“Trama Fantasma” é mais um grande filme de Paul Thomas Anderson

Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps protagonizam história de amor diferente de tudo o que você já viu

por Virgílio Souza

Reynolds (Daniel Day-Lewis) e Alma (Vicky Krieps) se conhecem durante o café da manhã. Sentado no canto do salão, ele observa atentamente enquanto ela atravessa seu campo de visão, passando com rapidez pelas mesas e deixando um rastro de barulho pelo caminho. Seus olhares se cruzam e dois sorrisos aparecem: um de curiosidade, outro de timidez. E o que normalmente incomodaria o estilista, cuja personalidade metódica exige silêncio absoluto para começar bem o dia, de imediato se transforma em interesse pela garçonete.

Em seguida, ela se aproxima, anota um longo pedido que indica o tamanho do apetite daquele sujeito e, quando retorna para servir o chá, é convidada por ele para um jantar. A câmera enquadra o futuro casal de lado, ela de pé e ele sentado, com uma paisagem bucólica dos anos 1950 na janela ao fundo, para depois se afastar lentamente, formando uma imagem que poderia estampar a capa de um clássico romance inglês. Diferente do que a introdução sugere, porém, “Trama Fantasma” passa longe de reproduzir a típica história de amor em que uma jovem inocente tenta aquecer o coração gelado de um gênio solitário. Como nos trabalhos anteriores de Paul Thomas Anderson, há muito mais a desvendar sobre os personagens, as interações entre eles e o universo que habitam para além da premissa.

⚠ AVISO: Contém spoilers

O impacto do novo relacionamento pode ser sentido desde o instante em que Alma passa a habitar a mansão onde Reynolds Woodcock vive e cria. Ela é alçada à condição de musa, mas rejeita uma posição de subserviência e não se conforma com uma série de atitudes do companheiro. Suas respostas servem de termômetro para a transformação em curso: vão de observações simples, mas que todos temem dizer em voz alta (“Você só está fingindo ser forte”) até o confronto aberto, quando ela firma o pé em reação a um ataque (“Talvez eu esteja mesmo querendo arranjar problemas”).

Ainda que durante boa parte do tempo seja difícil definir a dimensão dessas mudanças ou prever os rumos que elas tomarão, parte do senso de descoberta em tempo real que torna o filme tão envolvente, o certo é que a postura da personagem principal difere radicalmente daquelas que abordam Reynolds em restaurantes confessando que querem ser enterradas em um de seus vestidos. A ideia causa fascínio e confusão no estilista, que vê seu mundo metodicamente planejado ser virado de cabeça para baixo pelo fato de que Alma, de repente o componente mais importante de sua vida e obra, duas coisas indissociáveis, tem vontade própria e consciência de seu valor. “Ninguém consegue ficar de pé tanto quanto eu”, ela diz, fazendo referência à disposição para servir de manequim por horas e horas, mas também demonstrando ter assumido o controle sobre a obsessão dele*.

Como nos trabalhos anteriores de Paul Thomas Anderson, há muito o que desvendar sobre os personagens, as interações entre eles e o universo que habitam

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De início, Alma é parte de uma dinâmica mais ampla. Isso fica claro na primeira sequência passada no casarão, quando vemos a musa anterior ser ignorada por Woodcock e depois dispensada por sua irmã, Cyril (Lesley Manville) — apenas uma das várias medidas protocolares que ela toma diante das ondas de inspiração e enfado que marcam a vida do protagonista. Mas a jovem recém-chegada parece decidida a romper esse ciclo e, assim, passa a tomar conta de todos os espaços ao redor do estilista.

É impressionante ver como Vicky Krieps e Daniel Day-Lewis (ambos excelentes) alteram suas posturas no decorrer do filme

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Paul Thomas Anderson, diretor e roteirista, registra esse processo com enorme precisão. A câmera chama atenção para a parte procedimental do ofício de Reynolds, mas preenche os intervalos com o rosto de Alma, que agora ocupa o centro de sua rotina e de seus pensamentos. Entre tantos detalhes valiosos, é impossível desviar os olhos dos dedos dele percorrendo as costas dela com uma fita métrica, do tecido sendo costurado ou ajeitado em seus ombros, e até das mãos de Cyril tomando notas como se a inspecionasse. Já nos planos abertos, que se tornam mais frequentes conforme se intensifica o choque entre os dois lados do casal, é impressionante ver como Krieps e Day-Lewis (ambos excelentes) alteram suas posturas no decorrer do filme: ela, superando o desconforto inicial para se impor cada vez mais, inclusive fisicamente; ele, se retraindo, sem saber como se portar nos novos tempos.

Não é coincidência, portanto, que a sequência fundamental em que Woodcock se abre pela primeira vez para Cyril sobre seus sentimentos surja imediatamente após uma festa de réveillon, anúncio de uma época em que, no trabalho, palavras como “chic” entram em moda e clientes procuram outros estilistas e, em casa, seu temperamento não é mais aceito sem resistência. Sua decisão de abraçar a mudança que vem de fora para dentro, por mais dolorosa que ela seja, é ainda mais forte pela rejeição anterior a tudo que escapa de seu alcance.

“Uma casa que não muda é uma casa morta”, ele finalmente reconhece em um momento dramático. A trilha de Jonny Greenwood acompanha essa virada. Acostumado a sons mínimos e muitas vezes distorcidos, como podemos notar em colaborações anteriores com PTA (“Sangue Negro”“O Mestre”“Vício Inerente”), aqui o compositor faz cada nota transbordar de emoção. O molde é o mesmo dos tradicionais romances de época, com arranjos grandiosos nas principais sequências envolvendo o casal, mas o modo como cada faixa rompe o silêncio sem precisar se anunciar é inteiramente seu, e poucas coisas são tão importantes para a atmosfera delirante do desfecho quanto a música.

No fim das contas, não é somente no relacionamento amoroso que Reynolds acaba afetado por Alma. A complicada relação entre o estilista e a mãe, que lhe ensinou a costurar e para quem ele desenhou seu primeiro vestido, também ganha contornos diferentes após a chegada da jovem. Decidida a quebrar o que Cyril chama de “uma maldição”, Alma preenche esse vazio no coração de Reynolds oferecendo a ele cuidado e esperando receber em troca a doçura e a sinceridade que ele parece ter perdido ainda na infância. E o longa marca essa aproximação tanto no texto (algo muda na postura da garota quando alguém se refere a ela como “Sra. Woodcock”) quanto visualmente (a aparição misteriosa da matriarca deixa o protagonista ainda mais aberto e vulnerável).

Associações do tipo aparecem também quando pensamos no apetite do protagonista, chamado de “garoto faminto” pela companheira. Se na sequência em que eles se conhecem é curioso como Reynolds planeja o jantar antes mesmo de começar o café da manhã, dando sinais de sua insaciabilidade e desejo por controle, no fim sua postura é outra. Agora é Alma quem decide o cardápio e prepara a receita à sua maneira: com uma dose extra de manteiga, mesmo que ele desaprove, e o sorriso assertivo de quem dita as regras. “Ele esperaria por mim no além-vida”, ela conclui. Felizmente, “Trama Fantasma” é tão bom que parece impossível duvidar.

nota do crítico

Aqui, o texto de PTA aproveita um duplo sentido existente na língua inglesa: “No one can stand as long as I do” também pode ser entendido como “Ninguém aguenta [o temperamento de Reynolds] tanto quanto eu”, um trunfo que Alma usa diversas vezes.

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