Zootopia

“Zootopia” é a animação mais criativa da Disney em décadas

Investindo em um subtexto raro e complexo, o filme entrega o que tem de mais especial: a reflexão através do entretenimento

21.mar.2016

⚠ AVISO: Pode conter spoilers

Em “Zootopia – Essa Cidade É o Bicho”, bichos-preguiça são responsáveis pela burocracia, um búfalo é o chefe da força policial e uma criatura de aparência frágil, filha de agricultores, deve encarar a vida na cidade grande, longe de seu habitat natural, o campo. Desde a composição dos personagens, os paralelos com o mundo real, em forma de piadas ou comentários mais amplos, são facilmente identificáveis. Diferente de toda a recente linhagem de animações dos estúdios Walt Disney (“Frozen”, “Big Hero 6”, “Enrolados” e outros não-Pixar), no entanto, o filme decide ir além, investindo em um subtexto raro e complexo, embora envolto em um pacote familiar.

A ideia de construir um universo em que animais se comportam como humanos mais ou menos civilizados não é exatamente original. O que valoriza o trabalho de Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, os três diretores (que se juntam a outros seis profissionais nas assinaturas do roteiro), é a maneira como se articula essa constante relação com a realidade. Aqui, a utopia se aproxima mais da fantasia do que da perfeição. Assim, ainda que exista relativa harmonia entre (o que conhecemos como) predadores e presas, resiste um espaço para desarmonia em função de preconceitos e estereótipos levados a sério.

Zootopia
Zootopia

Nessa discussão, é importante entender que as metáforas articuladas pelo filme, mesmo algumas das mais simples, não possuem correspondente direto e fechado no nosso universo — são metáforas, afinal. É natural que público e crítica encarem o conteúdo de acordo com certas bases pré-estabelecidas (e é curioso, mais inevitável, que se faça algo assim com um filme que trata justamente de conclusões apressadas sobre as coisas).

Ainda assim, a possibilidade de estabelecer variadas leituras, extrapolando a superfície, enriquece a obra. Na cena em que a protagonista esclarece que apenas coelhos podem se chamar de “fofos”, por exemplo, a referência à reivindicação de termos por determinados grupos sociais minoritários surge de imediato. Em outros momentos, as questões em pauta variam (de críticas ao machismo a alertas sobre contrariar ou confirmar expectativas), mas são todas carregadas de certo progressismo, embaladas em uma mensagem de tolerância atualizada que parece mais importante do que a imposição de uma visão estreita.

Tão relevante quanto isso é o modo como “Zootopia” se comunica. A mensagem pela mensagem, não integrada a recursos próprios do meio, interessaria menos. No fim das contas, a função de absorver e conquistar é também da forma: neste caso, de uma comédia textual e de ação que evolui em direção a um suspense noir bem sólido. É o tipo de filme que os estúdios faziam o tempo todo há algumas décadas, mas que parece ter caído em desuso nos últimos tempos na busca por uma dinâmica mais direta e interativa com os espectadores em que tudo é franquia e o que não é, torna-se. A diferença é que Howard, Moore e Bush parecem dispostos a subverter várias disposições do gênero e do formato no meio do caminho.

ZOOTOPIA
“Zootopia” ganha por apostar na subversão

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A dupla de personagens principais é fundamental nesse processo. Determinada a permanecer lutando por seu espaço na polícia, a coelha Judy Hops convence a raposa Nick Wilde, um golpista profissional, a ajudá-la a solucionar uma série de desaparecimentos. Antropomorfizados, os animais usam roupas, trabalham e se organizam como uma sociedade humana, com seus equilíbrios e desequilíbrios próprios. Diante disso, surgem acenos constantes sobre as diferenças de tamanho (girafas vencendo elefantes no vôlei), força (um rinoceronte cumprimentando um coelho) e, por que não?, função social dos bichos — como em uma versão menos cínica e destrutiva do seriado “BoJack Horseman”, as gags visuais e os trocadilhos infames estão por toda parte.

Jogando com as mesmas peças que seus pares, o filme ganha por apostar na subversão. Fofinhas e donas de olhos grandes, como pelúcias digitais, as figuras em tela poderiam se confundir com as dúzias de criações pouco inspiradas da DreamWorks, mas se constroem como verdadeiros personagens pela forma como agem e se inserem naquele universo. Mesmo no que diz respeito ao modo como lida com clichês do cinema infanto-juvenil mainstream, “Zootopia” se destaca — os pais de Judy, por exemplo, não partilham dos mesmos sonhos de grandeza de, digamos, a família de Riley em “Divertida Mente”.

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Mergulhadas em referências pop, as reviravoltas do roteiro são fortes o suficiente para sustentar a trama

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Além disso, falando da versão com áudio em inglês, o trabalho de dublagem e o timing cômico surpreendem. Em certos trechos (especialmente na longa cena com Flash, a preguiça, que ilustra um dos trailers), é como se Nick tivesse o olhar de Jason Bateman, uma sensação movida tanto pela persona do ator quanto pela maneira como ele pontua cada uma de suas frases nesse trabalho. O mesmo vale para Ginnifer Goodwin, cuja voz transforma Judy em mais do que um bichinho adorável, e para as participações de J.K. Simmons (o leão/prefeito), Nate Torrence (o leopardo/recepcionista da polícia) e, principalmente, Idris Elba (o tal búfalo citado no primeiro parágrafo).

Em termos de criação de mundo, o currículo dos realizadores é bastante revelador. Envolvido e formado em projetos que vão desde “Os Simpsons” e “Futurama” até “Detona Ralph”, o trio sabe explorar mitologias ao mesmo tempo em que ergue seus traços mais particulares. Faz sentido, portanto, que “Zootopia”, a cidade, seja composta por regiões muito variadas (gelo e neve versus floresta e pântano, por exemplo), que servem de cenário para a ação de alta intensidade que toma conta da narrativa a partir da segunda metade, quando entra em ação um dos vilões mais curiosos da história recente da Disney. Mergulhadas em referências pop, as reviravoltas do roteiro e as especificidades do universo são fortes o suficiente para sustentar a trama, manter o fôlego e permitir que o filme entregue o que possui de mais especial: a possibilidade de reflexão pelo entretenimento.

Comente

  • Acho que a versão daqui conseguiu me chamar mais a atenção do que a original por causa das figuras que chamaram pra fazer as vozes e em algumas adaptações.

    Não esperava tanto, mas Monica Iozzi como a Judy e Rodrigo Lombardi como Nick Wilde me surpreenderam bastante, além, óbvio, do Ricardo Boechat (do Jornal da Band) como a onça pintada Boi Chá, que substitui o alce Peter Moosebridge na versão brasileira como âncora do jornal principal.

    Veja bem, os caras adaptaram um pedaço do filme só pra cá.

    Já nos contras, o que mais pegou foi que aparentemente fizeram o trabalho de tradução das imagens pelas coxas, então parte dele estava em inglês e parte estava em português.

    No fundo, a Disney brasileira não tá pra brincadeira.

  • Mariana Neri

    Ai quero muito ver esse filme!! Quase li a crítica de tanta ansiedade AHHAUHUA Mas vou segurar pra ver primeiro!

  • Rojedo

    Tão bom quanto foi o Big Hero. Vale a pena conferir.