Roupagem representativa faz de "Podres de Ricos" uma comédia romântica moderna

Roupagem representativa faz de “Podres de Ricos” uma comédia romântica moderna

O grande trunfo do longa é sua capacidade de tornar atual um gênero já batido

por Matheus Fiore

Representatividade é uma palavra que se tornou basilar nas discussões a respeito de muitos dos grandes sucessos do cinema nos anos recentes. Em 2017, “Mulher Maravilha”, teve como plataforma para seu sucesso o fato de ser o primeiro grande blockbuster de super-heróis dirigido e estrelado por mulheres (Patty Jenkins e Gal Gadot). Já em 2018, o gênero também trouxe outro grande marco: “Pantera Negra” é o primeiro blockbuster de heróis dirigido e estrelado por negros (Ryan Coogler e Chadwick Boseman). Ambos foram sucesso absoluto de público e são bem aceitos pela crítica.

Porém, “Mulher” e “Pantera” possuem resultados cinematográficos bem distintos. Enquanto o filme de Jenkins reaproveita a fórmula do gênero e, como diferencial, apresenta apenas o protagonismo feminino, o longa de Coogler é de fato uma revolução para o cinema de heróis. “Pantera Negra” até aproveita muito da fórmula do cinema de heróis, mas pinça questões essenciais do movimento negro, como debates sobre apropriação cultural e perda de identidade, e faz deles pilares da trama. Ou seja: enquanto o primeiro é um filme um tanto quanto genérico, mas com uma roupagem inovadora, o segundo é inovador em sua essência.

Na prática, a diferença é que “Mulher Maravilha” poderia ser qualquer filme de herói que falasse, mas, em vez de ser sobre feminismo, seria  sobre temas como os da causa LGBTQ+, por exemplo, enquanto “Pantera Negra” fez de suas questões de raça uma característica essencial na narrativa. Onde entra “Podres de Ricos” nessa história? Simples: a obra é uma típica comédia romântica dos anos 2000, mas tem como diferencial uma roupagem que lida com a cultura asiática e seu choque com o mundo ocidental. A pergunta que fica, então, é se “Podres de Ricos” faz de seus temas, essenciais para o funcionamento do filme, ou se são apenas uma roupagem para uma obra típica do gênero.

Na trama, a professora Rachel Chu (Constance Wu) é convidada por seu namorado, Nick Young (Henry Golding) para viajar para Singapura para conhecer sua milionária e tradicional família chinesa. O problema é que Rachel, mesmo que sino-americana, cresceu longe do contexto cultural chinês, e a viagem acaba por expor o choque cultural existente entre uma família extremamente tradicional e uma pessoa globalizada.

No ato inicial de “Podres de Ricos” residem os códigos para compreendermos a visão do diretor e do roteiro de Kevin Kwan, Pete Chiarelli e Adele Lim. A desconstrução do preconceito que o homem branco tem diante da comunidade asiática é a abertura de “Podres de Ricos”; já a protagonista, Rachel, é apresentada justamente em uma de suas aulas, quando ensina para a turma como o preconceito e a defesa dos privilégios molda a forma de pensar da sociedade.

Apesar de sugerirem um estudo mais aprofundado sobre os temas, ambas as cenas acabam sendo momentos isolados em “Podres de Ricos”. Assim que Rachel chega à Singapura com Nick, a protagonista passa a lidar com o preconceito que a tradicional família Young tem com pessoas alheias à sua cultura. Mesmo assim, por meio de elementos visuais, a obra é muito feliz ao estabelecer a diferença de perspectiva que divide as percepções de mundo de Rachel e da família de Nick.

A obra é uma comédia romântica dos anos 2000, mas tem uma roupagem que lida com o choque da cultura asiática com o mundo ocidental

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A direção de arte, por exemplo, é um desses elementos. A grande opositora de Rachel é sua sogra, Eleanor (Michelle Yeoh, de “O Tigre e o Dragão” “Memórias de uma Gueixa”), personagem que, por boa parte da trama, utiliza figurino verde esmeralda. Aos poucos, a cor ganha significado, pois descobrimos que a aliança de casamento utilizada pela personagem é um anel de importância histórica na família e é uma jóia que tem justamente uma esmeralda. A cor, não por acaso, expande-se para o figurino de Eleanor e até para a casa da família, que tem um hall de entrada totalmente esmeraldino.

Portanto, o figurino e a direção de arte são elementos que não só evidenciam a força da cultura, como também nos mostram que a própria Eleanor precisou se curvar perante às tradições dos Young em prol de seu casamento com o pai de Nick – algo que a própria personagem chega a verbalizar e sugere que sua nora nunca será capaz de fazer. E é interessante notar como Rachel nunca adere a essa lógica visual, já que a protagonista costuma utilizar roupas de cores mais suaves, como o branco e o rosa claro.

“Podres de Ricos” é feliz ao estabelecer a diferença de perspectiva que divide o mundo de Rachel da família de Nick.

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No figurino também temos material para compreender melhor os diferentes pontos de vista das culturas antagônicas de “Podres de Ricos”. Se, por exemplo, para persongens criados numa cultura ocidental, um vestido vermelho tem um simbolismo positivo, em Singapura, na casa dos Young, a roupa é uma afronta e é também motivo de piada. É uma pena, porém, que o roteiro se contente em estabelecer todos esses conflitos, mas nunca os transforme em temas com desenvolvimento.

A primeira metade de “Podres de Ricos” é, com o perdão do trocadilho, rica em simbolismos visuais e bem-sucedida quando estabelece o abismo cultural entre Rachel e a cultura chinesa tradicional, mas o fim do segundo ato e o clímax da obra acabam cedendo aos mais básicos clichês hollywoodianos. Quase todos os conceitos identitários apresentados são abandonados por uma narrativa que subverte seu rumo para ser, no fim das contas, apenas mais uma comédia romântica sobre uma protagonista que precisa ganhar o “ok” da família de seu amado para seguir com o relacionamento.

É claro que ser clichê não é necessariamente um defeito. Todo gênero funciona por códigos, e os da comédia romântica são muito bem apresentados em “Podres de Ricos”, mas, a partir do momento em que o longa trilha um caminho que estuda as diferenças culturais, cria-se a possibilidade de ir além dos clichês e realmente debater a questão cultural que existe na trama. O problema é que, aos poucos, o roteiro tangencia as discussões, relegando-as a personagens coadjuvantes e deixando os protagonistas preocupados apenas com a aventura romântica.

Portanto, “Podres de Ricos” é uma comédia romântica divertida e representativa. Porém, há uma escolha de afunilamento temático e dramático que impede que todo o potencial seja alcançado. Em vez de fazer do choque cultural e das questões raciais um elemento fundamental para toda a narrativa, “Podres de Ricos” faz de tais questões apenas uma roupagem para ser um despretensioso drama amoroso. Mesmo que suas escolhas sejam questionáveis, “Podres de Ricos” ainda merece elogios por, pelo menos, trazer alguma novidade para um gênero tão desgastado.

nota do crítico

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