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Atritos, Zuckerberg e hambúrguer: O que levou os fundadores do Instagram a deixarem a própria empresa

Questões de comando e destino do aplicativo envolvendo microgerência do CEO do Facebook foram as verdadeiras grandes responsáveis pela saída de Kevin Systrom e Mike Krieger

por Pedro Strazza

Faz mais de seis meses que os fundadores do Instagram, Mike Krieger e Kevin Systrom, anunciaram publicamente que estavam deixando a própria empresa para buscar “novos desafios”. Se já na época os rumores apontavam que a decisão havia sido tomada em vista de um conflito administrativo bastante pesado entre os criadores e o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, uma nova reportagem da Wired sobre o tumultuado último ano da plataforma-mãe confirma que a situação estava de fato insustentável entre as partes, devido em parte ao crescimento inesperado do aplicativo.

De acordo com a revista, o boom de popularidade do Instagram após sua compra gerou um clima de forte ressentimento com a empresa entre os principais executivos do Facebook, cuja antipatia era nutrida pela visão de que o app estaria “roubando a atenção” da rede social principal. O problema maior, porém, foi mesmo a atenção maior que a plataforma começou a receber de Zuckerberg – e sua dificuldade em coordenar o crescimento do aplicativo junto de Systrom e Krieger.

Os atritos começaram na época em que o CEO do Facebook estava reorganizando pela primeira vez a equipe executiva do site e os dois criadores do Instagram pediram que Adam Mosseri fosse escolhido para chefiar a divisão do app, mas se intensificou à partir do momento que Zuckerberg tomou crédito sobre o sucesso da plataforma em uma reunião com acionistas no meio de 2018, decidindo reforçar as ligações das duas redes para potencializar o público de ambas. Além de pedir para que o seu então chefe de crescimento Javier Olivan fizesse uma lista de todos os elementos que permitiam o Instagram ganhar público pelo Facebook, ele também retirou estas mesmas ligações alegando a Systrom que estava preservando “a saúde do aplicativo” do Face – uma medida que levou Systrom a mandar um memorando aos seus funcionários informando da decisão.

A gota d’água, porém, veio depois que Systrom tirou a licença paternidade e Zuckerberg começou a fazer testes com diversas funções dentro do aplicativo, incluindo uma opção de localização e a adesão do botão de três barras horizontais para acessar o menu na plataforma. Conhecido internamente como “botão hambúrguer” (porque ele parece com a refeição), a ferramenta de menu era vista por Systrom e Krieger como algo a se manter distante das estruturas do Instagram e, segundo uma das fontes da Wired, soou como um golpe “muito pessoal” aos dois fundadores – além de uma forma muito definitiva de mostrar que o Instagram, até então distante das questões de coleta de dados e viralização de outras redes sociais, logo seria englobado pelas mesmas.

Daí em diante a história é mais ou menos a que conhecemos. Suspeitando das intenções de Zuckerberg em infernizar seu comando até que eles decidissem sair, Krieger e Systrom decidiram abandonar a própria empresa sem passar por maiores sofrimentos, logo após o último voltar de sua licença paternidade. A informação vazou para o New York Times logo depois deles fazerem o pronunciamento à equipe, e aí o Facebook foi obrigado a criar um comunicado às pressas para justificar a decisão da dupla.

A história como um todo confirma algumas das tendências mais preocupantes em torno da administração do Facebook neste último ano, incluindo a ineficácia da microgerência de Zuckerberg e os problemas de sua alta necessidade de controle sobre tudo e todos. Isso, claro, sem contar todos os problemas de disponibilização e coleta de dados que levaram a companhia a passar por um gigantesco escrutínio público (incluindo meios governamentais) desde meados do ano passado com o caso Cambridge Analytica.

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