Cultura 24 fev 2017

Oscar 2017: uma chance de fazer história

Um ano após o #OscarSoWhite e os protestos contra a falta de diversidade, Hollywood se reúne diante de uma oportunidade rara para sinalizar uma mudança de rumos

Oscar 2017: uma chance de fazer história
Oscar 2017

Há cerca de um ano, apresentamos aqui uma série de dados que, naquele momento, confirmavam as principais reivindicações centralizadas na hashtag #OscarSoWhite. A ausência completa de indicações para profissionais negros nas quatro categorias de atuação pelo segundo ano consecutivo, bem como a esmagadora presença branca nos demais prêmios, fez despertar uma forte campanha por diversidade. Em resposta ao movimento, apoiado por figuras importantes da indústria e dono de notável repercussão, a Academia anunciou que trabalharia para tornar seu conjunto de membros mais representativo.

Avaliar os resultados imediatos desse tipo de medida leva a sinais promissores, mas parece prematuro. Embora a premiação tenha sido um marco nas discussões sobre racismo em Hollywood, é necessário lembrar que a questão tem componentes mais profundos. O reconhecimento do talento é importante, mas os números da atual edição e eventuais recordes quebrados não podem mascarar um fato central: uma performance precisa acontecer para poder ser celebrada. Ou, parafraseando o discurso de Viola Davis ao receber o Emmy em 2015: você não pode ganhar troféus por papéis que não existem. É preciso pessoas diferentes para contar histórias diferentes.

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Assim, a lista de tarefas dos tomadores de decisão do cinema americano inclui não apenas oferecer mais e melhores oportunidades a atores que pertencem a minorias, como também inserir esses grupos em todas as etapas do processo. A quarta edição do ótimo Relatório da Diversidade em Hollywood (confira aqui), organizado pelo Centro de Estudos Afro-Americanos Ralph J. Bunche, da UCLA, lista uma série de iniciativas relacionadas à democratização do cinema e da televisão nos Estados Unidos, mas alerta para a importância de mudanças mais drásticas, sobretudo no que diz respeito às posições de comando e à mentalidade vigente. Ainda que simbólico e pequeno diante da realidade, o Oscar pode dar mais um passo em direção a isso.

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[quotedireita]Ainda que simbólico e pequeno diante da realidade, o Oscar pode dar mais um passo em direção à igualdade[/quotedireita]

Manchetes como “Bradford Young é o segundo diretor de fotografia negro indicado em 89 anos” ou “Joi McMillon é a primeira mulher negra indicada como montadora”, vistas nas últimas semanas, são encaradas com um misto de alegria pelo reconhecimento e frustração pelo atraso histórico com que ele chega. Mesmo que a dupla não saia da festa com troféus em mãos, o trabalho desempenhado em “A Chegada” e “Moonlight”, respectivamente, é digno de aplausos — “La La Land”, porém, segue favorito nas duas categorias.

De todo modo, as prováveis (e merecidas) vitórias de Mahershala Ali e Viola Davis como coadjuvantes deverão ser pontos altos na noite: ele, o principal destaque de um dos filmes mais memoráveis do ano; ela, primeira negra a alcançar três indicações na função, uma grande protagonista relegada sem razão à posição secundária. No caminho do ator, estão Dev Patel (“Lion”), um londrino de pais quenianos com origens indianas, e Jeff Bridges (“A Qualquer Custo”), um veterano amado por seus pares. Já entre a atriz e o prêmio não parece haver obstáculos, e é possível acreditar que ela venceria também se disputasse a categoria principal.

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Falando em crenças possíveis, há quem imagine que Denzel Washington vá ultrapassar Casey Affleck na corrida pela estatueta de melhor ator. O protagonista de “Manchester à Beira-Mar” tem dominado a temporada até aqui, e sua indicação pode ser a única do filme a corresponder às expectativas de sucesso. Ele foi superado pelo colega de “Um Limite Entre Nós” em apenas uma ocasião: na premiação do sindicato dos profissionais da área. O problema é que a associação e o Oscar não optam por nomes diferentes desde 2004, quando a Academia corrigiu os rumos e premiou Sean Penn  (“Sobre Meninos e Lobos”) depois de o SAG ter escolhido Johnny Depp (“Piratas do Caribe”).

Entre as atrizes principais, apenas Emma Stone participa de um indicado a melhor filme, o que sinaliza um desequilíbrio na forma como são recebidas narrativas centradas em homens e mulheres — dos cinco atores indicados, apenas um não figura também na categoria principal. Isabelle Huppert, dona de uma força incrível em “Elle”, é a única que ensaia se tornar uma ameaça à estrela do musical, mas não deve ir além disso. A indicação de Ruth Negga, cuja performance é um dos principais atrativos de “Loving”, salva um excelente filme do esquecimento. Natalie Portman, de “Jackie”, e Meryl Streep, de “Florence: Quem É Essa Mulher?”, completam a relação, que poderia ser ainda mais forte se Amy Adams tivesse sido lembrada por “A Chegada”.

No restante do tempo, haverá outras expectativas a confirmar. “La La Land” conseguirá igualar ou bater o recorde de onze troféus, juntando-se a “Ben-Hur”, “Titanic” e “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”? Caso seja superado, a Academia terá seguido o sindicato dos atores, que premiou o elenco de “Estrelas Além do Tempo”, ou ido na contramão do que se espera, novamente premiando um longa de Mel Gibson, “Até o Último Homem”?

Bradford Young e Ava Duvernay

“Zootopia” será escolhida a melhor animação, consagrando o poder de seu discurso contra o preconceito? E o cineasta iraniano Asghar Farhadi, de “O Apartamento”, será novamente premiado, mas agora impedido de receber a estatueta de melhor filme estrangeiro em função do banimento imposto por Donald Trump a cidadãos de sete países de maioria muçulmana? Ou “Toni Erdmann”, a excepcional comédia da alemã Maren Ade, seguirá a trajetória de sucesso iniciada no Festival de Cannes? Damien Chazelle terminará a festa como o diretor mais jovem já celebrado (aos 32 anos, ele é meses mais novo que Norman Taurog à época do prêmio em 1931)? Ou Barry Jenkins se tornará o primeiro negro a vencer na categoria, após apenas três indicações em quase nove décadas?

Finalmente, quem ficará com o Oscar de melhor documentário, em uma das categorias mais interessantes de anos recentes: “O.J.: Made in America”, com oito horas de duração e produção da ESPN; “A 13ª Emenda”, fruto da parceria entre Netflix e Ava DuVernay, a única diretora negra entre todos os filme dessa edição; ou “Eu Não Sou Seu Negro”, a história do racismo pelos olhos do genial James Baldwin? Só nos resta conferir tudo isso na madrugada de domingo para segunda-feira, entre os batuques de escola de samba do carnaval brasileiro e os discursos políticos enérgicos que certamente tomarão conta da cerimônia do lado dos americanos.

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Virgílio Souza

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