“Deadpool 2” é uma comédia tão divertida quanto excessiva

Continuação do filme de 2016 chega com mais orçamento e liberdade e, apesar de repetir alguns deslizes do antecessor, é mais divertida e empolgante

por Matheus Fiore

“Deadpool” abriu muitas portas para novidades no cinema baseado em personagens de quadrinhos. Sua fórmula metalinguística que satiriza não só o gênero, mas Hollywood como um todo e até as trajetórias profissionais dos envolvidos no projeto (há referências a “Lanterna Verde”, por exemplo, fracasso protagonizado por Ryan Reynolds, que vive também o próprio Deadpool), trouxe um frescor para o “cinema nerd”. Além de toda a estética, que era algo novo no gênero, o filme de Tim Miller também quebrou paradigmas por ser o primeiro longa de “heróis” com classificação etária máxima a alcançar a impressionante marca de 750 milhões de dólares na bilheteria – o que permitiu, por exemplo, que o estúdio investisse em “Logan” no ano seguinte.

Se, porém, pusermos de lado todos esses predicados do filme e do trabalho de marketing que o acompanhou, “Deadpool” é tão divertido quanto simplório. Em dado momento, a fórmula de humor autodepreciativo e as brincadeiras metalinguísticas tornam-se repetitivas. Além disso, a obra de Tim Miller logo abraça alguns clichês da ação (o vilão que sequestra a companheira do herói, por exemplo) e, como resultado, mostra-se satisfeita com pouco.

Ryan Reynolds e o diretor David Leitch no set

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Chega, então, “Deadpool 2”. Com menos pressão por resultados nas bilheterias (o sucesso de público aqui é quase certo) e mais orçamento, a saga cai nas mãos de David Leitch, de “John Wick”“Atômica”. Com a mudança de direção, o caminho óbvio era que a sequência fosse mais frenética do que o filme de 2014, já que Leitch mostrou-se um cineasta que muito preza pelos combates coreografados. A ação desenfreada está lá, juntamente à comédia, mas o fator mais peculiar de “Deadpool 2” é como o filme busca desconstruir alguns elementos formadores do personagem: aqui, a jornada do anti-herói Wade Wilson é para ele tornar-se um… herói.

Na continuação, Deadpool tem como contraponto dramático Cable, o mutante vindo do futuro interpretado por Josh Brolin. O protagonista, um anti-herói declarado, passa a adotar atitudes heróicas enquanto se vê numa disputa com o novo antagonista. É curioso notar que, além da relação heroísmo versus vilania, há, com Deadpool e Cable, uma relação de oposição dramática. Se Wade Wilson é sempre o epicentro cômico da narrativa, Cable é o personagem que trará seriedade e raramente fará uso do humor.

O fator mais peculiar de “Deadpool 2” é como o filme busca desconstruir alguns elementos formadores do personagem

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Ainda falando sobre a relação entre a dupla, é interessante como o roteiro utiliza um elemento em comum para desenvolver as jornadas dos dois: ambos partem de tragédias pessoais que guiam suas escolhas ao longo do filme. Com isso, “Deadpool” é capaz de trabalhar um tema central na narrativa, que é o peso das escolhas dos personagens. Há, em dado momento da trama, uma aproximação entre Wade Wilson e Russell Collins, um jovem mutante que rebelou-se contra o lar de mutantes onde mora. A partir desse ponto, o roteiro versa sobre o bullying, mas, mais do que isso, permite que o aprendizado com os erros e o peso das escolhas sejam elementos definidores da transformação de Deadpool, que vai de anti-herói para herói justamente por sentir-se responsável pela trajetória de Collins.

A escolha por uma trama tão dependente de piadas tem seu preço quando “Deadpool 2” tem pretensões dramáticas mais sérias

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Esta relação de causa e efeito é, talvez, o grande acerto do filme. Percebemos como, a priori, Deadpool escolhe sempre por reações impulsivas, explosivas e egoístas, o que inicialmente é retratado de forma bem humorada, por ser uma característica da figura despojada e caricata que é Wade Wilson. Aos poucos, porém, Deadpool passa a presenciar os efeitos de seus atos, o que o leva à reflexão e, posteriormente, à busca pelo amadurecimento. Todo esse desenvolvimento, porém, acaba sendo sufocado por um filme que precisa, a todo momento, inserir piadas ou sequências de ação, o que faz com que não haja um trabalho de desenvolvimento de arcos para o personagem.

Os traumas como ponto de partida para jornadas de aprendizado e vingança, o bullying e as escolhas e suas consequências: “Deadpool 2” apresenta muitas ideias para desenvolver por meio de muitos personagens. Como resultado, os temas se embolam e se perdem no mar de piadas, tiroteios e lutas, sufocando as propostas temáticas em uma narrativa calcada no humor e na ação. A escolha por uma trama tão dependente de piadas, porém, tem seu preço além do inchaço narrativo: “Deadpool 2” claramente tem pretensões dramáticas mais sérias em certo ponto da trama. Quando explora o luto e a perda da vontade de viver de um personagem que acaba de passar por uma tragédia pessoal, que é a mais tensa cena do filme, o plano seguinte já engata a maior piada da obra, o que impede que qualquer impacto esteja presente.

É divertido que haja uma obra baseada em personagens da Marvel que consiga tirar sarro da atual indústria de filmes de heróis

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Já a ação, como se espera de Leitch, é um prato cheio. Investindo mais em combates corpo-a-corpo – aqui, Deadpool usa muito mais suas espadas do que no filme anterior -, Leitch, seu diretor de fotografia e o montador trabalham cenas filmadas próximas ao conflito, o que provoca imersão para o espectador, ao passo que confere mais urgência à obra. Mesmo com o dedicado trabalho de coreografia, porém, “Deadpool 2” faz algo semelhante a “Guardiões da Galáxia Vol. 2”, e mostra, pelo posicionamento de sua câmera, qual é o verdadeiro foco da narrativa. Há, por exemplo, uma cena de combate entre dois personagens que, em seu ápice, passa a ser filmada de longe, desfocada, para que o espectador presencie mais uma piada de Deadpool. Em “Guardiões 2”, o mesmo acontece na famosa cena da equipe enfrentando um monstro, quando toda a batalha é relegada para o fundo do plano enquanto o espectador assiste à dança de Baby Groot.

Esse humor caótico, que guia toda a narrativa, já é conhecido por quem assistiu ao filme de 2016, e funciona na maior parte das vezes. É admirável, ainda, como o roteiro consegue utilizar esse humor para justificar suas escolhas mais simples, com direito ao protagonista virando para a tela e afirmando que o roteiro é preguiçoso, justamente para ironizar um subterfúgio do texto de Rhett Reese, Paul Wernick e Ryan Reynolds. Transforma-se, assim, a simplicidade em um gatilho para mais piadas. Uma hora, porém, a repetição da fórmula pesa, e “Deadpool 2” para de parecer caótico e soa mais como um blockbuster divertido, mas inchado, que finge ser deliberadamente caótico em sua estética, que brinca com a linguagem e com o universo no qual está inserido, mas só o é por erros em sua estrutura.

Mesmo que não seja o melhor filme do mundo, ainda é divertido que haja uma obra baseada nos personagens da Marvel que consiga tirar sarro da atual indústria de filmes de heróis. “Deadpool 2” peca por seus excessos, mas merece nossa atenção por fazer algo diferente.

nota do crítico

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