Lançado de surpresa, “The Cloverfield Paradox” é a entrada mais equivocada da franquia

Terceiro episódio da antologia de horror busca amarrar a mitologia da série e tocar o horror no desespero

por Pedro Strazza

⚠️ AVISO: Contém spoilers menores

Os filmes da franquia “Cloverfield” talvez sejam hoje os experimentos de marketing mais arriscados dentro da área de figurões engravatados e grandes apostas de Hollywood. Iniciada em 2008 com “Cloverfield: Monstro”, a série cinematográfica produzida pela Bad Robot de J.J. Abrams é o ápice do conceito da “mistery box” abraçado pelo diretor, produzindo capítulos aparentemente desconexos entre si para lançá-los de surpresa e sem qualquer preparação maior ao público. Situados em gêneros muito diferentes (o found footage e o suspense de câmara), os dois primeiros episódios até então lançados prezavam por uma execução do terror que desprezava qualquer esforço de cronologia não importando as consequências – o rascunho de uma mitologia maior estava desenhado nas campanhas virais, único fator de uma possível união entre as histórias.

Mas se tanto “Monstro” quanto “Rua Cloverfield, 10” funcionavam como verdadeiros capítulos de uma antologia cinematográfica estruturada em cima de um mesmo denominador no título, a terceira entrada da franquia mostra-se interessada justo nessas amarrações de cronologia que até então eram postas de lado. Auge da estratégia de divulgação em formato blitzkrieg da franquia – o filme foi anunciado no Super Bowl, cerca de três horas antes de seu lançamento na Netflix – “The Cloverfield Paradox” é também uma crescente exponencial do modo de operação da série, seja no maior valor de produção ou da ambição da proposta, que sai das limitações de subgêneros de baixo orçamento para desejar a ficção-científica de horror e parte de suas grandes questões.

Este interesse é parcial e não completo porque mesmo que o filme de Julius Onah circunde estas questões (como a renovação de fontes de energia ou os conflitos entre sociedades) ele não deixa de ser um episódio de “Cloverfield”, e por conta disto a execução do gênero é ainda o centro narrativo da produção. Escrito por Oren Uziel, o longa acompanha um grupo de cientistas em uma estação espacial que à partir de uma espécie de acelerador de partículas buscam solucionar o problema da falta de energia no mundo, que sofre de “apagões” cada vez maiores. Depois de alguns meses e inúmeras tentativas fracassadas, a equipe internacional consegue ativar por um momento o complexo aparato, mas sua instabilidade provoca um acidente quântico que transporta a instalação para um universo diferente e manda uma estranha criatura alienígena gigante para a Terra.

Assim como é óbvio que este ser gigantesco logo se revelará o monstro do primeiro filme, “The Cloverfield Paradox” não demora muito para começar a se pautar como mais uma estrutura baseada no horror espacial de “Alien: O Oitavo Passageiro”, cruzado aqui com referências temáticas do “O Enigma de Outro Mundo”. Embora sua narrativa não almeje (ou, pelo menos, não saiba executar) a claustrofobia dos ambientes do longa de Ridley Scott ou a propensão ao gore de John Carpenter (cenas mais violentas são assépticas a nível de não rolar sangramento em decepamento de braço, por exemplo), Onah colhe das duas obras o clima comum de suspeita sobre o outro, insinuadas no começo sob a aura de um conflito maior de nações e convertido posteriormente em paranoia completa.

O filme provoca instabilidades entre os personagens para manter sua história sempre tensa e à beira da explosão

compartilhe

No fundo, o que o diretor quer é aproveitar ao máximo do mistério que é inerente ao projeto para nutrir sua narrativa, criando dúvidas em todos os lados para ocultar a identidade do grande inimigo da trama. O filme se alterna entre suspeitos (seria o alemão interpretado por Daniel Brühl um traidor? Ou é tudo uma tramoia da cientista de Elizabeth Debicki? E o Paradoxo, seria ele que quer impedir a tripulação de voltar pra casa?) e provoca instabilidades entre os personagens para manter sua história sempre tensa e à beira da explosão, sustentando-se ainda por uma miríade de eventos esquisitíssimos que logo confere à produção um viés de casa de horrores – e sob certo olhar é esta propensão intermitente ao bizarro o qual rende à obra seus melhores momentos, seja na mão senciente ou na crescente de mortes criativas dadas aos tripulantes.

Esta constância do terror, porém, vai se revelando como única manobra disponível do roteiro, que de resto mostra dificuldades latentes em manter a história uniforme por toda a sua duração. Conduzido às cegas e hiperbólico por natureza, o longa vai se perdendo aos poucos na própria narrativa e se entrega a todo tipo de reviravolta que mantenha a sua trama acesa, confundindo as necessidades da história com a dos personagens. Neste sentido, é curioso observar como cada um dos tripulantes é reduzido a estereótipos do gênero e de suas respectivas nacionalidades, uma combinação de abreviações fáceis do texto que é sumarizada no astronauta brasileiro interpretado por John Ortiz – ele se chama Acosta e sua função maior na trama é ser o “homem de fé” da equipe.

Não existe uma coesão narrativa maior, apenas um exercício de continuidade da tensão a qualquer custo

compartilhe

No fundo Onah e Uziel estão lidando com problemas típicos do confronto entre executivo e criativo – a trama na Terra, que mostra o marido da protagonista interpretada por Gugu Mbatha-Raw passeando por cenários similares aos dos outros capítulos, tem toda a cara de imposição prévia do estúdio para “conectar” a franquia – mas espanta a própria inabilidade da dupla em manter funcionando o seu conto de horror espacial. Seus personagens estão sempre desesperados mesmo quando não há nada para se resolver com absoluta urgência, nenhuma das ameaças se conecta direito (a suspeita sobre o astronauta alemão de Brühl vai e volta sem nenhum motivo) e até as cenas de maior horror em algum momento se esgotam, tudo isso enquanto o filme persegue qualquer tipo de grande questão que ora ou outra se manifesta isoladamente. Não existe aqui uma coesão narrativa maior, somente um exercício de continuidade da tensão a qualquer custo.

O desastre é estranho não só por conta do histórico da franquia, que sempre conseguiu se impor com limitações bastante visíveis e auto-impostas, mas também porque o horror espacial se tornou em um objeto de estudo recorrente no cinema estadunidense nos últimos tempos. Mas se obras como “Vida” e “Alien: Covenant” também fracassavam nos esforços de emulação desta estrutura tão consagrada, eles pelo menos faziam da execução do gênero uma razão de existência no mínimo palatável, algo não repetido em “The Cloverfield Paradox” por conta de seu interesse único de alimentar a franquia maior ao qual pertence. Eis aqui o exemplo de um filme que recorre ao gênero não como forma de criar, mas sim para se trancar dentro dele e sobreviver ao que quer que venha em sua direção.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link