo perdido em sua alegoria em meio a tantos conceitos abstratos aos quais não é capaz de explicar. Mesmo o décimo e último episódio, o “The Father Thing” estrelado por Greg Kinnear, soa ultrapassado ao realizar a mesma trama de invasão da Terra da história tantas vezes contada de “Os Invasores de Corpos”.

É esta sensação de repetição, na verdade, que se converge como dilema maior de “Electric Dreams”. Se K. Dick é hoje uma das grandes referências da literatura de ficção-científica e já teve seus trabalhos levados às telas de diferentes formas, a antologia parece não reconhecer esse acúmulo (ou, sob certo olhar, desgaste) inerente à obra, preferindo encarar todos os seus assuntos com ineditismo. E esta recusa subjetiva de encarar de frente o próprio peso acaba afundando a série, tornando-a mais próxima da curiosidade histórica que efetivamente na grande plataforma de ficção-científica que ambiciona ser.

nota do crítico

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