"O Caso Richard Jewell" expõe falência moral e sistêmica da sociedade norte-americana

“O Caso Richard Jewell” expõe falência moral e sistêmica da sociedade norte-americana

Filme adapta história de segurança que encontrou uma bomba durante os Jogos Olímpicos de Atlanta de olho nos entornos de um sistema de abusos

por Matheus Fiore

Além de um astro de alguns dos filmes mais importantes do cinema estadunidense, Clint Eastwood é um observador e um narrador da história dos Estados Unidos e de seus personagens. A já tão falada trilogia informal do heroísmo americano deixa isso claro, com o trio formado pelo fantástico “Sniper Americano”, o interessante “Sully: O Herói do Rio Hudson” e o falho, mas audacioso “15h17: Trem Para Paris” levando à arte três histórias de figuras da trajetória recente do país.

Em “A Mula”, porém, o diretor deixou de lado seu estudo do heroísmo americano para fazer uma obra que enquanto tratava da própria trajetória profissional e pessoal do cineasta – de forma que evidencia como essas duas vidas se cruzam e se atrapalham – também falava sobre o cinema estadunidense e os conflitos geracionais existentes entre sua figura (Clint, vale lembrar, já é quase um nonagenário) e o público de hoje.

Em seu novo filme, “O Caso Richard Jewell”, o diretor retoma seu estudo de figuras icônicas, mas dessa vez parte delas para falar sobre seus entornos, nuances e, principalmente, sua humanidade. O filme reconta a história do segurança que nos anos 90 identificou durante os Jogos Olímpicos uma bomba no Centennial Park, em Atlanta, e conseguiu minimizar o estrago do atentado terrorista executado por Eric Rudolph. O filme segue o curso dos eventos: Jewell foi considerado o principal suspeito pelas autoridades e passou a ser perseguido pelo FBI, a imprensa e, por consequência, a sociedade.

Clint Eastwood (à direita) conversa com Paul Walter Hauser no set

Eastwood tem se notabilizado nos últimos tempos por filmes mais diretos e dramaticamente objetivos. Se em clássicos como “Honkytonk Man” o cineasta utilizava de uma metanarrativa para comentar o faroeste e metáforas visuais para se aprofundar no psicológico de seus personagens, em “Richard Jewell” a ideia é fazer uma obra que em certos momentos soa até documental, principalmente pelo apego do diretor a fatos específicos.

Quando mostra Richard Jewell em programas jornalísticos televisivos, Eastwood utiliza tanto a imagem do personagem real, falecido em 2007, quanto do personagem fictício, interpretado com excelência por Paul Walter Hauser (que já havia roubado a cena como coadjuvante de luxo em “Eu, Tonya”). A ideia é não só reafirmar a realidade por trás da mentira, mas também manter em Jewell a imagem de homem comum. Mesmo que indivíduos de grandes feitos (ainda que alguns possam ser moralmente questionáveis, como em “Sniper Americano”), os heróis escolhidos por Clint para protagonizar seus filmes são figuras de origens ordinárias na sociedade estadunidense.

A ideia é fazer uma obra que em certos momentos soa até documental, principalmente pelo apego do diretor a fatos específicos

compartilhe

Hauser constrói um Jewell tímido e introvertido, que não apenas tem certa dificuldade de se comunicar ou impor, mas também de reconhecer seu lugar na história que protagoniza, algo visível quando seu advogado, Watson Bryant (Sam Rockwell), pontua que ele deveria parar de idolatrar figuras da força policial simplesmente por serem agentes do governo. Com essa atuação quase minimalista de seu principal ator, “Richard Jewell” acaba por contrastar sua figura principal com praticamente todos os outros personagens do elenco. O agente do FBI Tom Shaw (Jon Hamm) e a jornalista Kathy Scruggs (Olivia Wilde), por exemplo, são figuras muito mais caricatas, retratadas com atuações mais próximas de estereótipos.

Essa estereotipação acaba por ser um recurso essencial na narrativa de “O Caso Richard Jewell”: afinal, tanto agente quanto jornalista são de certa forma os grandes vilões do filme. É Scruggs que vaza a informação de que Jewell é o principal suspeito da investigação do governo e é Shaw que persegue o segurança por toda a trama. O que Eastwood propõe com os dois, porém, não é uma crítica direta às figuras, mas ao mecanismo jornalístico e policial estadunidense, evidenciando o espetáculo midiático criado não a partir de valores ou fatos e sim de impulsos pessoais – no caso, o ódio e a ganância. O diretor, portanto, acaba por apontar uma certa falência nesse sistema, que não só beneficia essas figuras de motivações torpes como também prejudica cidadãos bem intencionados como o próprio Jewell, o que mantém girando a engrenagem do ódio dessa sociedade tão adepta a extremos.

Hauser constrói um Jewell que não apenas tem certa dificuldade de se comunicar, mas também de reconhecer seu lugar na história

compartilhe

Como bem escreve o crítico Wallace Andrioli em seu texto sobre o filme, Eastwood vem se firmando como um cronista dos valores da sociedade norte-americana. Do alto de seus 89 anos, ele tece estudos sobre os elementos que movem a sociedade de seu país e como eles fazem a população reagir aos seus mitos. E estes mitos são constantemente desconstruídos ou reafirmados ao longo da filmografia do diretor – o próprio “Sniper Americano”, por exemplo, reitera a humanidade de Chris Kyle sempre que pontua suas vulnerabilidades em combate e até mesmo sua fragilidade física, que acaba resultando em sua trágica morte. O citado estilo mais objetivo acaba por fortalecer esses estudos, já que ele torna-se cada vez mais um cineasta de discursos claros e de filmes cuja decupagem aborda os temas de forma direta, rejeitando a complexidade dramática em prol de uma estética limpa – o que por sua vez faz com que a complexidade esteja justamente na moral e nos indivíduos.

“O Caso Richard Jewell” acaba ainda potencializado e privilegiado pelo fato de Eastwood aproximar o espectador muito mais do olhar de Bryant e de Bobi Jewell (a mãe do protagonista, vivida com carinho por Kathy Bates) do que do restante do elenco. São as figuras que mais conhecem as fragilidades de Richard, os indivíduos que conhecem o sujeito que apenas sonha em trabalhar para servir e proteger em seus momentos mais humanos. Apesar da complexidade moral da obra, fica cristalina a ideia do diretor de que, em um mundo tão problemático em seu sistema e valores, figuras inocentes e generosas como Richard são engolidas e magoadas pelo entorno. O protagonista pode até ter sido inocentado após meses de sofrimento, mas as marcas do espetáculo criado ao seu redor ficam.

E Eastwood de novo é direto e objetivo ao nos mostrar isso com uma tampa de um Tupperware de Bobi Jewell marcada em definitivo pela caneta pilot do FBI. Mesmo que a mãe do herói se esforce para remover a mancha, a exposição e o desgaste aos quais a família Jewell foi exposta não pode ser apagado. Pelo menos ainda há o cinema para se fazer justiça àqueles feridos pelos problemas morais da instituições.

Esta crítica é parte da cobertura do B9 no Festival do Rio 2019. Leia mais textos sobre o evento aqui.

nota do crítico

Compartilhe:
icone de linkCopiar link