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★ O VR, o storytelling e as possibilidades de criação artística

Confira uma entrevista exclusiva com Marcelo Sarkis, Eduardo Acquarone e Simone Kliass, três dos palestrantes do Hyper Festival 2018

Em parceria com

//Por Fabio Hofnik

Entrevistamos três participantes dos painéis do Hyper Festival 2018, único evento no Brasil sobre o mercado e a produção de conteúdo de realidade virtual e aumentada, filmes 360VR e games imersivos, que acontece dia 27 de outubro em São Paulo

Confira a entrevista com Marcelo Sarkis e Eduardo Acquarone, da TV Globo, e Simone Kliass, pesquisadora e locutora:

Qual foi a experiência VR ou AR que te transformou, te convenceu que você queria investigar mais e produzir para o formato de realidade virtual (VR)?

Marcelo: Foi o NYT Daily 360, do New York Times. A diversidade dos vídeos me encantou, de hard news a entretenimento, tudo usando 360 (e VR pra quem tinha os devices). Comprei o óculos da Samsung e comecei a investigar sobre uso de 360 em jornalismo e quais aplicações funcionavam mais ou menos. Depois disso fiz um curso de storytelling para VR em Berkeley, na Califórnia, com duas das produtoras do NYT360. A partir daí que surgiu o FANT360.

Simone: Não foi uma experiência específica. Sou colaboradora da revista Sound on Sound e o editor me enviou para uma pauta sobre áudio pra realidade virtual na Raw Audio, produtora de som em SP. Eles tinham acabado de criar um núcleo dedicado à VR e estavam trabalhando com diversas agências de publicidade em experiências de realidade virtual. Percebi ao estudar VR que existiam muitas oportunidades pra serem exploradas na parte do áudio, que ele tinha ganhado muita importância. Pra que ocorra imersão, o áudio precisa estar totalmente adequado, se não, podemos nos desconectar facilmente da experiência. Em experiências de realidade virtual temos que adequar também a interpretação da locução. Meu marido, Jason Bermingham, também pesquisador, passou a usar o termo “voz inside” ao invés de voz off quando falamos de uma locução para realidade virtual. Tenho ido a festivais como o SXSW pra estudar voz para XR, inteligência artificial… e o que deu origem a essa pesquisa foi aquela matéria da SOS Brasil.

Eduardo: Eu já trabalho com novos formatos, tanto em vídeo quanto no digital. A primeira vez que ouvi falar de uma narrativa imersiva para jornalismo foi em 2015, em uma aula com a Nonny de la Peña, pesquisadora e criadora americana e considerada uma das pioneiras na área. Confesso que levei alguns dias para entender a dimensão de tudo que ela havia falado e mostrado — até porque, sem experimentar, a realidade virtual pode parecer muito distante. A partir daí comecei a pesquisar e a tentar adaptar algumas dessas coisas para minha linha de trabalho.

Qual foi sua melhor experiência, o que te fez escolher ela?

Marcelo:  Enquanto estávamos gravando o FANT360 na África do Sul, que foi o primeiro destino da nossa viagem. Captamos um momento mágico em que encontramos uma família de mais de 10 elefantes e tinha uma câmera presa bem na frente do carro, pertinho deles… Quando voltamos pra base, baixamos a imagem e eu vi no óculos de VR foi um momento marcante. Comecei a entender o poder da ferramenta.

Simone: Falando de entretenimento gosto muito da “Life of Us” da Within. Porque podemos fazer a experiência em grupos de até 4 pessoas e experiências compartilhadas são muito envolventes, criam memórias e fortalecem os laços dos participantes Tem também o fato dessa experiência alterar a voz do usuário, o que a deixa ainda mais divertida.

Outra experiência que eu adoro é a “Wonderful You” da produtora BDH de Bristol, UK. Conheci a Wonderful You no SXSW deste ano e a partir do convite do Tieres da Quanta DGT localizamos para o português a experiência que tem a narração original da atriz Samantha Morton. Passei uma tarde em Bristol no mês passada com o diretor John Durrant, o designer James Pollock e o produtor Dan Elston e a estreia será no Hyper no dia 27/10. É uma viagem pelo útero materno onde um feto se desenvolve. A experiência está dividida em 5 capítulos, um pra cada sentido. Ela é ótima pra quem quer conhecer de perto os mistérios do desenvolvimento humano durante os 9 meses em que passamos na barriga das nossas mães, de uma forma muito delicada e poética.

Eduardo: A primeira é o Ghostbusters Dimensions, uma experiência produzida pela Void, uma das principais empresas da área. Achei incrível porque, de fato, você se diverte muito e é incrível entrar no mundo do cinema, fazer parte de uma “cena”. Mas do ponto de vista narrativo, acho que ele usa uma série de características importantes do VR: há uma ligação emocional forte, porque quase todos já viram o filme Caça-Fantasmas, e muitos, como é o meu caso, na adolescência, o que cria uma camada a mais, da nostalgia. Além disso é muito claro seu objetivo, que é exterminar os fantasminhas gosmentos que aparecem até chegar o grand-finale, quando aparece o famoso Marshmellow Man. A história já está contada, eles foram muito habilidosos em escolherem o Ghostbusters para criarem a experiência,

No jornalismo a melhor reportagem em VR que eu vi foi Greenland Melting, produzida pela Emblematic (empresa da Nonny de la Peña para a PBS americana). A sensação de estar dentro da reportagem é incrível, mas acho que ainda temos que resolver questões de narrativa. A experiência é tão incrível que é muito fácil o conteúdo passar despercebido. A equipe da Emblematic entrevistou cientistas e os colocou, como uma holografia, nas geleiras da Groenlândia, e você pode interagir com eles. Mas naquele ambiente, o que eles estão explicando — e que é importantíssimo — vira quase um ruído porque você está deslumbrado com a experiência. Isso é algo que temos que resolver.

A última experiência é em Realidade Aumentada: The Enemy, criada pelo fotógrafo Karim Ben Khelifa (com grande apoio de inúmeras bolsas e universidades americanas e europeias). A exposição pode ser vista em Realidade Virtual, mas também há um app que todos podem experimentar. Pelo app, é possível ver dois inimigos frente a frente, e ouvir as histórias. E, talvez, perceber que eles não são tão diferentes assim. Foi a primeira experiência onde percebi o potencial narrativo da Realidade Aumentada.

Como você vê o futuro do uso dos conteúdos imersivos no storytelling?

Marcelo: Acho que o próximo grande desafio do uso de 360 para storytelling é como se tornar verdadeiramente popular, como engajar audiências mais tradicionais e popularizar as maravilhas que 360/VR podem trazer para essa mágica de contar histórias. Se conseguirmos dar esse passo, acho que 360 tem um futuro longo pela frente no storytelling.

Simone: O storytelling precisa se adaptar ao conteúdo imersivo. Precisamos pensar a história sem as quatro paredes, sem o direcionamento total do espectador pelo olhar do diretor, o close, os diferentes enquadramentos… Tudo precisa ser trabalhado de outra forma. O protagonismo de quem assiste é fato. Claro que o diretor tem controle da narrativa e muitas vezes do olhar, mas tudo tem que ser mais pensado, planejado. A relação com a peça muda. Mudamos o formato, expandimos a tela. Ela está em torno do espectador.

Eduardo: Eu não penso apenas no 360. Acho, inclusive, que o 360 pode ser limitador às vezes. Prefiro pensar em todas essas ferramentas — VR, AR, holografia, 360 — combinadas, para que os criadores de conteúdo tenham um portfolio de opções bem mais amplo. Ainda há uma questão enorme sobre a viabilidade econômica e distribuição desses formatos, mas minha função como criador é pensar em novas formas de contar a história e ajudar a desenvolver modelos estáveis que façam com que isso chegue, de fato, ao público.

Marcelo Sarkis é editor e roteirista do Fantástico, na TV Globo. Responsável pelo design, texto e edição de histórias semanais, reportagens especiais e séries de alcance nacional e internacional. Coordenador e criador do projeto Fant360. MBA em gestão da Inovação na Fundação Getulio Vargas (FGV) e curso de storytelling para VR na Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Simone Kliass é pesquisadora, palestrante e locutora. Apresentadora do Hyper Brazil Festival, ela será painelista também. Duas experiências narradas por Simone farão sua estreia durante o Hyper: a localização do “Wonderful You” (projeto da BDH com a Quanta DGT) e “You Laura, The Audio Experience”, com texto de Viviane Rojas e Fabio Hofnik e produção sonora de Daniel Sasso do Lab 657.

Eduardo Acquarone é roteirista, diretor e criador de projetos digitais, o jornalista Eduardo Acquarone trabalha com inovação desde 2008, quando lançou o Globo Amazônia, projeto indicado ao Emmy Digital e que conseguiu mais de 55 milhões de protestos virtuais contra a destruição da floresta. Em 2015 estudou no Tow-Knight Center for Entrepreneurial Journalism em Nova York, onde fundou a Flying Content, uma empresa de histórias digitais. Atualmente trabalha com inovação na TV Globo e faz um doutorado em Realidade Virtual em Lisboa.

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