SXSW 2019: Como a CIA sistematizou (e burocratizou) o creative thinking para resolver seus problemas

Agentes da organização federal foram ao evento para mostrar como a CIA lida com problemas urgentes do dia a dia através da criatividade burocrática

por Guga Mafra

Aqui no SXSW o que mais acontece são mudanças de planos. Às vezes a sessão que você quer ver está lotada. Às vezes fica do outro lado da cidade e você não vai conseguir chegar. E às vezes  ela só é chatíssima mesmo e você tem que levantar e ir fazer outra coisa.

Esta última aconteceu comigo quando eu estava assistindo o festival de obviedades “Diários do CEO de Austin: Então você foi comprado. E agora?”. Eu precisei levantar e sair rápido para qualquer outro lugar antes que eu caísse no sono na frente das 17 pessoas que também caíram nessa roubada comigo.

Andando pelos corredores do hotel Hilton, eu vi uma enorme fila se formando. Isso rola às vezes no SXSW. Uma apresentação “viraliza” e todo mundo vai lá ver. Eu ia perguntar para alguém na fila do que se tratava, mas no meio do caminho, um espírito aventureiro – auxiliado pelo meu espírito anti-social que não queria falar com estranhos – me deu a ideia de simplesmente ir pro fim da fila, entrar no painel e descobrir do que se tratava lá dentro.

E aí aconteceu que eu acabei de ver uma das palestras mais legais nestes últimos cinco anos de festival. Dois funcionários públicos, Jacob Eastham e Nyssa Straatveit, com slides que parecem saídos do manual dos escoteiros mirins, ensinando a galera como resolver problemas usando o raciocínio criativo (o termo é a minha tradução para Creative Thinking).

Os dois são funcionários da CIA e têm o cargo de instrutores de raciocínio criativo. Eles contam que em 2004, depois do 11 de setembro, a agência recebeu a ordem de transformar a criatividade em algo rotineiro e até burocrático para melhorar a capacidade da agência de achar soluções e resolver problemas.

No PPT dos escoteiros mirins eles apresentam um problema, que eles vão usando ao longo da conversa: Alguns agentes precisam cruzar um rio para obter uma bomba que está do outro lado. Os inimigos estão chegando perto e eles não têm muito tempo. Eles têm apenas um barril, duas cordas e alguns palitos de fósforo.

“A gente pensa como um lagarto. O pensamento lógico só diz três coisas: Ficar parado, ficar e lutar ou fugir. O raciocínio criativo é o pensamento analítico: explorar outras opções além daquelas diretamente associadas com o próximo movimento lógico a fazer” eles explicaram de um jeito muito mais legal, mas bem menos resumido.

E aí, em cima do exemplo do rio a ser cruzado e também contando alguns casos da vida real, eles apresentaram uma série de recursos, processos e exercícios que eles usam para resolver problemas no dia-a-dia. Eu vou listar alguns aqui, mas eles prometeram que vão soltar o PPT completo no Twitter em algum momento, então você pode seguir a agência lá e ver o material completo em @cia.

Aqui os meus highlights:

Como abordar o problema

Ao invés da pergunta direta – como cruzar o rio? – Fazer a pergunta de uma forma mais ampla: Quais seriam todas as formas de se cruzar o rio?

Desenhar o problema

Agentes usam o exercício de desenhar o problema (geralmente de forma abstrata) sem usar palavras. Libertar o pensamento do apoio verbal ajuda a visualizar a situação de outras formas e chegar a solução. Eles mostraram esse desenho bem legal aqui e falaram que o desenho representa como uma agente vê a sua rede de informantes e como ela acha que deveria ser (é no mínimo bonito!).


Belíssima foto tirada rapidão com celular na sala com excesso de luz amarela

Outra abordagem do desenho de problemas: imaginar que o problema é um filme – como seria o cartaz dele? Isso ajuda a visualizar qual é o problema principal, como explicar ele rapidamente para várias pessoas.

Uso de metáforas

Tentar explicar o cenário ou o problema usando outras situações. Um exemplo verdadeiro: Se o terrorismo fosse um problema de saúde pública: Qual seria a estratégia para evitar pânico? Como imunizar a população?

Outra abordagem é colocar a situação fora do contexto. Eles tem uma série de perguntas bobas que eles fazem a si próprios:

1 – Uma atividade que eu faço regularmente é…

2 – Uma das minhas cenas favoritas de um filme é…

3 – No meu tempo livro, um dos meus passatempos é…

E aí você tenta relacionar as respostas com o problema. O exemplo que o instrutor Jacob deu foi que ele gosta de ver reality shows. E aí ele fala: “num reality show os competidores sempre falam que não estão lá pra fazer amigos. E se os caras precisando cruzar o rio dissessem isso?”

É pra ligação ser assim, bem aleatória mesmo, pra tirar a pessoa do caminho do raciocínio lógico que leva às idéias óbvias.

Eles terminaram a apresentação homenageando o lendário agente Tony Mendez, que foi interpretado pelo Ben Affleck no filme “Argo” (assiste o filme que é bem legal! Não vou explicar aqui). Eles falam que a ideia pra estratégia que eles usaram lá foi bem alinhada como o raciocínio criativo, porque geralmente os disfarces são feitos pra ser monótonos, pra não chamar atenção. E no caso explicado no filme, eles foram pro lado contrário: criar uma história tão absurda que ninguém desconfiaria dela.

Tem muito mais, mas eu vou deixar um pouco pra você ver no PPT que eles vão postar e não estragar a surpresa. Mas vou dizer que foi proveitoso e divertido, a ponto de todo mundo (alguns em pé) aguentar até o fim 90 minutos de apresentação, numa sala tão lotada que o ar condicionado não tava dando conta.

Pra mim ainda teve a pequena recompensa de ver confirmadas algumas das minhas crenças pessoais ali. Primeiro porque eu fui parar lá num momento de extremo raciocínio criativo. Ao invés de procurar no app outro painel, deixei a fila me levar. Segundo porque eu sempre falo em palestras do que eu chamo de “momento MacGyver” – o exercício de resolver problemas NA HORA com o que você tem a mão.

O que, aliás, a gente aprende também nas páginas do manual dos Escoteiros Mirins.

> Confira a cobertura completa do B9 na SXSW 2019

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