Em “15h17: Trem para Paris”, Clint Eastwood recria ato heroico com os verdadeiros protagonistas da história

Em “15h17: Trem para Paris”, Clint Eastwood recria ato heroico com os verdadeiros protagonistas da história

Os próprios heróis que impediram ataque terrorista em 2015 estrelam novo filme do diretor veterano

por Virgílio Souza

⚠ AVISO: Contém spoilers

Nos trabalhos mais recentes de uma carreira de quase seis décadas, Clint Eastwood tem se interessado especialmente pelos aspectos que definem os novos heróis dos Estados Unidos. Embora tenham no centro sujeitos radicalmente diferentes e, por isso, sigam caminhos também distintos, filmes como “Sniper Americano” e “Sully – O Herói do Rio Hudson” colocam em foco figuras ao mesmo tempo celebradas e questionadas no país — respectivamente, um soldado recordista de execuções à distância na Guerra do Iraque e um piloto que assume riscos extremos para salvar centenas de vidas em Nova York. Em “15h17: Trem para Paris”, o diretor mantém uma linha semelhante, partindo de um acontecimento real para narrar a história de homens comuns e observar atentamente as decisões tomadas por eles em circunstâncias extraordinárias.

O material de origem é promissor. Em 21 de agosto de 2015, um grupo de norte-americanos viajava em alta velocidade com destino à capital francesa quando um terrorista fortemente armado iniciou um ataque a poucos vagões de onde eles estavam. Os jovens reagiram prontamente e conseguiram impedir uma tragédia de grandes proporções, não apenas imobilizando o agressor como salvando a vida de um passageiro ferido no pescoço. No longa que retrata seus atos de heroísmo, porém, a ação sobre trilhos é tratada como a conclusão de uma trajetória mais ampla, que tem início anos antes.

Eastwood e Skarlatos no set

Inegavelmente, o maior destaque de “15h17” é o fato de que os protagonistas são interpretados pelos próprios rapazes envolvidos no incidente. Spencer Stone, Alek Skarlatos e Anthony Sadler, amigos desde os tempos de colégio, se juntam a outros sobreviventes (que também não são atores) para formar o elenco principal na reencenação. A decisão é uma das mais inusitadas da carreira de Eastwood, e falaremos sobre os resultados desse experimento mais adiante. De todo modo, antes que o trio tenha sua habilidade na frente das câmeras colocada à prova, o diretor opta por retornar à infância dos personagens para investigar as origens de tamanha bravura — e as respostas encontradas ali são um tanto reveladoras.

A realidade é que não parece haver razões diretas para que os garotos se tornem heróis. Na escola pública em que estudam, Spencer (William Jennings) e Alek (Bryce Gheisar) são impopulares, vítimas de bullying e enfrentam dificuldades para concluir tarefas, o que leva uma professora a sugerir que eles talvez sofram de transtorno de déficit de atenção. Punidos por indisciplina, eles conhecem Anthony (Paul-Mikél Williams) na sala do diretor do colégio e passam a se reunir fora dos períodos de aula para brincadeiras que simulam combates de guerra. Assim como a religiosidade, questão a que o filme também faz referência, o militarismo é um componente indissociável da juventude de seguidas gerações de americanos.

Em casa, um deles é chamado de decepção pela mãe; o outro se muda de estado para morar com o pai. O roteiro da estreante Dorothy Blyskal busca justamente ressaltar que esses são garotos comuns, de feitos até então não mais que medíocres, e por isso faz questão de evidenciar seus problemas familiares e suas várias frustrações até a vida adulta. Imediatamente antes da viagem pela Europa que resulta nos acontecimentos no trem, Alek se sente decepcionado porque seu turno no Oriente Médio nem se compara ao legado do avô, veterano da Segunda Guerra Mundial (“Ninguém liga para o Afeganistão agora que o inimigo é o Estado Islâmico”, ele diz em uma conversa por Skype). Enquanto isso, Spencer é rejeitado pelas forças armadas e Anthony se esforça para pagar as contas nos EUA.

Assim como a religiosidade, o militarismo é um componente indissociável da juventude de seguidas gerações de americanos

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Durante a primeira hora de projeção, Eastwood se limita a mostrar flashes dos eventos de 2015. O pouco que vemos é suficiente para nos deixar ansiosos por esse momento decisivo, sobretudo porque o texto traça alguns paralelos interessantes entre passagens aparentemente banais das vidas dos rapazes e suas reações extraordinárias durante o ataque. A certa altura, por exemplo, o filme corta do comando que faz Spencer entrar em ação no trem para a fala de um professor, que questiona se ele, ainda garoto, seria capaz de “fazer a coisa certa na hora certa”, como o presidente Roosevelt após Pearl Harbor. Ele permanece em silêncio e sua resposta chega anos depois, na forma de um ato heroico.

O problema é que esse esquema do roteiro se esgota rapidamente. Os saltos no tempo logo se tornam mecânicos e, sendo possível antecipar tais conexões a cada nova cena, o longa perde em imprevisibilidade. Quando vemos o protagonista falhar em um procedimento de primeiros socorros, por exemplo, já sabemos que uma situação bastante parecida ocorrerá mais adiante. Uma vez que a estrutura fica clara, o desenrolar dos fatos se mostra cada vez mais engessado — e então a total falta de experiência do elenco cobra seu preço.

Os saltos no tempo logo se tornam mecânicos e, sendo possível antecipar tais conexões, o longa perde em imprevisibilidade

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Se o trio foi capaz de agir com base em instintos no trem, por que não conseguiria fazer o mesmo diante das lentes? Essa parece ser a ideia que guia Eastwood depois que deixamos a infância dos protagonistas e passamos a acompanhá-los, já adultos, em viagem pela Europa. O diretor segue os amigos de ponto turístico em ponto turístico, flerte em flerte e selfie em selfie, apostando na banalidade do contexto para dar espontaneidade a suas atuações. O resultado, no entanto, é o oposto da intenção: Stone, Skarlatos e Sadler nunca rompem a barreira entre realidade e ficção, fazendo com que mesmo as falas mais simples soem como (mal) ensaiadas.

Essa falsa naturalidade acaba sabotando a proposta do diretor de analisar a formação desses novos heróis circunstanciais. Se “Sniper Americano” e “Sully” eram filmes metódicos, até repetitivos, que aproveitavam cada detalhe das performances de Bradley Cooper e Tom Hanks, explorando a angústia em seus rostos, “15h17” se transforma em uma coleção de cenas aborrecidas e redundantes e que sofre para avançar sem ter nada novo a dizer.
No fim das contas, a sequência de ação no trem se mostra realmente forte, reproduzindo o calor do momento e capturando o desespero de cada golpe dado contra o terrorista. Não há dúvidas de que ter os verdadeiros protagonistas da história em cena dá maior impacto a esse trecho do longa: a presença deles e a mescla de imagens de arquivo e encenação na sequência final reforçam a ideia de que um gesto salvador pode partir de qualquer um.

Mas essa é uma percepção que a premissa já indicava e que os próprios noticiários da época já afirmavam. Assim, pouco importa que o desfecho seja potente quando ele parece menos um novo desdobramento da trama e mais uma breve recompensa pela paciência do espectador para superar os arrastados setenta e tantos minutos anteriores.

nota do crítico

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