Festival do Rio: Só há espaço para o amor em “Se a Rua Beale Falasse”

Adaptação do romance de James Baldwin rejeita o ódio e aposta na candura de seus protagonistas

por Matheus Fiore

As cenas que nos apresentam aos personagens de “Se a Rua Beale Falasse” sintetizam, por meio de escolhas visuais que envolvem cores e movimentos de câmera, todos os sentimentos que Barry Jenkins (“Moonlight”) pretende despertar em sua adaptação do romance de James Baldwin. Quando conhecemos a protagonista, Clementine “Tish” Rivers (KiKi Layne), e seu amado, Alonzo “Fonny” Hunt (Stephan James) percebemos a forte conexão do casal por meio do figurino (ambos vestem azul e amarelo) e pela suavidade no deslocamento da câmera, que parece flutuar ao redor dos dois. Tish tem tudo que o Chiron de “Moonlight” não tinha: amor. Esse amor, portanto, norteia a forma como as cenas são apresentadas. “Se a Rua Beale Falasse” retrata uma personagem rodeada por carinho e compaixão, mesmo que estes sentimentos sejam constantemente testados por uma sociedade estruturalmente preconceituosa.

Esse amor que envolve Tish se faz presente também na relação da protagonista com sua família: notamos que o ambiente possui cores que conversam com o figurino tanto dos pais e da irmã de Tish, quanto com o da própria protagonista – o verde da cortina combina perfeitamente com o da blusa da personagem principal. “Se a Rua Beale Falasse”, portanto, mostra como o amor é muitas vezes aprisionado e mutilado em decorrência de defeitos da própria sociedade – evidentemente, o racismo presente na sociedade e, inevitavelmente, na força policial. Afinal, A trama tem seu ponto de partida quando Fonny é injustamente acusado de cometer um estupro.

Da esquerda para a direita, Barry Jenkins, KiKi Layne e Diego Luna no set

Além da prisão de seu amado, Tish precisa lidar com uma recém-descoberta gravidez. O filme aborda, a partir dessa premissa, duas linhas: as memórias de Tish ao lado de Fonny e pontos que desenvolvem o caso do rapaz: desde seu passado e relação com amigos do bairro, até os desdobramentos da investigação que pretende provar sua inocência.

Pelos ambientes e pessoas que cercam a protagonista, “Se a Rua Beale Falasse” é praticamente oposto a “Moonlight”. Se no filme de 2016 Chiron viveu toda sua juventude em busca de qualquer fragmento de afeto, a personagem central do novo filme de Barry Jenkins parece estar, na maior parte do tempo, em espaços onde não há nada além do amor. Chiron, de “Moonlight”, cresceu em uma família totalmente quebrada: sem pai, mãe viciada em crack e tendo um traficante como sua única figura de referência. Já Tish, de “Rua Beale”, está o tempo inteiro cercada por uma família que sequer cogita negar apoio quando descobre que a menina está grávida. Não há dúvidas, portanto, de que a adaptação do romance de James Baldwin é, acima de tudo, um filme sobre amor e afeto.

A adaptação do romance de James Baldwin é, acima de tudo, um filme sobre amor e afeto.

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Barry Jenkins faz algumas escolhas interessantes para jogar o espectador no ponto de vista de Tish durante toda a obra. Boa parte das cenas de “Se a Rua Beale Falasse” acontecem dentro de flashbacks da protagonista. Percebemos que tais flashbackssão totalmente moldados à forma como a jovem lembra das situações. Por exemplo: suas cenas com Fonny são quase todas recheadas de passagens em slow-motion, com uma câmera suave que passeia pelo ambiente envolvendo o casal, estabelecendo a candura presente no amor de Tish e Fonny. O slow-motion também se faz presente quando Tish lembra de momentos ruins, como quando seu namorado é intimidado pela polícia ou a própria protagonista sente-se objetificada no trabalho, mas em tais cenas, a narração e a trilha sonora fazem com que percebamos a tensão de tais memórias.

É interessante notar que, pelo fato do filme reservar-se a acompanhar a história através dos relatos ou memórias de Tish, isso implica na ausência de muitos acontecimentos importantes da trama. A prisão de Fonny, por exemplo, é algo que o filme não nos mostra, bem como a rotina do personagem na cadeia. Temos acesso a fragmentos isolados, como uma cena do personagem deitado em sua cama. O ódio proveniente do racismo que vitimiza Fonny é algo que existe de forma discreta, justamente por termos nosso ponto de vista influenciado pela doçura do olhar de Tish.

Por acompanhar a história através de relatos ou memórias, o filme não mostra acontecimentos importantes

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“Se a Rua Beale Falasse” ainda merece elogios por nunca tentar elevar seus personagens a pessoas além do bem e do mal. Os pais de Tish e Fonny são sujeitos extremamente carismáticos e carinhosos, mas são homens que carregam consigo as marcas de seu tempo. Violência doméstica e um flerte com a criminalidade são elementos existentes na narrativa para ajudar a retratar aquelas pessoas não como seres infalíveis, mas cidadãos normais, sujeitos a erros, dúbios, distantes de qualquer perfeição.

Intimista e afetuoso, o filme é um dos longas mais recheados de paixão da temporada. Capaz de exalar amor a cada fotograma, a cada sorriso de seu casal protagonista, e a cada promessa de companheirismo dos familiares de Tish e Fonny, é um filme que escolhe não dar espaço para o ódio, mesmo que reconheça que ele existe – afinal, ele influencia diretamente nas vidas de todos os personagens do longa. “Se a Rua Beale Falasse” pode não ser o filme político que muitos esperam, mas é a dose de amor lúdico, puro e inabalável que o mundo precisa em um tempo de tanta intolerância.

nota do crítico

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