“Três Anúncios para um Crime”: grande atuação de Frances McDormand não salva roteiro problemático

Novo filme de Martin McDonagh (de “Na Mira do Chefe” e “Sete Psicopatas”) desperdiça ótima protagonista com trama irregular

por Virgílio Souza

Martin McDonagh conta ter visto uma série de outdoors parecidos com os que existem em seu novo longa quando viajava pelo sul dos Estados Unidos na década de 90. Somente anos depois completaria a imagem que tinha guardada na memória, acrescentando a ela a história de uma mãe que decide usar os anúncios para pressionar o departamento de polícia local a encontrar o responsável pelo estupro e assassinato de sua filha. A premissa por trás do roteiro parecia potente e, na visão do autor, funcionaria se tivesse Frances McDormand (de “Fargo”) no papel principal, escrito com ela em mente.

A previsão sobre a atriz se prova certeira. “Três Anúncios para um Crime” realmente tem força quando se foca nas ações da protagonista. Grande parte desse sucesso se deve à qualidade da performance central, que consegue transmitir emoções variadas através da postura e das expressões do rosto mesmo quando a direção parece mais interessada nos aspectos mais teatrais e explosivos de sua atuação — ou na esperteza do próprio texto.

Não há uma palavra exata para definir o estado de Mildred, a personagem principal, quando a conhecemos. A investigação sobre a morte de Angela (Kathryn Newton), ocorrida sete meses antes, não avança, e ela se cansa de medir as consequências para mudar a situação. Como a própria McDormand explica: alguém que perde os pais é chamado de órfão e alguém que perde o companheiro, de viúvo; uma mãe que perde a filha sequer recebe um nome. E é a partir dessa desolação, desse sentimento único de vazio sem fim, que o filme se estrutura.

O diretor Martin McDonagh, à direita, no set

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Dado o contexto, a protagonista não tem muito controle sobre a própria raiva, que parece direcionada a qualquer um que atravesse seu caminho. O encarregado pelos outdoors, uma repórter de televisão e uma dupla de adolescentes são alguns dos que recebem seus ataques de fúria. A cobrança feita nos anúncios, porém, é direcionada a um sujeito específico: Willoughby, o chefe de polícia interpretado por Woody Harrelson.

Embora McDonagh aposte firmemente em seu roteiro verborrágico, herança de uma carreira feita nos palcos, os melhores momentos desse embate aparecem naquilo que não é dito — uma lógica que não encontra muito espaço para se desenvolver aqui. Como os demais personagens, Mildred e o comandante emendam monólogos um contra o outro em diversas ocasiões, mas é nos olhares trocados pelos atores que essa relação ganha corpo de verdade. A cena em que a protagonista percebe a gravidade da condição de Willoughby, levando-a a rapidamente mudar a chave da conversa e encontrar a humanidade do outro no processo, é um caso emblemático e, infelizmente, raro.

“Três Anúncios para um Crime” realmente tem força quando se foca nas ações da protagonista

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Como de costume na carreira do cineasta, marcada pelo humor negro de “Na Mira do Chefe” e “Sete Psicopatas e um Shih Tzu”, logo fica claro que ninguém é inteiramente bom ou ruim; que as intenções podem estar certas e os cursos de ação, errados, e vice-versa; no limite, que somos todos seres falhos. Em “Três Anúncios”, porém, a comédia fica em segundo plano e nem sempre soa bem, ao passo que o drama apenas sugere interesse nas ambiguidades e desvios (inclusive de caráter) dos personagens. Na maior parte do tempo, o filme apenas usa essas inconsistências pelo prazer de subverter expectativas e pela chance de passar por uma série de questões complexas sem assumir a responsabilidade de lidar com o peso e as particularidades de cada uma delas.

O exemplo mais claro e amplamente discutido é o modo como McDonagh trata o personagem de Sam Rockwell, de longe o elo mais problemático do filme. Dixon, um policial que tem como principais características o racismo e a incompetência, traz contradições que o filme nunca se preocupa em enfrentar. Ao contrário: ouvimos em tom de convencimento que “no fundo ele é um bom homem” tantas vezes quanto vemos personagens narrarem (sem consequência alguma) seus crimes, que incluem a tortura de um homem sob custódia. Assim, a violência com que trata os habitantes negros da cidade vira apenas mais um acessório curioso de sua personalidade, tendo tanto destaque quanto os aspectos de sua vida que de alguma forma justificam tal comportamento raivoso e errático — a figura da mãe (Sandy Martin), ainda mais perversa do que ele, não parece ter outro motivo para existir que não o de absolver parte de sua culpa.

Ainda que seu envolvimento na resolução do caso da filha de Mildred não gere necessariamente um arco de redenção, é no mínimo estranho notar o esforço do roteiro em oferecer saídas positivas para Dixon. Mais estranho ainda que elas se sustentem em ofertas de perdão inacreditáveis (quando o rapaz que ele atira do segundo andar de um prédio lhe oferece suco de laranja no hospital) e coincidências que nada tem a ver com qualquer avaliação de seus erros (quando o policial escuta uma conversa importante no bar, ou quando está no lugar errado na hora errada e acaba renascendo das chamas com uma nova visão sobre os fatos).

Não é a confusão que compromete trechos importantes do filme, mas a atração que Martin McDonagh tem por recursos de narrativa rasteiros

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O que torna tudo ainda mais complicado é perceber que, na tentativa de enxergar várias perspectivas, “Três Anúncios” acaba sem posição ou olhar definidos, tão perdido no desfecho quanto no momento em que toda a loucura teve origem. E é assim que a narrativa avança, saltando de um lado para o outro com base em acasos e apresentando personagens que ora servem de acessórios para agitar a trama ou desatar seus nós, ora parecem caricaturas mal acabadas ou simples oportunidades de piada — Peter Dinklage, outra vez desperdiçado no cinema, é um exemplo disso.

Não é difícil entender o que McDonagh quer dizer quando afirma que “a ideia é que o filme seja deliberadamente bagunçado e difícil, porque o mundo é bagunçado e difícil”. No entanto, não é a confusão que compromete alguns dos trechos mais importantes do longa, mas a atração que o roteirista tem por recursos de narrativa rasteiros. Suas estratégias para compreender as motivações de Mildred, por exemplo, vão de um flashback escandaloso com a filha até conversas sentimentalistas com um animal selvagem e as próprias pantufas — momentos que soam absolutamente falsos quando deveriam ser as coisas mais reais em toda a duração do filme. Mesmo as cartas de Willoughby, que conseguem oferecer algum senso de ordem à trama, acabam desmoronando quando incluem frases que nada dizem, apenas fingem dizer, como “o que você precisa para ser um detetive é amor”. No fim das contas, a despeito de qualquer graça ou alívio que possa existir em suas reviravoltas, só resta lamentar que “Três Anúncios para um Crime” se desvie tanto de seus maiores méritos para insistir em seus problemas mais graves.

nota do crítico

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