China censura campanha da Leica sobre desafios enfrentados por fotógrafos

Governo considera que vídeo, criado pela agência brasileira F/Nazca Saatchi & Saatchi, dramatiza protestos feitos na Praça da Paz Celestial, em 1989

por Soraia Alves

Nesta semana, a Leica divulgou um belo e sensível vídeo como homenagem aos fotógrafos que se arriscam para garantir a cobertura de fatos e eventos que constroem a história mundial. Mas, o governo chinês não aprovou o material e censurou o vídeo “The Haunted” na plataforma Weibo.

O que teria motivado a censura chinesa seria uma dramatização dos protestos feitos da Praça da Paz Celestial, em 1989. No vídeo, vemos imagens de um fotojornalista resistindo ao interrogatório da polícia chinesa e mantendo-se no quarto de hotel para conseguir tirar a icônica foto de um manifestante solitário que está na frente dos tanques de polícia, bloqueando seu caminho.

Suas cenas são intercaladas com clipes de outras situações de risco enfrentadas por fotógrafos em zonas de guerras e conflitos. No final do filme, a mensagem é: “Este filme é dedicado àqueles que emprestam seus olhos para nos fazer ver”.

A imagem conhecida como Tank Man tornou-se uma das mais simbólicas na história, principalmente como apelo á democracia no país. Ninguém sabe o que aconteceu com aquele homem da foto, mesmo que muitas suspeitas afirmem que ele acabou sendo morto.

Antes da censura do vídeo, o material já recebia muitos comentários críticos feitos por chineses, que consideraram as imagens um insulto ao país. Alguns usuários, inclusive, convidaram a Leica para “sair da China”.

Segundo o South China Morning Post, um dos jornais mais conceituados da China, um porta-voz da Leica afirmou que o anúncio foi criado pela agência brasileira F/Nazca Saatchi & Saatchi, e que não a marca não tem responsabilidade direta pelo material: “A Leica Camera AG deve, portanto, distanciar-se do conteúdo mostrado no vídeo e lamenta qualquer mal-entendido ou conclusões falsas que possam ter sido tiradas”, disse o porta-voz em email ao jornal.

Não deixa de ser decepcionante esse posicionamento da empresa diante de um vídeo que expressa justamente a defesa da liberdade de maneira tão forte. Não é novidade que muitas companhias enfrentam críticas e boicotes na China por inúmeras razões apontadas pelo governo do país, mas não defender uma mensagem pró-democracia, mote do filme, não parece ser a homenagem que os fotógrafos merecem.

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