Abalada pelas incertezas do futuro, Fox reencontra o passo na CCXP com “X-Men: Fênix Negra”

Abalada pelas incertezas do futuro, Fox reencontra o passo na CCXP com “X-Men: Fênix Negra”

Com trecho de quinze minutos do filme e recepção de rainha a Jessica Chastain e Sophie Turner, momento dedicado ao novo capítulo da saga mutante elevou painel afetado por altos e baixos externos

por Pedro Strazza

Desde a primeira edição do evento, a 20th Century Fox mantém um histórico relativamente sólido na Comic Con Experience. Além de sempre buscar trazer em seu estande ativações que envolvam o público da feira com os filmes que divulgam (lembra o “salto da fé” de “Assassin’s Creed”?), os painéis que o estúdio realiza anualmente no auditório Cinemark buscam trazer coisas novas e recompensar a platéia que a cada ano que passa gasta mais e mais tempo na fila para ocupar um mísero lugar no espaço. Só no ano passado, por exemplo, a empresa trouxe todo tipo de convidado e recheou uma apresentação longa com atrações para todo tipo de fã de cultura pop, incluindo aí “Novos Mutantes”, “Alita: Anjo de Combate” e o derradeiro “Maze Runner”.

Mas como acontece em todo o resto do cenário, os rumos do mundo claramente afetaram a participação da empresa no evento. Desde o fim de 2017 envolvida no longo processo de aquisição de seu estúdio e propriedades pela Disney, a Fox vem passando por todo tipo de reorganização e confusão em seu calendário, o que nos últimos meses foi sentido em situações como o adiamento da estreia de “X-Men: Fênix Negra” um dia depois do lançamento do trailer e todo o imbróglio envolvendo a produção do próprio “Novos Mutantes”. Esta sensação geral de incerteza com certeza foi a responsável pelos altos e baixos da apresentação do estúdio na CCXP deste ano, que sentiu com a queda do número de estrelas, mas mesmo com estas dificuldades a empresa foi capaz de animar o público do auditório no fim desta tarde de sexta-feira – ainda mais por conta do elenco de peso chamado para falar do novo (e talvez último) capítulo da franquia mutante, sem dúvida seu principal destaque.

Um longo caminho…

Antes de chegar na “Fênix Negra”, porém, a Fox teve que lidar com uma programação um tanto esvaziada. Com apenas três produções maiores no line-up e quase duas horas de painel, o estúdio contou com todo tipo de cortina de fumaça para escapar da impressão de uma apresentação vazia, o que gerou nos melhores momentos algumas soluções criativas e em outros a mais pura demonstração de enrolação.

Assim, depois de repassar trailers já divulgados online de “Era Uma Vez Um Deadpool” e “O Menino que Queria Ser Rei” ao público – que talvez só tenha se surpreendido nesta parte ao saber que o segundo projeto, uma nova releitura da história de Rei Arthur, é dirigido por um garoto de 15 anos (no caso Louie Serkis, filho de Andy Serkis) – a Fox começou de vez o painel com “Dragon Ball Super: Broly”, o novo filme da série que continua a trama dos mangás de Akira Toriyama, introduzindo no palco os dubladores da versão nacional do projeto: Wendel BezerraCarlos Campanile e Alfredo Rollo entraram no auditório Cinemark sob chuvas de aplausos e se sentaram para discutir sobre o projeto e suas próprias carreiras no desenho animado.

Wendel Bezerra e Carlos Campanile no palco

Como bem sugere, este momento da apresentação foi regido de acordo com o clima descontraído dos convidados. Respectivamente intérpretes de Goku, Freeza e Vegeta, o trio não demorou a sair do esquema de perguntas para abraçar as brincadeiras, desde o ato de presentar o apresentador com uma “peruca” do protagonista da animação até o ato final de “juntar as esferas do dragão” que incluíam seis bolas de praia e uma de torcida que o público tinha que levar até o palco. Eles agradeceram os fãs, brincaram com os spoilers (Bezerra “revelou” que o filme termina com os créditos) e até fizeram uma dublagem ao vivo do trailer japonês (mas sem áudio) do longa, que segundo suas descrições deve voltar ao passado dos sayajins para depois se focar nas gigantescas batalhas épicas dos personagens contra Broly.

Findado esta parte da apresentação, o painel teve que lidar com o elefante na sala que era “Alita: Anjo de Combate”. Uma das grandes atrações do ano passado, a adaptação do mangá de Yukito Kishiro acabou retornando à CCXP este ano depois de ter sua estreia adiada para fevereiro de 2019 e ser um projeto cujo público é exatamente o da feira, o que gerou uma sensação de estranhamento ao evento. E sem ninguém para conduzir o retorno do longa ao auditório, a situação ficou ainda mais constrangedora, dado que rolou até um “momento remember” da passagem de Robert Rodríguez e o produtor Jon Landau do filme pela Comic Con de 2017.

Não foi só de apuro que viveu a volta de “Alita” à CCXP, porém; depois do próprio Rodríguez anunciar em vídeo que cinco sortudos do auditório ganhariam uma sessão de 30 minutos finalizados do filme, o sorteio dos convites aos presentes mostrou uma maior organização do evento para estes cenários: pelo celular e o aplicativo oficial, o apresentador rapidamente decidiu quem ganhou os prêmios da Fox.

…com uma boa recompensa

Se a mera menção das palavras “Fênix Negra” ao final da seção dedicada a “Alita” fizeram o público do auditório gritar em alegria, já dá pra imaginar o tamanho da entrada que Sophie Turner e Jessica Chastain tiveram no palco. Juntas do diretor e roteirista Simon Kinberg, as atrizes foram ovacionadas de pé pelo público para falar do novo filme da franquia mutante, que ainda que estivesse em terreno seguro na CCXP tinha consciência do papel importante a ser desempenhado no evento. Depois de dois adiamentos seguidos, refilmagens, o assombro de ser absorvido pelo Marvel Studios e um trailer que não explodiu nas redes como esperado, a Fox resolveu aproveitar a Comic Con para aquilo que ela melhor sabe fazer: reformular e moldar a imagem de produções vindouras perante o público.

Dado este cenário, o painel em si foi eletrizante. Turner, Chastain e Kinberg foram imediatos para responder os questionamentos que mais circularam pela cabeça dos fãs nas últimas semanas, de pronto anunciando que o quarto capítulo desta segunda geração da marca nos cinemas será ambientado no espaço, não terá quaisquer conexões com o Universo Cinematográfico da Marvel e será bem diferente do tão aterrador “X-Men 3: O Confronto Final” – sobre este último, Kinberg inclusive chegou a dizer que “Um dos motivos que me fez querer fazer ‘Dias de Um Futuro Esquecido’ foi para apagar ‘O Confronto Final'”. Houve também esclarecimentos sobre o papel misterioso de Chastain, cuja vilã apesar de ter a identidade mantida em segredo foi revelada como de raça alienígena no evento – e ela “chuta a bunda de todos os X-Men”, segundo a própria atriz.

Jessica Chastain e Sophie Turner no palco

O diretor também fez questão de atribuir o projeto à chancela de “Logan”, comparando a nova versão do arco dos quadrinhos da Fênix Negra com uma versão espacial do longa de James Mangold. “É um filme mais pé no chão e emocional, mas ao mesmo tempo com toda esta pegada no sobrenatural” esclareceu ele em certo momento, pouco depois declarando que ele queria “contar o máximo possível” da trama dos gibis na telona.

O enfoque maior da apresentação, entretanto, girava em torno da figura de Turner, que foi seguidas vezes elogiada pelos colegas por seu trabalho no filme e tratada pelo auditório quase como uma figura da realeza. “É um filme sobre ela estar confusa e em conflito consigo mesma” explicou ela a princípio sobre o status turbulento de sua personagem – Jean Grey – na nova continuação, um estado o qual Kinberg confirmou que a atriz mergulhou profundamente: além de fazer um grande estudo sobre esquizofrenia, o diretor afirmou no painel que Turner vivia com headphones com trilhas de vozes para manter a paranoia e conturbação ativos em sua performance.

Chastain, enquanto isso, estava ali para reiterar o viés de empoderamento feminino que o projeto carrega. “Eu quero ver mulheres chutando bundas” ela declarou a certa altura, ao relembrar de como ela começou a gostar de histórias de super-herói e para emendar com a afirmação de que o novo “X-Men” é pautado acima de tudo pelas personagens femininas.

Tudo o que foi dito pelos três convidados, de certa forma, estava presente nos quinze minutos do filme exibidos pela Fox na CCXP deste ano, no que talvez foi o primeiro grande conteúdo inédito do auditório Cinemark na edição deste ano. Embora Kinberg tenha reiterado diversas vezes que o material não estava finalizado, o material contou com praticamente o grosso dos efeitos visuais finalizados e praticamente materializou na tela as influências que o cineasta teve da popular animação dos mutantes dos anos 90: no trecho, fica claro que os mutantes vivem tempos de paz com os humanos e são populares a ponto de crianças terem brinquedos dos X-Men e o (agora recém-falecido) presidente George H.W. Bush ligar para Charles Xavier para pedir sua ajuda. O trecho é basicamente composto de uma grande missão de resgate da equipe para salvar uma tripulação de astronautas presos em um ônibus espacial destruído no espaço, uma ação causada pela misteriosa entidade Fênix que termina por se incorporar à Jean depois de uma medida drástica para salvar um último sobrevivente. Além de uma nova sequência de exibição dos poderes de Mercúrio, a sequência também apresenta uma discussão tensa entre Xavier e Mística, que discutem se o diretor da escola não estaria arriscando o time em missões cada vez mais drásticas apenas para massagear o próprio ego – a personagem de Jennifer Lawrence, aparente líder de campo dos mutantes, inclusive chega a dizer que as mulheres precisam correr para salvar tanto o dia que o nome da equipe talvez devesse ser “X-Women”.

O material levou o povo à loucura, que a cada momento de impacto e aparição disparava em aplausos. Foi um final triunfante para um painel que demorou a engrenar, mas que quando precisou crescer incorporou toda a força a ponto de tornar seus convidados em verdadeiras figuras reais, como os momentos pós-painel refletiram (veja abaixo). Se a Fox este ano emula os X-Men e faz seu canto de cisne na CCXP, a melodia da despedida foi bonita.

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