Narrativa soturna faz de “Noite de Lobos” um ótimo suspense

Filme flerta com místico e aprofunda-se no alegórico para falar sobre perda de sanidade

por Matheus Fiore

Construir uma atmosfera de forma eficiente se tornou uma qualidade limitada a poucos cineastas. Num tempo em que montagens frenéticas retalham cenas em prol de uma ação tão efêmera quanto incompreensível, a lenta morte da imagem parece ser um processo avançado na linguagem cinematográfica. Sempre há, porém, belos exemplares de como a imagem ainda tem e sempre terá força. Em “Noite de Lobos”, de Jeremy Saulnier (de “Ruína Azul” e “Sala Verde”), temos o caso de filme competente nessa construção fílmica deliberadamente lenta, paciente e eficiente para falar sobre insanidade e instintos.

Baseado no livro homônimo de William Giraldi, “Noite de Lobos” acompanha Russell Core (Jeffrey Wright, o Bernard de “Westworld”) um naturalista especializado no estudo de lobos. Após o desaparecimento de uma criança em um vilarejo no Alasca, sua mãe Medora Slone (Riley Keough) escreve uma carta desesperada para Core, pedindo a ele que vá ao local para, no mínimo, encontrar o corpo da criança antes que o pai, Vernon (Alexander Skarsgård), retorne.

Chegando no vilarejo, Core se vê diante de um lugar singular. Com o protagonista tendo seu carro bloqueado por um bisão, Saulnier prontamente nos mostra que não se trata de um lugar comum. O vilarejo onde a trama se desenvolve é um ambiente afastado da civilização moderna, o que reflete numa cultura mais tribal e ritualística. Os habitantes parecem muito mais conectados à tradições xamânicas do que a qualquer ideal científico ou doutrina pós-socrática. Cria-se, portanto, um cenário mais instintivo, primitivo, bem distante das noções de ética e sociedade do século XXI.

“Noite de Lobos” se desenvolve em um cenário muito nebuloso. Todos os personagens são misteriosos e reservados. Assim como os lobos que o protagonista encontra em sua primeira jornada de busca pela criança desaparecida, os habitantes do local têm um olhar contemplativo e frio, tornando difícil para o público desvendar os sentimentos e pretensões dos coadjuvantes. Em contraponto a esse comportamento, está o protagonista, que representando o ponto de vista do espectador, é o único indivíduo a pensar e se comportar como um ser humano por quem possamos sentir empatia.

O diretor Jeremy Saulnier

O protagonista representa o ponto de vista do espectador e é o único a pensar e se comportar como um ser humano

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A impossibilidade de compreender plenamente o que ocorre no lugar reflete diretamente na forma como a obra é fotografada. Além de haver uma paleta de cores que alterna apenas entre o cinza e o marrom, a escuridão se faz presente em cada fotograma de “Noite de Lobos”. Planos nos quais boa parte do quadro está consumida pela sombra é algo constante, bem como planos em que a única luz é a dos faróis dos carros. O mais interessante, porém, é observar a iluminação evidencia a dualidade do caráter dos personagens, fazendo com que, em boa parte dos diálogos, pelo menos um dos interlocutores tenha metade de seu rosto coberto pela sombra.

O posicionamento e a movimentação da câmera também é uma ferramenta importante para o filme, principalmente na construção da tensão. Em muitas das situações nas quais algum personagem estiver diante de algo que o assuste ou ameace, Saulnier optará por posicionar a câmera frontalmente ao personagem. Os planos, então, nos mostram primeiro a reação do personagem, e depois lentamente se movem até revelar o que é observado por ele. Essa opção é importante para que haja uma identificação de sentimento entre público e personagem.

A impossibilidade de compreender plenamente o que ocorre no lugar reflete diretamente na fotografia

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Esses dois elementos (a luz e a câmera) são essenciais para que o espectador sinta-se imerso em uma narrativa onde muito acontece mas nada é explicado. A trama – que tem algumas reviravoltas que, para não estragar a experiência, não valem ser mencionadas aqui – insere novos elementos a todo momento, mas pouco explica para seu espectador sobre o que de fato se passa no lugar. A única associação clara para o espectador é que, aos poucos, percebemos que a linha que separa os humanos e os lobos é mais tênue do que inicialmente podemos imaginar – e nos faz, inclusive, reconsiderar se os lobos vistos não são, na verdade, os próprios humanos representados metaforicamente.

O próprio comportamento dos humanos é um mistério pouco trabalhado de forma direta. Mantendo o terreno cinzento por toda a metragem do filme, Saulnier opta por, até quando fala dos humanos, o fazer de forma indireta, utilizando comentários do protagonista sobre o comportamento da alcateia de lobos para refletir sobre o comportamento humano. Portanto, é compreensível que o entendimento de o que motiva os “vilões” de “Noite de Lobos” seja algo cada vez mais distante do espectador, já que, assim como os lobos, aqueles indivíduos obedecem cada vez menos à racionalidade e entregam-se aos instintos mais primitivos. Portanto, não é coincidência que o clímax da obra seja recheado de cenas que evocam violência e sexo, dois dos instintos humanos mais básicos.

Toda essa tensão não poderia existir se não houvesse uma montagem paciente e respeitosa com os planos. A montadora Julia Bloch opta por poucos cortes mesmo quando a obra cede a oportunidade – como quando há uma troca de tiros, que naturalmente seria montada de forma mais dinâmica e ágil. “Noite de Lobos” tem planos mais duradouros, permitindo que a imagem respire e deixe o espectador imerso na constante tensão causada pelo desesperançoso e sombrio cenário, que é criado tanto pelos acontecimentos e caráter dos personagens, quanto pelos já mencionados trabalhos de direção e fotografia.

“Noite de Lobos” é um filme corajoso por, tendo um roteiro e uma direção cientes de que há um abismo  separando uma mente sã de uma mente completamente entregue aos instintos, não forçar explicações. Não há diálogos expositivos nem explicações definitivas. Reremy Saulnier nos entrega uma obra de ambientação soturna e evocativa, capaz de nos levar ao fundo da caverna da mente humana por meio de um suspense tecnicamente eficiente e dramaticamente maduro.

nota do crítico

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