“Jurassic World: Reino Ameaçado” está preso demais ao passado para encontrar novos caminhos

Por mais boas intenções que tenha, busca de J.A. Bayona para promover olhares distintos dentro da franquia se perde dentro do pastiche nostálgico que a série se tornou

por Pedro Strazza

Ainda que esteja chegando a um impressionante quinto capítulo este ano, a franquia “Jurassic Park” parece nunca ter saído do seu ponto de origem no que consta desenvolver a mitologia do primeiro filme, lançado há já distantes 25 anos. Cada uma das sequências do original tentaram e fracassaram a seu jeito no esforço de prolongar as ideias e conceitos propostos no livro de Michael Crichton e adaptadas por Steven Spielberg, sejam as continuações imediatas que quiseram expandir o lado lúdico a um conjunto de atrações temáticas baseadas nos diferentes dinossauros ou o reboot assinalado com “Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros” que viu nas questões éticas com a genética a chave para refazer as estruturas iniciais. A comparação da marca com seu parque tantas vezes levado ao fechamento só não é mais apetitosa nessas horas por conta das boas margens de lucro obtidas por seu estúdio no processo.

A tarefa de “Jurassic World: Reino Ameaçado”, neste sentido, é especialmente difícil. Depois que o reinício da série pelas mãos de Colin Trevorrow gerou uma das maiores bilheterias da História, a continuação comandada por J.A. Bayona se vê na difícil posição de dar sequência a uma história que até aqui não revelou quaisquer prosseguimentos lógicos distintos, uma situação ainda mais complexa se considerar que o antecessor apostava acima de tudo em uma reprodução nostálgica do original. Se há outra continuação na franquia que por um acaso passou por dilema parecido, esta sem dúvida foi o próprio “O Mundo Perdido” de Spielberg, capítulo o qual logo se revela a base mais óbvia desta nova incursão.

J.A. Bayona no set

A trama do novo “Jurassic World”, afinal, bebe a princípio diretamente das estruturas narrativas do segundo “Jurassic Park”, não hesitando nem por um momento repetir todos os arcos e batidas emocionais da produção que foi a primeira a arriscar seguir em frente. Embora se adicione uma maior urgência no contexto do vulcão ativo, o roteiro de Trevorrow e Derek Connolly segue a mesma premissa de um retorno à ilha sob as vias de um resgate de falsas intenções, reunindo os protagonistas Owen (Chris Pratt) e Claire (Bryce Dallas Howard) para partir em resgate dos dinossauros – incluindo aí Blue, o “adorável” velociraptor criado pelo pesquisador – antes que eles sejam extintos sem que eles percebam que os financiadores de sua excursão tem ambições cuja ganância vai muito além das motivações ambientalistas.

Embora seja feita na presunção de ser a opção mais segura para os caminhos da franquia (por ter sido a última produção com envolvimento direto de Spielberg e Crichton), esta repetição revela muito do quanto estes procedimentos adotados pela sequência estão condenados à inoperância, muito por conta da sensação de conforto que o longa parece seguir em suas duas horas de projeção. Especialmente no primeiro ato, não há muito em “Reino Ameaçado” além do retorno aos arquétipos e momentos tradicionais, um movimento que a essa altura do campeonato parece ter se tornado mais uma obrigação restritiva a qualquer realizador disposto a abarcar a “marca ‘Jurassic Park'” que um percurso possível para estas histórias: a trama de novo vê um grupo de protagonistas chegar à ilha e se deslumbrar em um primeiro momento com os dinossauros mais pacíficos para depois revelar um esquema nefasto contra estas criaturas e por fim mostrar a natureza respondendo à altura e provando como o seu caos é incontrolável. Tudo que o filme pode fazer à partir disso é somar a isso a auto-reciclagem temática daquilo que “Jurassic World” acreditava ser original – cria-se um novo Indominus rex, o Indoraptor, para manter o nível do perigo crescente – e aumentar a escala dos acontecimentos, seja na destruição inevitável do início ou na “promessa” de grandes transformações no final.

Não há muito em “Reino Ameaçado” além do retorno aos arquétipos e momentos tradicionais da franquia

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Seria um completo desastre narrativo se não fosse a figura de Bayona, cineasta que mesmo preso a limitações bem claras (seja do projeto, seja de seu cinema) é capaz de segurar a produção unida pelo mero ato de trazer uma visão criativa à franquia que seja diferente do ímpeto nostálgico vazio de Trevorrow e Connolly. Primeiro diretor não-estadunidense a comandar um capítulo de “Jurassic Park”, o cineasta espanhol chega à série com uma bagagem que escapa um pouco dos ditames spielberguianos e se relaciona com maior firmeza ao horror europeu, em especial aquele que é pautado pela fábula infantil de terror como bem indicam seus “O Orfanato” e “Sete Minutos Depois da Meia-Noite”. Para o longa, este deslocamento de perspectiva de início oferece de relevante somente o enfoque distinto sob as relações do suspense, promovendo um “retorno” ao gênero que pelo visto é muito bem-vindo pelos fãs.

É no campo temático, entretanto, onde esta mudança de olhar parece surtir maior efeito, mesmo que no fundo ela esteja sendo afundada na bagunça criativo-nostálgica promovida pela produção. Se até então todos os episódios lidavam com o perigo no campo da simulação e do futuro – mesmo o primeiro “Jurassic World” mantinha este olhar de ineditismo na criação de um primeiro dinossauro mutante -, em “Reino Ameaçado” esta noção é pela primeira vez posicionada como uma tragédia já acontecida e que não tem como ser evitada, com o horror desta tomada de consciência se tornando o único motor narrativo capaz de impulsionar a continuação a novos caminhos. Bayona promove isso em um ou outro momento estético aprimorado (a cena da morte do brontossauro, por exemplo), mas o símbolo máximo deste projeto é a pequena Maisie (Isabella Sermon), cuja grande revelação por trás de sua pessoa é carregada pelo diretor com todo este olhar traumático de algo que precisa ser lidado e não mais evitado.

Seria um completo desastre narrativo se não fosse Bayona, cineasta que mesmo preso a limitações bem claras é capaz de segurar a produção

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São momentos aguçados da direção, porém, que mais soam como consequências colaterais ao invés de centrais, escondidas entre as sucessivas viradas ridículas e pífias feitas pela sequência para trazer algo de novo à marca – incluindo aí a reviravolta por trás da garotinha, que tenta passar ainda maior gravidade nas questões éticas da narrativa mas só potencializa o ridículo da situação. Se Bayona almeja incrementar “Jurassic World” com novas referências, estas mesmas terminam restritas à narrativa visual do clímax na mansão, que no fundo se basta em repetir a lógica da vinda dos dinossauros ao mundo real sob uma ótica “interiorizada”, contente em fazer sua parte para evitar os pontos críticos maiores do pastiche imediatista no qual se situa.

Mas por mais aborrecidas que sejam na tela, estas dissonâncias claras entre o olhar e o conteúdo no fundo também funcionam como um alerta à franquia, que se vê agora numa encruzilhada da qual não pode permanecer – ainda mais dado o final apoteótico que propõe à história. Acima de tudo, “Jurassic World” deve (e precisa) decidir logo se quer se bastar na repetição de histórias e temas ou se vai se propor a arriscar por novos caminhos estruturais, pois este esforço de tentar se equilibrar entre os dois já foi perdido – em todos os sentidos – há muito tempo.

nota do crítico

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