Cinemas europeus criticam Oscar por premiar “Roma” e “desmerecer” circuito exibidor

Vitória do filme da Netflix rebaixaria premiação ao nível do Emmy ao recompensar “produções televisivas”, declaram presidentes de organizações do mercado distribuidor

por Pedro Strazza

Aconteceu no último domingo (24) mais uma cerimônia do Oscar, e enquanto a galera segue arrancando os cabelos com a consagração de “Green Book: O Guia” no prêmio de Melhor Filme, os responsáveis pelo circuito exibidor da Europa ficou bastante irritado com as múltiplas vitórias de “Roma”, que saiu da premiação com as estatuetas de Direção, Filme Estrangeiro e Fotografia.

A reclamação, claro, tem a ver com o fato do longa – uma produção da Netflix – não ter feito uma passagem “tradicional” pelo circuito, tendo sido lançado comercialmente apenas nos Estados Unidos e duas semanas antes do debute no streaming – o longa depois faria diversas “passagens rápidas” por cinemas ao redor do mundo, mas somente após a confirmação das nomeações à premiação da Academia. “Nós consideramos que dar três estatuetas para ‘Roma’ uma desvalorização do Oscar” declarou o presidente da Confederação Internacional de Cinema de Arte (CICAE) Detlef Rossmann ao The Hollywood Reporter, que acrescenta dizendo que, por conta do filme de Alfonso Cuarón não ter estado “visível” na maioria das salas ao redor do mundo, o Oscar se tornou outra versão do Emmy que honra “produções televisivas”.

A CICAE não só não foi a única a se incomodar com a vasta presença do serviço de streaming na premiação, como também foi uma das várias organizações que celebraram o fato dos votantes da Academia terem preferido “Green Book” para a principal estatueta da noite.

“O Oscar se provou correto na defesa da janela de lançamento dos cinemas. A vitória de ‘Green Book’ indiretamente reafirma o poder dos halls de cinemas” afirma ao jornal Francesco Rutelli, presidente da ANICA que é a associação nacional de produtores e distribuidores da Itália. Já o presidente da organização de exibidores alemães AG Kino, Christian Brauer, declarou ao THR que a Netflix apenas se interessa pelos números de sua empresa: “A Netflix obviamente não se importa com o filme ‘Roma’, eles queriam usar o Oscar como uma forma de promover sua marca e tentar forçar sua estratégia de evitar a janela do circuito dentro da indústria”.

A rixa destas empresas com a Netflix não é nova e já se alonga publicamente há dois anos, quando o caso serviço de streaming com o Festival de Cannes começou. Presidente da AFCAE (Associação Francesa de Cinemas de Arte), uma das organizações que pressionou o festival a proibir a entrada de produções da plataforma na seção competitiva, Francois Ayme também saudou a derrota de “Roma” e chegou a categorizar o projeto como “não ‘totalmente’ um filme porque ele não teve um lançamento nos cinemas”.

O curioso nisso tudo é que mesmo sendo contra a vitória de “Roma” todos estes executivos não faltam em elogios ao longa enquanto arte, inclusive chegando a afirmar que ele “poderia ter sido um grande sucesso de bilheteria” e que o serviço “poderia ter se beneficiado disso”. O CEO da britânica Vue International Tim Richards declara: “A Netflix não deveria subestimar o valor e o impacto de um grande lançamento nos cinemas para o conteúdo que possui, e nos estamos esperançosos que eles estarão abertos para discutir como alcançar uma audiência maior com exibidores no futuro”.

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