Brechas na política do Airbnb abrem espaço para uso criminoso dos lugares alugados

Professor da Bournemouth University destaca como lapsos na política do plataforma dão margem para práticas ilegais como trabalho escravo e até tráfico humano em residenciais alugadas

por Soraia Alves

Em um artigo publicado no The Conversation, o professor Michael O’Regan, da Bournemouth University, destaca como algumas brechas na política do Airbnb dão margem para que pessoas façam uso criminoso dos ambientes alugados. Entre as práticas ilegais citadas no artigo estão trabalho escravo e até tráfico humano.

Crimes realizados em hospedagens são problemas reais há algum tempo. Hotéis, motéis, albergues e pousadas já policiam situações de abuso e exploração em parceria com organizações como a Rede Mundial de Turismo em Proteção à Criança e a Parceria Internacional de Turismo. Frequentemente, as organizações do setor de hospedagens também realizam campanhas de conscientização sobre o assunto, além de manterem parcerias com organizações policiais e anti-tráfico.

O professor afirma que existem muitos relatos de casos de tráfico de drogas e “bordéis pop-up” que acabam sendo realizados em acomodações alugadas através de diferentes plataformas online e, já que o Airbnb atualmente possui 7 milhões de ofertas em mais de 100 mil cidades, a plataforma não escapa de ser usada por criminosos.

Analisando a política da plataforma, Michael encontrou lapsos que podem dar margem para esse mau uso do serviço de hospedagem, especialmente em relação à transparência e responsabilidade de anfitriões e hóspedes. Segundo as regras da plataforma, os hosts são responsáveis ​​por atender aos requisitos legais de seus países – como pagamento de impostos, instalação de monitores de incêndio, entre outras coisas mais técnicas.

Na prática, isso significa que outras questões, como discriminação, não são proibidas. De fato, o Airbnb nos Estados Unidos é imune a processos de discriminação devido a seus termos de uso.

As autoridades locais, regionais e nacionais geralmente carecem de vontade ou recursos para combater ou fazer cumprir as regulamentações existentes ou inovar novas leis para acompanhar os últimos desenvolvimentos.

A posição do Airbnb é que “não tem controle sobre a conduta dos anfitriões e se isenta de toda responsabilidade”, de acordo com comunicado publicado no artigo. Os hosts, assim, são responsáveis ​​por cumprir apenas leis de seus próprios países. Mas, como sabemos, leis podem ser ignoradas a qualquer momento.

O ex-chefe global de confiança e gerenciamento de riscos do Airbnb, Nick Shapiro, explicou que a empresa aplica a análise de riscos vasculhando fotos na plataforma, para verificar se há sinais de exploração. Mas ainda não está claro como os hóspedes que não estão em listas de “procurados pela polícia” podem ser identificados como perigosos.

Vale ressaltar, ainda, que essa análise de risco é realizada apenas nos EUA e, em geral, os anfitriões do Airbnb não sabem como identificar que um possível hóspede vai fazer da sua locação uma casa de prostituição, por exemplo.

O pesquisador também aponta que as práticas de contratação no ecossistema do Airbnb podem resultar em exploração. Especialmente porque muitas empresas de administração de propriedades costumam contratar mulheres negras e imigrantes para limpar as casas. Com frequência, a remuneração oferecida a essas mulheres é baixa e fere os direitos trabalhistas.

Em 2019, o Airbnb ingressou em uma força-tarefa do Conselho Mundial de Viagens e Turismo sobre tráfico. No entanto, a plataforma não tem investido em campanhas globais sobre o tema ou num aumento da conscientização entre anfitriões e hóspedes sobre a questão.

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