Trama de “Venom” parece uma grande desculpa para um monstro de CGI quebrar coisas

Personagens desinteressantes, tramas confusas e falta de foco prejudicam longa sobre o icônico vilão dos quadrinhos

por Matheus Fiore

Apesar de ser odiado por grande parte do público, o Venom apresentado em “Homem-Aranha 3” (2007) tem seus méritos. O vilão, que existe nos gibis desde 1984, sempre foi uma versão maléfica e turbinada do próprio Aranha, apresentando os mesmos poderes, mas servindo como nêmesis do mais popular personagem da Marvel. No malfadado filme de Sam Raimi, Venom surge como um contraponto a todos os feitos de Peter Parker. É como se o fantasma de seus erros e arrogância se materializassem num vilão que surge pela fusão do simbionte alienígena com Eddie Brock.

Percebemos que o Venom, para Raimi, era mais do que uma figura poderosa para protagonizar cenas de pancadaria. Mesmo preso a um longa-metragem problemático graças a um roteiro inchado e péssimas atuações, o personagem conseguiu ser utilizado como um símbolo dos erros do herói e, portanto, fechar um arco narrativo. Em “Venom”, porém, não há sequer uma tentativa de fazer um trabalho mais apurado em torno do personagem. Nas mãos de Ruben Fleischer (“Zumbilândia”) e com roteiro do trio composto por Scott Rosenberg, Jeff Pinkner e Kelly Marcel, “Venom” é uma obra genérica e despretensiosa, mirando em algo próximo de um “Transformers” com alienígenas misturado com uma trama que apenas reaproveita vários clichês do cinema de heróis.

O mais triste é constatar que, mesmo com pretensões muito diferentes das do vilão de Sam Raimi, o Venom de Fleischer poderia muito bem ter alguma originalidade e uma proposta convincente. É possível, por exemplo, construir com “Venom” uma relação de maldição que precisa ser superada pelo protagonista, amarrando a isso um estudo de personagem sobre um homem que é refém de seu lado mais violento e sombrio. Nada disso é trabalhado. Na verdade, nem seria obrigação do filme, mas há de se ter, pelo menos, algo mais substancial para contar em um roteiro escrito a três mãos.

O que vemos em “Venom” é um personagem totalmente horizontal, sem nenhuma nuance que faça dele alguém com personalidade ou o aprofunde. Na trama, temos o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy), que está disposto a fazer tudo para conseguir boas matérias e acaba tendo seu corpo conectado a um simbionte alienígena. A parceria entre Ed e o alien cria Venom, uma máquina de violência que, apesar de má, precisa impedir que outro simbionte da mesma espécie destrua nosso mundo.

Apesar das pretensões diferentes das do vilão de Sam Raimi, o Venom de Fleischer poderia ser mais original

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O grande problema de “Venom” é que os realizadores acreditam que o visual e o carisma do personagem, a violência e as cenas de ação são elementos suficientes para que a obra seja bem sucedida. Em alguns casos, pode até funcionar, mas em “Venom”, nenhum dos pontos citados é bem trabalhado. Para começar, Eddie Brock faz escolhas bem questionáveis no que tange sua vida profissional e pessoal, pondo em risco a carreira de terceiros sem pensar nas consequências – e aqui seu carisma já é bem prejudicado. Esse problema seria facilmente suavizado se, ao longo da trama, o roteiro fizesse uma problematização dos erros de Eddie, permitindo que a jornada do protagonista fosse um aprendizado, algo que sequer é cogitado pelo script. Ed é, então, uma vítima de seus próprios erros e, pior, alguém que parece nunca aprender com os próprios deslizes.

O visual do Venom e a violência trazida por ele são elementos muito pouco explorados por Fleischer. O monstro é mal filmado por estar sempre em movimento, o que não permite que haja sequer uma introdução que impressione o espectador pela imponência do ser de dois metros e meio de altura. Já a violência, bem… Essa fica sempre no campo da ideias. Venom promete devorar os órgãos e esquartejar seus inimigos, mas tais feitos, quando ocorrem, são sempre sugeridos. Venom passa mais tempo jogando pessoas para longe do que de fato lutando com elas, o que faz com que seus confrontos sejam desinteressantes. Não há peso, não há impacto, há apenas um boneco de computação gráfica arremessando pessoas. Quando algo mais violento de fato acontece, o público não tem acesso, ocorre fora do enquadramento, para que possamos apenas imaginar.

Já as cenas de ação também não possuem muitos pontos positivos. Fleischer e seu diretor de fotografia, Matthew Libatique (de mãe!) compõem sequências tão agitadas que tornam difícil a compreensão de o que de fato está acontecendo em tela. Quando personagens em computação gráfica saltam de um lado para o outro, com uma câmera que acompanha esses movimentos e uma montagem que opte por construir as cenas de forma retalhada, com planos curtíssimos, o resultado é a impossibilidade de compreensão de o que está diante dos nossos olhos.

O trabalho do elenco também deixa muito a desejar. Com exceção de Tom Hardy, que até mesmo pelo esforço físico demonstra estar realmente engajado no projeto, todos os intérpretes parecem estar no piloto automático. Não há nenhum investimento emocional por parte de nenhum dos atores, incluindo a talentosa Michelle Williams, que diante de uma carnificina digna de uma guerra, age como se estivesse no sofá de casa, assistindo a televisão. Potencializando o desdém da maioria do elenco, o roteiro também não tenta imprimir peso a nenhum dos acontecimentos de “Venom”. Tudo que é relevante acontece de forma brusca e apressada e nunca transforma os personagens ou muda suas visões de mundo. Se na vida real, assistir a um massacre cria traumas, em “Venom”, a impressão que temos é que a violência é algo completamente banal.

Tom Hardy e o diretor Ruben Fleischer (à direita) no set

Se na vida real um massacre cria traumas, em “Venom” a impressão é que a violência é algo completamente banal

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A quantidade de diálogos expositivos também pesa muito no roteiro de “Venom”. Os dois primeiros atos são recheados de conversas com “A” explicando para “B” o que “C” e “D” fazem ou fizeram. E o pior: essas explicações se repetem exaustivamente. O plano de um dos vilões é contado no mínimo três vezes: pelo próprio vilão, por uma cientista assistente e por Eddie Brock. Curiosamente, o plano do outro vilão – que é quem de fato antagoniza o filme – nunca é devidamente explicado. O público deverá se contentar com o básico “ele quer destruir o mundo porque… Quer”.

Com um fiapo de história e cenas de ação pouco eficientes, “Venom” acaba tendo como escape, curiosamente, o elemento que costuma ser o calcanhar de Aquiles para a maioria dos longas de herói: o humor. Mas não pense que em “Venom” há um humor apurado ou um tipo mais sofisticado de comédia. Na verdade, a obra alcança um nível de galhofa tão grande que, em certo ponto, nos resta apenas rir das piadas feitas pelo monstro alienígena. Assim como quase todos os filmes de herói da atualidade, o de Fleischer traz um humor baseado em rápidas sacadinhas encaixadas em momentos tensos. Na maioria das vezes, não funciona justamente por quebrar o ritmo de ação ou drama que está em curso. Em “Venom”, funciona justamente por não haver nenhum ritmo a ser quebrado.

A quantidade de diálogos expositivos também pesa muito em “Venom”

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Essa ausência de ritmo muito tem a ver, também, com a indefinição de tom que permeia o filme. Começando como um terror – o plano inicial, inclusive, que traz uma música tensa e um plano geral do espaço, muito lembra o que já foi feito em “Alien” e “Predador” –,”Venom” migra para um thriller investigativo, ensaia virar um drama e se lambuza com a ação à la “Transformers” no ato final. Não há, porém, nem um esforço para que cada nuance traga um frescor novo para a narrativa, nem um elo entre as variações de gênero, a não ser as piadinhas feitas pelos personagens. Como resultado, “Venom” não é um longo de muitos gêneros, e sim uma obra genérica sem foco nenhum.

É curioso que, no meio dessa bagunça, até mesmo os personagens se esqueçam de suas motivações e objetivos. O próprio simbionte, inicialmente, apresenta-se como um ser de interesses individualistas, e em certo momento afirma ter mudado de opinião sem que haja, no caminho, nenhum fato que justifique a transição. “Venom” nos apresenta personagens que, dramaticamente, estão à deriva, que saem do nada para lugar nenhum. No longa, poucos têm objetivos e nenhum aprende lições.

O filme de Fleischer não é um desastre completo, mas é imperdoável que um estúdio invista, em 2018, tanto dinheiro em um projeto desse porte, sem que antes haja uma análise de cenário. “Venom” comete erros que já eram crucificados por crítica e público em exemplares como “Mulher-Gato”, lançado em 2004. Será mesmo que, mais de uma década depois, com o lançamento de mais de trinta adaptações baseadas em HQs – pela própria Sony, pelo Marvel Studios, pela Fox e pela Warner – o estúdio e seus executivos não aprenderam que é praticamente impossível vender um filme apenas pela popularidade de sua propriedade intelectual?

O mais impressionante não é nem ver como “Venom” foi utilizado de forma pouco criativa e genérica pelos responsáveis pelo filme, mas sim como a obra conseguiu nos fazer sentir falta do Venom de “Homem-Aranha 3” – quem diria? –, que com todos os seus defeitos, pelo menos era um recurso cinematográfico utilizado para contar uma história. Já o personagem do filme de Fleischer… Bem, esse segue caminho oposto; tem sua história como adereço, uma reles desculpa para justificar um monstro de computação gráfica que salta por aí e quebra coisas.

nota do crítico

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