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Festival do Rio: O mundo pelos olhos de Van Gogh em "No Portal da Eternidade"

Festival do Rio: O mundo pelos olhos de Van Gogh em “No Portal da Eternidade”

Julian Schnabel esculpe narrativa que nos coloca na mente do gênio perturbado e incompreendido

por Matheus Fiore

Retratar o mundo sob o ponto de vista de um homem com esquizofrenia e que originou uma das mais importantes revoluções artísticas dos últimos séculos é uma tarefa no mínimo desafiadora. Quando este homem é Vincent Van Gogh, artista cuja trajetória é, mesmo que bem documentada, cercada de inconsistências – sua morte, por exemplo, é um assunto discutido até hoje –, o grau de dificuldade se eleva. O pintor e cineasta Julian Schnabel, então, escolhe um filme que não se propõe nem a ser uma cinebiografia de Van Gogh, como foi “Sede de Viver”, filme de 1956 dirigido por Vincent Minnelli, nem uma homenagem à estética do holandês, como foi “Com Amor, Van Gogh”, de 2017.

“No Portal da Eternidade” é um filme criado para corrigir um erro histórico. Van Gogh foi um dos artistas mais incompreendidos da humanidade. Não vendeu sequer um quadro enquanto esteve vivo, mesmo que produzisse obras constantemente – no período em que passou em uma instituição psiquiátrica, chegou a pintar 75 obras em 80 dias. Seu estilo era desdenhado pela maioria, incluindo colegas pintores, que diziam que suas pinturas, pelo relevo originado pelo volume de tinta, mais pareciam esculturas. A proposta de Schnabel, portanto, é fazer com que o espectador compreenda os sentimentos e visões artísticas de Vincent Van Gogh.

A trama começa com uma viagem de Vincent ao sul da França. Na época retratada, o artista já tinha seu modelo estético definido, mas ainda não abraçara a paixão pela natureza e pelo sentimento de transcendência que ela nele despertava. A viagem ao sul, portanto, é o estopim para essa transformação. O filme abrange dali até os dias finais de Vincent, e faz questão de manter sua narrativa sempre influenciada pelo ponto de vista de seu protagonista.

Há um fiapo de história em “No Portal da Eternidade”. Uma trama extremamente simples e que mais parece uma desculpa para que Schnabel possa nos inserir no ponto de vista de seu protagonista do que um guia para a narrativa – o que não é, de maneira alguma, um defeito, e sim uma escolha cinematográfica que se prova muito eficiente. Não à toa, a obra tem personagens que pouco evoluem e pouco são aprofundados. É nos elementos visuais, no fato de acompanharmos à história sob o ponto de vista de Vincent e na atuação de Willem Dafoe, que está impecável, que reside a alma de “No Portal da Eternidade”.

É no acompanhamento da história sob o ponto de vista de Vincent que reside a alma do filme

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Dafoe cria em Vincent um personagem composto por inocência e fragilidade. Van Gogh é um sujeito pacífico, de fala suave e que só adota alguma postura mais enérgica quando sente-se confuso ou acuado, como quando uma multidão se aglomera ao redor do pintor e questiona sobre sua estética. É um personagem extremamente delicado, algo que Dafoe explora nos momentos de maior fragilidade ao adotar uma movimentação mais leve com os braços e cabeça, evidenciando a busca de Vincent afago quando está em seus momentos mais frágeis.

A direção e todos os demais elementos audiovisuais de “No Portal da Eternidade” seguem o olhar do protagonista do longa. Quando retrata Van Gogh pincelando a céu aberto, Schnabel aposta nas imagens da natureza e sons do vento e da grama para evidenciar como o ofício da pintura era a única forma de Vincent alcançar a paz, quase uma emancipação de sua forma física. É admirável também como a câmera flutua pelos ambientes, transitando entre close-ups, planos médios e planos abertos sem tantos cortes e sem nenhuma estabilidade – em vez de usar um tripé, Schnabel e seu diretor de fotografia, Benoît Delhomme, optam por usar a câmera nas mãos, deixando as cenas mais vivas, leves. O filme ainda é beneficiado pelo uso de câmeras subjetivas que nos colocam diretamente no ponto de vista de Vincent, permitindo compreendermos melhor a percepção de espaço que ele tem em certos momentos – o uso das lentes grande angulares, que arredondam os cantos, ajudam a passar a impressão de que o protagonista é uma figura mentalmente instável e tem uma visão de mundo diferente.

Em “No Portal da Eternidade”, Vincent Van Gogh é o rei absoluto do tempo.

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É interessante ainda que Schnabel valorize tanto seu protagonista, que chegue ao ponto de dar a ele o poder sobre o principal artifício do cinema: o manuseio do tempo. Cinema é, afinal, a arte do tempo, e em “No Portal da Eternidade”, Vincent Van Gogh é o rei absoluto do tempo. Ao ponto de, no meio de um momento de epifania, com a trilha sonora em destaque, a obra congele todos os elementos para que o protagonista faça uma rápida reflexão, apenas para, poucos segundos depois, retomar áudio e som de onde havia parado. “No Portal da Eternidade” não é um filme sobre Van Gogh, é o filme do Van Gogh. Julian Schnabel tem como proposta ser apenas um meio para que o espectador veja o mundo pelo olhar do artista.

O resultado de uma narrativa tão inclinada a servir sua figura central é uma obra que flerta com o espiritual a todo momento. A natureza, afinal, era a grande paixão de Vincent, e nela o pintor via o caminho para uma transcendência não encontrada em nenhum outro lugar. “No Portal da Eternidade” se satisfaz com um simples retrato de um sujeito que era mentalmente perturbado, mas que também estava, artisticamente, à frente do seu tempo e distante da realidade que o cercava. O grande mérito de Julian Schnabel é nos dar um gostinho desse mundo, mas nunca tentar nos fazer adentrá-lo. Porque, por mais que possamos, por meio de “No Portal da Eternidade”, entender um pouco mais da mente de um dos grandes gênios da arte, só podemos chegar até a entrada do eterno, enquanto Vincent Van Gogh já há muito ultrapassou os portões.

nota do crítico

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