Petra Costa removeu armas de foto histórica em “Democracia em Vertigem” e avisou ninguém

Registro da Chacina da Lapa foi editado digitalmente pela produção para desfazer manipulação da polícia militar sobre o caso, mas esta informação não está presente em nenhum ponto do filme

por Pedro Strazza

Uma reportagem lançada hoje (30) pela revista Piauí divulgou ao público um detalhe do documentário “Democracia em Vertigem” que passou batido na época do lançamento do filme no catálogo da Netflix: uma das fotografias usadas pela diretora Petra Costa para recontar o processo histórico e político do país foi manipulada digitalmente para apagar a presença de duas armas.

O registro, no caso, faz parte do arquivo de fotos do Instituto de Criminalística de São Paulo e é datada do dia 27 de dezembro de 1976 que é o mesmo dia da Chacina da Lapa, evento que resultou na execução de dois dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) por forças militares-policiais do Segundo Exército no bairro da Lapa. Embora a foto mostre a presença de uma carabina Winchester e um revólver Taurus, quando ela surge no filme – na altura do sexto minuto – estes dois elementos não se encontram presentes.

Reprodução da foto presente no Instituto de Criminalística de São Paulo
Reprodução da foto, com as armas digitalmente apagadas, em “Democracia em Vertigem”

Procurada pelo veículo sobre a questão, Costa declarou que a foto foi editada para desfazer uma manipulação que a polícia militar praticou na época sobre as vítimas da chacina, no caso o jornalista Pedro Pomar (que a cineasta declara no longa ter sido mentor de seus pais) e do sindicalista Ângelo Arroyo. “Há um debate significativo sobre a veracidade das armas nesta cena, com muitos comentários.” escreveu Costa à Piauí; “E até a própria Comissão da Verdade trouxe evidências para as alegações de que a polícia plantou as armas após a morte de Pedro, e por isso optei por remover esse elemento e homenagear a Pedro com uma imagem mais próxima à provável ‘verdade’.”.

No e-mail, Costa também afirma que se inspirou no trabalho de Werner Herzog e Joshua Oppenheimer sobre a “busca pela verdade extática de uma história” para realizar o ato: “Neste caso, afirmo que a imagem da morte de Pedro foi marcada por essas armas colocadas ao redor do seu corpo após sua morte. E senti uma oportunidade para corrigir um erro percebido por muitos.”.

A posição da diretora é tão embasada quanto parece sobre as circunstâncias que cercam o assassinato de Pomar e Arroyo, incluindo aí um relatório da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos que indica ainda que os corpos foram rearranjados pelos militares para legitimar os atos. O problema é que esta informação da edição não está presente em nenhum ponto do documentário, seja no momento da inserção da foto ou mesmo nos créditos finais onde a produção indica em qual arquivo a foto se encontra atualmente.

A edição digital da fotografia era desconhecida até mesmo entre parte da equipe de pós-produção do filme, incluindo aí Eduardo Escorel que trabalhou quatro meses no projeto como consultor de montagem. À Piauí, Escorel afirma que só tomou conhecimento da remoção dos elementos na época do lançamento, e à revista critica a decisão de não divulgar ao público a informação: “Mesmo quando o documentário trabalha com elementos ficcionais, de recriações, e mesmo neste caso, o espectador precisa estar advertido sobre o que está vendo. Adulterar uma imagem qualquer e fazer essa imagem passar por algo que ela não é, acho um procedimento equivocado” declara o montador.

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