Mostra São Paulo: “A Favorita” usa história de bastidores políticos para criar circo de humilhações

Primeiro drama de corte do diretor grego Yorgos Lanthimos, filme sobre triângulo amoroso histórico se basta no registro da degradação da elite inglesa do século 18

por Pedro Strazza

Desde que fez a transição do cinema europeu para o norte-americano graças a sua indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “Dente Canino”, o grego Yorgos Lanthimos vem chamando cada vez mais a atenção da indústria e da crítica hollywoodiana pelo cinema “diferente” que se propõe a fazer, um elogio que o meio parece fazer de tempos em tempos para importar mão de obra estrangeira em busca de novos olhares às suas produções de sempre. E ancorado em algumas das características do cinema tradicional da Grécia e validado pelo circuito de festivais (em especial Cannes, talvez o pedigree máximo), o diretor a princípio conseguiu manter intacta esta imagem criada em torno de sua figura à partir dos independentes “O Lagosta” e “O Sacrifício do Cervo Sagrado”, cujas propostas de gênero – respectivamente a ficção-científica e o horror – jogavam em cima desta pose diferentona.

É com “A Favorita”, porém, que Lanthimos enfim alcança o establishment dentro da indústria cinematográfica norte-americana, assumindo as rédeas de uma produção financiada pela Fox Searchlight (o braço “independente” da 20th Century Fox) que estabelece todas as bases para almejar o desejado posto de “filme de arte”, bem a tempo da busca por reconhecimento na temporada de premiações. Além de ser o seu primeiro projeto em quase 20 anos que dirige sem assinar qualquer linha do roteiro, o longa é também o primeiro da carreira cineasta no qual ele entra em contato com o passado histórico, acompanhando os bastidores do poder da corte britânica do século 18 – é na Inglaterra, afinal, que Hollywood quase sempre encontra o luxo da realeza – e a disputa entre duas ladies pelo posto de “favorita” da rainha Ana (Olivia Colman), um lugar de grande influência dentro das estruturas da nobreza da época.

Yorgos Lanthimos (à direita) no set

Como todos os outros dramas de época, esta proposta a princípio oferece pontos de interesse. O roteiro de Deborah Travis e Tony McNamara não demora muito a se assimilar a uma estrutura de “A Malvada” da coroa britânica, aproveitando do clima de tensão e da mudança de posicionamento do reino no meio da Guerra da Sucessão Espanhola para conceber um jogo de desejo e ambição desempenhado pelas protagonistas. Enquanto Godolphin (James Smith) e Harley (Nicholas Hoult), os principais atores políticos na briga interna pela decisão nacional de continuar ou não lutando contra a França no conflito, são relegados a posições mais periféricas (e até mesmo estereotipadas, no caso do segundo), a trama privilegia as participações de Sarah Churchill (Rachel Weisz) e Abigail Hill (Emma Stone) e se concentra na exposição da fraqueza emocional geralmente associada à rainha, reduzida no longa a uma verdadeira marionete regida pelo sexo.

Além da própria questão do soerguimento do feminino que é intrínseca à proposta (um pouco batida) de “mulheres no comando por trás das cortinas”, este cenário pintado pelos roteiristas também não deixa de ter suas virtudes por conta da ligação entre vontades da carne e do poder que elabora. Apesar de ser uma relação já amplamente conhecida e reutilizada dentro do gênero, o “sexo político” de “A Favorita” não deixa de soar inédito por reforçar o caráter silencioso desta luta por dominação; por conta do lesbianismo envolvido, o triângulo amoroso é conhecido apenas pelas três mulheres, cuja duplicidade de suas vidas públicas e privadas só evidencia a falsidade sentimental vinda de todos os lados e por trás de todo o jogo – além de escancarar o nível de credulidade infantil da chefe de Estado, uma ideia abraçada com franqueza pela atuação de Colman.

O “sexo político” de “A Favorita” não deixa de soar inédito por reforçar o caráter silencioso desta luta por dominação

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Nas mãos de Lanthimos, porém, toda esta conotação entre público e privado logo se perde em favor de propósitos mais sujos. Habituado a narrativas movidas pelo gesto cínico e olhar frio sobre uma humanidade esvaziada de qualidades, o diretor volta a executar no filme esta visão degradante com foco na nobreza, tida aqui como uma classe selvagem a ter sua imbecilidade exposta. Como em “O Lagosta” e “O Sacrifício…”, comparações com animais não faltam, seja nas grandes angulares usadas pela fotografia de Robbie Ryan para deixar o olhar dos personagens sem vida, nas movimentações bruscas e exageradas de coadjuvantes ou no início onde o design de som em determinado momento reproduz os barulhos de animação da elite perante uma corrida de patos com… grasnares de pato.

É dentro desta narrativa de ridicularização empreendida pelo cineasta que o jogo de poder central da história tem seus pólos invertidos, e é a partir desta condição que a produção entra em um constrangedor colapso de propósitos. O que é dominação se converte em submissão aos olhos de Lanthimos, que arma o triângulo entre a rainha, Sarah e Abigail de forma a obter a melhor exploração possível de seus momentos de fraqueza e derrota ao invés dos eventuais triunfos. É um verdadeiro circo de humilhações, com as protagonistas enfileirando-se constantemente para tomar a posição de chacota, seja por meio de atos físicos (a desfiguração do rosto de Weisz, Stone sendo empurrada num barranco) ou mesmo da natureza da atuação – chega ao cúmulo do absurdo o número de vezes que o diretor filma Colman para fazer de sua personagem um bebê adulto mimado ou um animal zurrando em desespero.

O que é dominação se converte em submissão aos olhos de Lanthimos

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A princípio, esta abordagem à qual “A Favorita” mergulha sem pensar duas vezes não seria de todo um desastre caso esta degradação servisse a um fim maior que o da deslegitimação de uma classe (mesmo sendo a elite) e seu elenco tivesse consciência deste processo. O problema é que Lanthimos de fato se basta no envergonhamento, ainda mais ao dispensar qualquer noção de contexto histórico da trama – fora as menções à “crise nos campos” (que também só aparecem como ferramenta de poder), toda a situação política em torno da história é inexistente – para se concentrar na esfera íntima destes personagens, uma atitude que só reduz a produção a uma narrativa repleta de aparatos capazes de contar a trama de forma diferenciada, seja por meio de sobreposições de imagens ou planos derivados de grandes angulares movimentados em steady cam.

É claro que um exercício de banalização também nunca deixa de ser curioso em suas contradições, não só porque o filme apesar de tudo ainda busca atingir uma espécie de grande reflexão sobre o poder (como bem indica o último momento da história) como também porque o ceticismo de Lanthimos não deixa de colidir a todo o instante com os propósitos de uma produção de gênero que em teoria se nutre dos instantes de grandiosidade, sejam eles oriundos de performances, figurinos, cenários e etc. Fica difícil de testemunhar os caminhos tomados por um longa assim, porém, quando ele no fundo se vê tão afundado em sua abordagem a ponto de considerar a imagem de um homem servindo de alvo para outros atirarem frutas podres uma cena eloquente e um registro único da condição humana.

nota do crítico

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