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“Rede pirata” de streamings brinca com dilema atual do excesso de conteúdo disponível

All The Streams busca tornar evidente os problemas da fragmentação de canais e multiplicação do que se assistir na era do streaming

por Pedro Strazza

O advento do streaming pode ter vindo para solucionar o velho problema de “falta do que ver” e disponibilizar conteúdo suficiente para ser assistido quando e onde o espectador bem quiser, mas sua libertação também trouxe uma nova dificuldade ao público: o excesso de coisa e canais para se assistir.

Parece algo bobo – especialmente se considerar as grandes dificuldades passadas nas últimas décadas para se facilitar o acesso a filmes e séries – mas a verdade é que quase todo mundo já passou por este apuro. Com tantos serviços lançados ou prestes a chegarem ao mercado, não apenas multiplicou-se o número de produções sendo disponibilizadas ao espectador (ou usuário, para ficar no termo da moda) como perdeu-se a unidade até então vigente do meio onde se podia consumir estes conteúdos.

Escolher algo para se assistir tornou-se um processo de escolha complexo: há muito para se ver e também muitos canais para se acessar no intuito de ver alguma coisa, e a quantidade de decisões a serem feitas é exaustiva por natureza a qualquer um que decidiu fazer isso antes de tudo para… relaxar. Talvez fosse mais fácil o sistema antigo, quando a programação da TV era quem definia o que seria assistido naquela ocasião.

Esta constatação levou a MSCHF, empresa especializada em ações virais, a lançar na rede um novo stream pirata cujo propósito é justamente de devolver ao público esta casualidade. Intitulado All The Streams, o site tem a aparência de um televisor antigo e permite que o usuário alterne entre seis canais distintos – Hulu, Disney+, Netflix, HBO Now, Amazon Prime Video e Showtime – que transmitem conteúdos presentes nestas plataformas em caráter aleatório. Assim, se você selecionar por exemplo o Disney+, você vai cair em algum filme já na metade como “Monstros S.A.” (incluindo aqui no Brasil, onde a plataforma não está disponível); se a escolha for o Hulu, é possível se deparar com um episódio de “The Office” em andamento, e por aí vai.

Embora a MSCHF confirme que ela esteja pagando as assinaturas de todos os streamings, é evidente que o site seja pirata pelas questões de transmissão imprópria de produções com direitos autorais. A meta do All the Streams não é lucrar, porém, mas tornar evidente um problema decorrente desta questão de excesso: a pirataria vence nestes momentos onde o meio se encontra desordenado, e essa métrica vale para o streaming.

“Quando a mídia se torna inacessível, a pirataria triunfa novamente, do limite de uma hora para música pop da BBC dos anos 60 até a tirania do MP3 da loja do iTunes nos anos 2000” escreve o diretor criativo da MSCHF Kevin Wiesner ao The Verge, ao qual também comenta que o All The Streams vem “em resposta à fragmentação” do que ele define como “paradigma do jardim de muralhas” dos serviços online de streaming, onde se precisa pagar uma mensalidade a infinitas empresas para se ter acesso a tudo que se quer.

É um alarde com fundo de razão. Além dos preços do mercado virem subindo de tempos em tempos, uma pesquisa no ano passado mostra que a prática de compartilhar senhas de contas se tornou comum entre o público, até como forma de baratear o custo e permitir que todos aproveitem os conteúdos exibidos nestas plataformas.

O experimento está chamando bastante atenção, vale acrescentar. Na ocasião da publicação desta nota, o contador do All The Streams já registrava mais de 260 mil espectadores.

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