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Banida de Cannes, Netflix contra-ataca com ameaça de boicote de filmes importantes ao festival
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Banida de Cannes, Netflix contra-ataca com ameaça de boicote de filmes importantes ao festival

Filme inacabado de Orson Welles e novos trabalhos de Alfonso Cuarón e Paul Greengrass estão entre as produções previstas na represália de Ted Sarandos ao evento

por Pedro Strazza

A treta entre a Netflix e o festival de Cannes continua firme, forte e muito tensa. Depois de ser proibida pelo evento de inscrever filmes na disputa pela Palma de Ouro, o canal de streaming liderado por Ted Sarandos ameaçou agora retirar cinco potenciais filmes do line-up em represália, esvaziando a principal mostra cinematográfica do mundo de parte de seu imenso poder artístico.

A medida, que acontece cerca de uma semana antes do anúncio do line-up de Cannes, inclui as produções “Roma”, do oscarizado Alfonso Cuarón; “Norway”, de “Paul Greengrass”; “Hold the Dark”, de Jeremy Saulnier (diretor responsável pelo cultuado “Sala Verde”); “They’ll Love Me When I’m Dead”, documentário sobre Orson Welles comandado por Morgan Neville; e o esperado “The Other Side of the Wind”, trabalho inacabado de Welles que foi finalizado com patrocínio do estúdio.

A briga entre o serviço de streaming e o festival acontece desde o ano passado, quando a entrada dos filmes da Netflix “Okja” e “Os Meyerowitz” na disputa pela Palma dispararam um atrito do canal com as distribuidoras e cineastas franceses, que afirmavam que a política da empresa de lançar produções no mesmo dia da janela de lançamento nos cinemas estava prejudicando a indústria nacional. Na época, o diretor do festival Thierry Frémaux estabeleceu uma diretriz nova no regulamento para acalmar os ânimos, pedindo uma garantia dos estúdios de respeitar a janela de lançamento nos cinemas ao inscrever uma produção no festival, esperando os 36 meses previstos entre a estreia nas telonas e a publicação em serviços de streaming.

Frémaux, porém, mudou de ideia, e no início deste ano anunciou – junto de outras regras, como o banimento de selfies nas premieres – que os filmes da Netflix não poderiam participar da competição da Palma de Ouro: as produções ainda poderiam ganhar exibições e tapetes vermelhos no evento, mas seu envolvimento na disputa pelo prêmio principal estavam fora de questão. Isso se reflete, obviamente, na presença de filmes da empresa entre os inscritos, que foram aceitos nas considerações da curadoria mas muito provavelmente ficariam de fora das competições promovidas pelo festival.

Sarandos afirmou na época que a decisão de Frémaux tornava “menos atrativa” a ideia de levar a Netflix a Cannes, mas esta medida é completamente nova por parte do estúdio. De acordo com fontes entrevistadas pela Vanity Fair, o contra-ataque empreendido pelo canal é claramente uma forma de “armar” uma guerra com o festival, colocando os cineastas envolvidos em uma sinuca de bico: se por um lado eles desenvolveram os seus projetos para a exibição na telona, eles ao mesmo tempo estão sendo financiados pelo estúdio e tem nenhum controle sobre suas produções.

A briga entre festival e estúdio, entretanto, tem data marcada para acabar, conforme Frémaux e outros dirigentes farão o anúncio dos filmes escolhidos para integrar a programação de Cannes na próxima quinta-feira, dia 12 de abril. Quem está mais tenso nesta situação sem dúvida são os responsáveis pela finalização do filme de Welles, que depois de quarenta anos sendo terminado vê suas chances de se consagrarem no principal festival de cinema do mundo poderem se reduzir a zero.

O festival de Cannes deste ano abre as portas no dia 8 de maio, com o júri da competição presidido por Cate Blanchett e o novo trabalho de Asghar Farhadi, “Everybody Knows”, anunciado como filme de abertura. Outro que está confirmado no line-up é “Solo: A Star Wars Story”, que fará sua premiere na Croisette.

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