Mesmo contida, Disney enfim compreende o potencial do espetáculo da CCXP

Sem suas armas mais fortes e tradicionais, estúdio embalou sequência de painéis na Comic Con deste ano que souberam como conciliar os conteúdo exclusivos com sensações dignas de show

por Pedro Strazza

Todo ano é mais ou menos a mesma coisa: a Disney tem o estande mais vistoso da Comic Con Experience e o painel mais antecipado do auditório Cinemark. Especialmente depois da crescente de produções antecipadas pelo público e a elevação da empresa como a principal do cenário hollywoodiano atual (uma tendência que a CCXP testemunho de perto no curso de cinco anos), o estúdio e suas divisões não precisam de muito para agitar a plateia que fica horas na fila para assistir as estrelas de seus próximos filmes de perto e sabem bem disso; tanto que desde a primeira edição a Disney se limita a trazer ao espaço principal do São Paulo Expo uma leva de conteúdos emprestados de outros eventos, especialmente a San Diego Comic-Con e a D23 que tanto seduzem o interesse do público.

Nesta quinta edição da CCXP, porém, o estúdio se encontrava num beco sem saída difícil para seu tradicional modo de operação. Vinda de um ano onde o improviso reinou em sua apresentação, a empresa estava sem seus principais fornecedores de materiais para rechear seus múltiplos painéis: não só não havia um “Star Wars” para divulgar, mas a Marvel Studios pulou a última Comic-Con de San Diego e não teve uma edição da D23 em 2018.

Além disso, rolou um agravante perigoso vindo da própria feira: a fila para conseguir lugar no auditório estava fechada desde pouco mais das cinco e meia da manhã, um número que até então seria um recorde de velocidade para a Comic Con (no dia seguinte, motivado por este acontecimento, a fila para as apresentações da Warner Bros. voltaram a subir a urgência da galera e fecharam por volta das quatro e meia). Um público com este nível de dedicação para ver uma apresentação de estúdio seria bem mais difícil de agradar que um que esperou “apenas” umas duas ou três horas para entrar.

Posto isso, a boa notícia é que o estúdio este ano veio preparado para tentar fazer melhor que em outras edições do evento, reformulando seu estilo de apresentação para abraçar um formato que virou tendência na CCXP nos últimos anos: o espetáculo. Cada um a seu jeito, os três painéis promovidos pela Disney no auditório Cinemark alinharam a promoção de bons conteúdos com um interesse de manter o público interessado no que acontecia no palco, promovendo desde a farofada até momentos genuinamente bonitos. Não foi uma participação que reinventou a roda como o que viria depois, mas serviu para agradar uma plateia mais difícil, esquentar o espaço para a explosão da Sony e acima de tudo manter intacta a boa imagem da empresa no evento, uma tríplice que dado o momento já foi mais do que de bom tamanho.

Animações, live-actions e um camundongo

Como todo ano, os trabalhos da Disney no auditório na manhã de sábado começaram com uma sessão da animação de férias do estúdio seguida de um bate-papo com os criadores do filme. O longa, no caso, era “WiFi Ralph”, a sequência de “Detona Ralph” que leva os protagonistas personagens de jogos arcade para o mundo contemporâneo da internet, um tema que preencheu com naturalidade a palestra dos diretores Rich Moore e Phil Johnston que viria depois da exibição.

Acompanhados do chefe de animação (brasileiro) do filme Renato dos Anjos, a dupla responsável pelo projeto conduziu uma apresentação que fluiu com muita tranquilidade no espaço, até porque o auxílio de vídeo era constante e a imensa maioria dos nomes citados para confecção do mundo do filme eram mais do que conhecidos ao público. As informações foram várias: Moore e Johnston disseram que a noção do mundo empilhado visto no “universo da internet” veio das entrevistas que eles fizeram com pessoas que trabalham com a rede desde o início – e que afirmavam que todos os sites eram construídos baseados nas estruturas de anteriores – e entraram em detalhes sobre como cada um dos prédios vistos na aventura refletem um site maior sob uma perspectiva funcional (as vias, por outro lado, foram inspirados no visual da parte externa de um prédio localizado em Downton LA): mesmo que o interior dos prédios não aparecessem, eles criaram simulações para imaginar cada uma das dinâmicas internas de endereços grandes como o Google, o Uber e a Amazon.

Da esquerda para a direita: Renato dos Anjos, Phil Johnston e Rich Moore

As partes recebidas com maior interesse pelo público, envolveram a grande perseguição de carros e (lógico) os bastidores das cenas das princesas. Sobre esta última, o trabalho envolveu uma viagem à Anaheim e à Disneylândia para conversar com os funcionários que trabalham como as personagens no parque e entender como elas se movimentavam para criar o máximo de realismo a elas no filme (afinal, a imensa maioria ali só tinha sido vista em animações 2D); além disso, a equipe de animação comandada pelo trio buscou trazer o máximo de referências de movimento dos filmes de cada uma das princesas para reproduzi-las de uma forma que o público não estranhasse a adaptação – essas poses inclusive se tornaram numa espécie de easter egg da continuação, pois em algum momento cada uma delas repete um movimento muito clássico de suas aventuras clássicas.

Já a cena de perseguição arrancou alguns aplausos da plateia pelos nomes e o tipo de pesquisa envolvido na sua materialização. Além da corrida ser ambientada numa Los Angeles pós-apocalíptica que toma filmes como “Mad Max” e “Velozes e Furiosos” como referência, o movimento dos carros durante a sequência envolveu os animadores tomando algumas aulas de direção com os dublês de “Em Ritmo de Fuga” para entender a física por trás de cada um dos stunts – e foi mostrado um clipe com cenas destas aulas com a equipe, que incluíram o próprio dos Anjos como aluno.

Afonso Ramirez Ramos no palco

Findada a apresentação de “WiFi Ralph”, era a vez da Disney fazer uma pequena celebração dos 90 anos do Mickey colocando Afonso Ramirez Ramos, o homem responsável pela nova leva de animações do personagem, para discutir um pouco do atual processo criativo para produzir os curtas dedicados ao icônico camundongo do estúdio. Pessoa bastante animada, Ramos conduziu um painel leve e divertido que acabou sendo bem básico sobre os passos de produção de uma animação, explicando em termos simples e acessíveis a todos termos como storyboard e roteiro – foi exibido até um vídeo “lado a lado” mostrando as diferenças entre o storyboard animado e o produto final de um dos filmes.

A parte mais farofa da apresentação inteira da Disney, porém, aconteceu justamente ao final da palestra de Ramos, quando a apresentadora introduziu uma pessoa fantasiada de Mickey para que todos cantassem parabéns ao personagem. Rolou até um bolinho pra dar uma animada num público que mostrava sinais claros de cansaço e preparar pro que vinha a seguir.

O próximo segmento, no caso, era um dos mais esperados por uma parte da plateia: os live-actions. Se em outros anos o estúdio fazia com burocracia este momento de seu painel, em 2018 a seção teve de velho só o trailer de “O Rei Leão”, o que foi ótimo considerando os meses relativamente cheios de projetos do tipo antecipados pelo público.

Os conteúdos, no caso, foram dois. “O Retorno de Mary Poppins” foi o primeiro a surgir na telona, com um vídeo que misturava um trailer estendido com uma sequência musical estrelada por Lin-Manuel Miranda envolvendo uma ajuda que ele dá à protagonista e às crianças que ela cuida depois que elas se perdem no labirinto londrino. Pelas cenas mostradas, o filme parece seguir uma linha bem clara de produção espetáculo, guiando a trama de um set musical a outro de forma bastante direta – algo que a direção de Rob Marshall deve ajudar a tornar a experiência palatável a todos os públicos buscados pelo estúdio.

Aurora (à direita) canta no palco do auditório Cinemark

Pouco depois da sequência de “Mary Poppins”, “Dumbo” apareceu no telão para encerrar este primeiro ato da Disney no auditório Cinemark. Mas ainda que tenha rolado um trailer estendido do remake em live-action da animação – que além de mais detalhes da nova versão ainda traz uma visão maior do momento em que as crianças do circo brincam com o elefante voador de “soprar a peninha” – o destaque maior acabou indo para apresentação ao vivo de Aurora, cantora norueguesa que é responsável pela canção “Baby Mine” que vem embalando a divulgação e deve ser a principal peça musical do novo trabalho de Tim Burton. Dona de uma voz e uma postura muito graciosas, Aurora mergulhou o painel em uma espécie de transe coletivo durante a performance, tamanha a beleza da canção tocada apenas com um violão e uma voz de apoio além da própria intérprete.

O magnetismo de um gênio

Depois de um rápido intervalo, a Disney voltou ao auditório Cinemark para fazer o painel de “Vidro”, que contava com a participação de ninguém mais que M. Night Shyamalan, diretor do filme e do “Corpo Fechado” e “Fragmentado” que estabelecem os personagens do longa. Foi uma apresentação quase que inteira puxada pelo discurso magnético do cineasta e que serviu ao estúdio para reapresentar aos presentes todo o contexto da produção, que tem sua história sendo desenvolvida na base do mistério e das reviravoltas de Shyamalan desde 2000 – cenas dos capítulos anteriores inclusive foram exibidas no telão para “lembrar” o público desta conexão.

“É como um sonho se tornando realidade” disse o diretor a princípio sobre “Vidro”, que ele revelou na apresentação que originalmente se tratava do terceiro ato do primeiro rascunho de “Corpo Fechado”. A cena no longa em que o personagem de Bruce Willis esbarra numa senhora idosa e tinha uma visão, inclusive, era um resquício deste plano, já que a pessoa esbarrada era o vilão que depois seria interpretado por James McAvoy em “Fragmentado”; como a cena era muito boa no estranhamento, ela acabou sendo “esquecida” na montagem.

M. Night Shyamalan

Além de muitas curiosidades sobre os três projetos – incluindo uma história engraçada sobre como Samuel L. Jackson ficou anos cobrando ele pra fazer a continuação de “Corpo Fechado” e outra em que um cameraman se demitiu depois de passar horas filmando uma mesma cena no longa de 2000 – Shyamalan também sobrou em elogios a feiras como a Comic Con e como elas vem influenciando a indústria e seu trabalho. “Eu estava em uma dessas festas da San Diego Comic-Con quando esbarrei por um acaso no James McAvoy, que havia acabado de terminar sua participação no último ‘X-Men’ e portanto estava careca com o cabelo voltando a crescer. Foi ali que eu vi que ele era o ator e o visual para se fazer a sequência do filme” ele contou em determinado momento, alguns minutos depois de afirmar aos presentes que era o público que “estava mudando a maneira como nós [cineastas] produzimos”. A influência dos quadrinhos é clara na formação do diretor: “Eu gosto de pensar que nós gostamos de HQs porque elas realizam nossos sonhos” disse em outra pergunta feita pela apresentadora.

A apresentação de “Vidro” foi encerrada com um último clipe que mostra um tico da relação entre os vilões vividos por Jackson e McAvoy na história ao apresentar parte de sua fuga do hospício onde estão presos. Por ser um filme de Shyamalan não vale a pena entrar em muitos detalhes sobre o que acontece, mas vale dizer que o Mr. Glass do primeiro parece ter bastante controle sobre “a Besta” que é a personalidade mais poderosa das 24 vividas pelo segundo – vale acrescentar, o diretor confirmou no auditório que McAvoy deve viver pelo menos 20 das identidades na sequência.

“Eu fiz por vocês”

Ainda que todos os painéis apresentados pela Disney até ali tinham sido muito bons, era claro que o que interessava tanto o público do auditório Cinemark a ponto de fazê-la madrugar na fila não tinha aparecido ainda. E quando o logo e as cores da Marvel brotaram no telão e nos cubos que decoravam o espaço, a plateia veio abaixo, consciente dos convidados que apareceriam logo em seguida.

Sebastian Stan no palco

Depois de um vídeo relembrando todos os vinte filmes lançados pelo Marvel Studios até o momento, a organização introduziu o ator Sebastian Stan no palco para falar um pouco sobre os dez anos da empresa no mercado. Com uma entrada de rock star, o intérprete do Soldado Invernal nos cinemas teve um tratamento de rei, sendo aclamado com explosões de gritos e aplausos a qualquer coisa que ele dissesse. E isso valia para literalmente qualquer coisa, desde questões sobre como ele lidava com a rotina de viver um mesmo personagem por tantos anos seguidos (“É como andar de bike” ele respondeu) até uma homenagem ao recém-falecido Stan Lee que ele apresentou no espaço e foi recebida de pé pelos presentes.

A participação de Stan não foi nada comparado à recepção dada pela audiência a Brie Larson, que talvez tenha sabido lidar muito melhor com a ânsia da galera em vê-la ao vivo. Responsável pelo papel da primeira super-heroína com filme solo próprio no universo cinematográfico dos filmes do Marvel Studios, a atriz foi brincalhona quando preciso e muito sagaz na hora de fazer o discurso de empoderamento que envolve seu papel titular em “Capitã Marvel”. “Ela me ensinou a ter mais confiança em mim mesma” ela declarou a certa altura, algo que ela reiterou de forma mais emblemática quando questionada sobre como ela se sentia sobre a mensagem que a heroína iria passar para as meninas quando o longa sair: “Eu fiz para vocês”.

Brie Larson

Sobraram alguns vários momentos que eram deixas para Larson explicar um pouco da trama e dos personagens do filme, é claro, mas a atriz conseguia converter estes momentos em boas histórias. “A primeira coisa que eu pensei quando me confirmaram o papel foi ‘Eu vou virar uma atração dos parques da Disney?’; e a segunda foi ‘Será que eu conseguir ir ao banheiro de uniforme'” ela brincou quando perguntada sobre a reação ao receber o papel, ao qual ela teve quase 2 anos para construir antes das filmagens em estudo (lendo todos os quadrinhos relacionados à heroína) e fisicamente (foram nove meses de treinos pesados). Embora ela tenha contemplado o trabalho de suas duas dublês nas filmagens, ela também confirmou que grande partes dos stunts foi ela mesma quem fez.

Para encerrar o painel – e a apresentação da Disney como um todo -, Larson introduziu no telão um clipe misturado com um trailer estendido que mostra mais detalhes da cena em que a Capitã escapa da prisão da nave skrull (também conhecido como aquele momento em que ela aparece de cabeça para baixo). Descrito pela própria atriz como sua filmagem favorita e amplamente picotada para o evento, a sequência em si mostra um pouco mais da amplitude dos poderes e da irreverência da protagonista, que consegue se livrar das amarras colocadas pelos inimigos só com sua força e luta com montes de inimigos só com os punhos. Exibida duas vezes e exclusivo para o evento (ao contrário de todos os outros clipes exibidos pelo estúdio nas outras edições), o vídeo fez muita gente no auditório pirar e ficar ainda mais ansiosa pelo filme que é o próximo episódio da grande saga da Marvel.

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