Ambição, a faca de dois gumes de “Missão: Impossível – Efeito Fallout”

Sexto episódio da série não esconde as intenções de ser o capítulo apoteótico da franquia, ancorado pela ação e a imagem de Tom Cruise

por Pedro Strazza

⚠ AVISO: Contém spoilers menores

Quando Christopher McQuarrie assumiu o leme do quinto “Missão: Impossível” em 2013, a franquia já havia abandonado há algum tempo a pretensão a uma narrativa direta para abraçar de vez o viés episódico. Depois de três episódios centrados de diferentes formas na figura de Ethan Hunt e os dilemas morais enfrentados por ele em um mundo de espionagem dominado por conspirações e traições, a série de filmes resolveu privilegiar à partir de “Protocolo Fantasma” a ação e os feitos de seu astro Tom Cruise, numa sequência que não apenas deixava de lado quaisquer elaborações sobre seu protagonista ou sua história mas que também claramente abandonava estes idos de continuidade em prol das inerentes vantagens da aventura isolada, uma corrida contra o relógio cujo interesse se bastava nos elementos da missão que apresentava ali – algo que sem dúvida atendia os desejos de Brad Bird, diretor do quarto capítulo.

Com McQuarrie, este procedimento pode ser ampliado, reconfigurado de forma a atender tanto as ambições megalomaníacas de seu principal artista quanto a necessidade da franquia em encontrar maneiras cada vez mais ousadas (para não dizer absurdas) de chamar a atenção de seu público, duas resoluções que juntas fizeram a franquia mergulhar com tudo nas cenas de ação drásticas. De pendurar Cruise do lado de fora do prédio mais alto do mundo, “Missão: Impossível” foi direto para o ato de pendurá-lo do lado de fora de um avião em plena decolagem, uma cena de impacto que resume grande parte do posicionamento de “Nação Secreta” perante o gênero mesmo servindo apenas de mero prólogo à produção.

Mas ainda que a maior fisicalidade da ação seja quem chame a atenção no fim (mesmo quando permeada de efeitos digitais), o quinto episódio também foi fundamental à série por ter enfim sacramentado em sua mitologia algo que em outras continuações vinha se tornando uma característica cada vez mais presente: o viés lendário da figura de Hunt e sua relação intrínseca com seu intérprete, cuja imagem hoje é mais do que nunca ligada à marca. Entre as tantas contribuições dadas por “Nação Secreta”, a principal delas talvez tenha a sido de sacramentar seu protagonista como um ser sobre-humano, capaz de realizar todos os feitos impossíveis apenas porque ele é, como bem define o filme, a manifestação física do destino – um acordo entre obra e espectador que Cruise acima de tudo busca honrar de todas as formas possíveis.

Não chega a ser uma surpresa, então, que a continuação de um episódio de construção tão epopeica abrace com tanta intensidade a ambição subsequente a este processo, e neste sentido “Missão: Impossível – Efeito Fallout” é extremamente rápido para esclarecer ao público o gigantismo de suas ações. Logo nos primeiros minutos o longa mostra um pesadelo de proporções nucleares, coloca uma edição da “Odisseia” de Homero nas mãos de seu protagonista e o faz dizer por meio de código que ele é “a tempestade”, compondo uma sequência de acontecimentos rápidos e de impacto que sugerem o óbvio: estamos diante do capítulo mais audacioso da franquia até o momento, um cenário cujas grandes apostas só podem levar aos maiores feitos possíveis ao longo das próximas duas horas e vinte minutos.

Ao mesmo tempo que se inaugura esta ambição um tanto inédita na série, porém, o sexto “Missão: Impossível” também promove um retorno não muito discreto a alguns dos valores vistos apenas na aventura original de Hunt, e é justo neste encontro de velho e novo que o filme encontra um propósito tão distinto. Embora retorne ao comando da franquia (um feito inédito na História da produção, que sempre privilegiou a entrada de novos diretores mesmo durante períodos de bonança) mantendo grande parte de sua metodologia de multiplicação de viés anabolizante intacta, McQuarrie se distancia em “Efeito Fallout” da direção dotada de flerte com as possibilidades do cartunesco para adotar parte do clima de paranoia mais compassada do original de Brian De Palma, cineasta que se não é uma referência com certeza serve de inspiração aos caminhos trafegados aqui.

Na tela, esta mudança ligeira de perspectiva acarreta em uma passagem nem tão discreta entre subgêneros do suspense, deixando de lado parte da vocação da franquia para as histórias de assalto e preferindo uma condição de maior mistério e reviravoltas mais surpreendentes, tudo isso criado e resolvido dentro da ação. Ao contrário de seus antecessores, por exemplo, o longa não se vê intimado a repassar ao público os planos de Hunt e sua equipe para depois tensionar com contratempos, mas segue uma narrativa pautada pelo efeito dessas ações boladas pelo time formado pelo agente, Luther (Ving Rhames) e Benji (Simon Pegg).

Tom Cruise, Christopher McQuarrie e Rebecca Fergunson no set

O filme é extremamente rápido para esclarecer ao público o gigantismo de suas ações

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Para a ação enquanto alicerce, esta nova metodologia adotada por McQuarrie não poderia ser melhor pois é por meio dela que o diretor mantém intacto o desejo de conduzir o filme por estes sets ditados acima de tudo pelo ritmo. Do salto de para-quedas nas alturas à apoteótica luta de helicópteros tanto noticiada na divulgação, estes momentos decisivos são de certa forma impulsionados pela escala ambiciosa dos eventos da produção, que não hesita na hora de forçar a vertigem nestes dois desafios ou de fazer um enquadramento mais arrojado no momento em que o protagonista encara o céu tempestuoso ao qual está prestes a mergulhar. É de tempestades e mitos gregos que “Efeito Fallout” se faz, afinal, e mesmo a trilha sonora de Lorne Balfe reconhece e executa esta função de engradecimento a plenos pulmões, com teclados e orquestra compondo estes desafios mitológicos de seu herói com o tom desesperador das contagens regressivas mais urgentes.

Mas se por um lado este gesto ambicioso é capaz de elevar a ação a novos (e bem-vindos) níveis, ele ao mesmo tempo encara dificuldades de adequação nos espaços de dramaturgia, um problema que a sequência muitas vezes não consegue transpor com a naturalidade necessária.

A bem da verdade, esta é uma dificuldade que surge tanto por uma questão de inconsistência quanto por fundamentação narrativa. A primeira ocorre porque McQuarrie aqui não apenas almeja aludir às estruturas dos outros capítulos mas também converter este sexto capítulo numa grande apoteose da franquia, promovendo uma sensação de fechamento a alguns arcos específicos que atravessam as aventuras da série de forma a multiplicar o engrandecimento de seu protagonista – o maior ato dentro deste raciocínio, claro, é o retorno de Julia (Michelle Monaghan), ex-esposa de Hunt que surge para desvendar para o público parte da obsessão do agente em salvar o dia. Se no papel esta ideia faz sentido, a execução apenas ressalta algumas das limitações de alguns personagens, sejam eles coadjuvantes – a espiã britânica Ilsa Faust (Rebecca Fergunson), por exemplo, tem seu desenvolvimento perdido na trama e vê sua figura reduzida ao papel de novo interesse romântico – ou da própria dualidade Hunt/Cruise, cuja maior força nunca esteve no exercício dramático e sim na ação – e o fato de ser Rhames e não o astro quem protagoniza um dos diálogos chave do filme só salienta isso de maneira um tanto hilária.

Já o segundo surge de uma própria questão de inchaço colateral da história, que em seu desejo de criar algo como um novo grande épico de espionagem nem sempre consegue resolver bem o andamento dos acontecimentos fora da ação – muito porque o seu interesse está justamente na adrenalina. Prova maior deste desbalanço estão nos antagonistas, cujos perfis não resistem às seguidas viradas e acabam ou perdidos dentro da própria linha de eventos, como a Viúva-Branca de Vanessa Kirby que “some” em determinada altura da trama, ou esvaziados o suficiente para se tornarem ameaças pontuais – caso do agente da CIA August Walker (Henry Cavill), cuja revelação óbvia como grande vilão da vez perde um pouco do timing ao antecipar o movimento da manipulação dos celulares.

Chris McQuarrie almeja aludir às estruturas de outros capítulos e converter este 6° capítulo na grande apoteose da franquia

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Esta espécie de “grande” conflito narrativo entre a história e a ação, entretanto, na verdade não se dá pelas vias do conflito direto, mas parece fazer parte de uma faca de dois gumes do qual McQuarrie conscientemente se aproveita na produção. Ao contrário de seus antecessores – que sempre externalizaram a paranoia subsequente da espionagem a outros personagens – “Efeito Fallout” tem um interesse notável de desconstruir a figura maniqueísta de Hunt, um posto máximo que aqui é tratado pelas vias da imagem e dentro dos jogos de ilusionismo responsáveis por consagrar a série nos cinemas. Seja sugerindo diferentes antagonistas, questionando a determinação do protagonista ou dando vida a cenários onde a IMF falha ou vê seu líder corrompido, o filme a todo instante brinca com as expectativas de seu espectador não para trazer caminhos inéditos dentro da franquia, mas para impulsionar a recompensa inerente a seus momentos de catarse. É um tratamento que também serve para reforçar o mito maior da série: Hunt é incorruptível, incansável e imbatível, e não há nada que possa pará-lo de salvar o mundo.

Por mais que falte uma carga dramática melhor elaborada para dar vazão a este tema, esta proposta seria impossível sem o compromisso total de Cruise com o projeto, um esforço consequente de seu aparelhamento à franquia e responsável por levá-lo a elevar o material ao dispensar dublês e assumir as rédeas das cenas mais arriscadas. Por mais insana que sua atitude seja, este comprometimento é fundamental à lógica do filme e McQuarrie reconhece isso. Especialmente quando ele leva a ação às alturas em seus momentos cruciais, o longa busca despir do espectador sua consciência sobre a segurança do que se vê em tela para o imbuir de um forte sensação de vulnerabilidade pelos eventos filmados, uma decisão que Cruise cumpre não apenas nos feitos mas também em suas reações enquanto os realiza. Nestas situações, sejam elas uma peripécia aérea ou um mero momento de respiro antes de voltar à luta, o ator busca de novo fazer a ponte entre dois mundos a princípio inconciliáveis, o das lendas e o dos seres humanos – resta saber, porém, se a produção é capaz de segui-lo nesta intenção.

nota do crítico

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