Em “Histórias da Minha Área”, Djonga traz crônicas que ressaltam violência nas periferias do Brasil

Rapper mantém características de seu "rap resistência" em disco lançado com exclusividade no YouTube

por Soraia Alves

Contrariando o atual padrão de lançamentos musicais que são disponibilizados de uma só vez em todas as plataformas de streaming, Djonga liberou o seu quarto disco, “Histórias da Minha Área”, apenas no YouTube, de forma gratuita, na última sexta-feira (13). Só hoje (16) é que o álbum chegou às plataformas como Spotify e Deezer. A jogada deu certo e, em meio a atual crise mundial do coronavírus, o rapper conseguiu entrar para os trending topics do Twitter como um dos assuntos mais comentados no Brasil na sexta-feira – superando inclusive as especulações sobre o presidente Jair Bolsonaro estar ou não com o COVID-19.

Um dos motivos para o “boom” de comentários sobre o novo álbum de Djonga foi a emblemática capa do trabalho, já divulgada anteriormente e cuja criação nasceu da parceria entre Alvinho Caverna, da Caverna Studios, e o fotógrafo Daniel Assis, do 176 Estúdio. A imagem traz o rapper e mais quatro amigos duplicados em situações que podem ser entendidas como antes e depois (vivos e baleados).

Retratando basicamente a violência contra a população negra nas periferias brasileiras, o conceito visual ainda lembra a estética da capa de “To Pimp a Butterfly”, de Kendrick Lamar.

As 10 faixas de “Histórias da Minha Área” mantém a principal característica do rapper mineiro, que sempre trabalha com o “Rap raiz” de batidas e arranjos mais simples, optando por influências bem sutis de outros gêneros. Dessa vez, porém, há um pouco mais de ousadia em faixas como “Mania” (feita em parceria com MC Don Juan) e “Oto Patamá”. As variações de flow “inauguradas” em seu trabalho anterior, “Ladrão”, estão de volta, dosando a crueza das rimas na medida do possível.

Ao cantar sobre sua realidade, Djonga apresenta crônicas que nos fazem entender que “a sua área” é mais que um lugar físico, é uma situação social, a própria representação das periferias com jovens excluídos que sofrem com a violência diária.

A hipocrisia de jovens ricos da zona sul é estampada em “Hoje Não”, enquanto “Procuro Alguém” surge como a canção mais despretensiosa (e paternal) do trabalho, embora o rapper pondere sobre seu próprio machismo agora que tem uma filha de poucos meses.

Com produção de Coyote Beatz (exceto pela última faixa, produzida por Renan Samam), “Histórias da Minha Área” é um retrato de um Brasil elitista que prega meritocracia, marginaliza a favela, e é tão egoísta quanto incapaz de promover qualquer mudança positiva para quem tem menos.

Em meio a influências que vão de 2Pac a J. Cole, Djonga nos mostra que só cabe a cada um ser o protagonista de sua própria história, como lembra novamente a faixa “Oto Patamá”. Com sorte, é possível virar “história da sua área”, como ele mesmo fez.

nota do crítico

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