Os 10 melhores álbuns nacionais de 2019

Os 10 melhores álbuns nacionais de 2019

Resistência é o tema que marca grande parte dos trabalhos nacionais deste ano (e não poderia ser diferente)

por Soraia Alves

Que ano turbulento para a cultura brasileira em geral! Começamos 2019 dando adeus ao Ministério da Cultura e de lá pra cá não foram poucas as polêmicas e decisões questionáveis do Governo Federal, especialmente em relação ao setor audiovisual com o congelamento de recursos e a paralisação de muitos projetos.

Vale dizer ainda que nunca se falou (e temeu) tanto a volta da censura sobre as produções culturais. E isso não é exagero, como bem pode dizer Arnaldo Antunes, que teve o clipe da música “O Real Resiste” retirado da programação do canal TV Brasil.

Se fazer arte no Brasil nunca foi fácil, fazer arte em um país governado por Bolsonaro é pior ainda. Com tudo isso, não chega a ser surpresa que diversos trabalhos musicais lançados neste ano trazem uma reflexão sobre o atual cenário sócio-político-cultural do país.

Apesar de serem trabalhos muito distintos entre si, os discos que formam o nosso Top 10 de melhores álbuns nacionais de 2019 têm algo em comum: a ideia de resistência, seja esta emocional ou física. Não à toa, Emicida resgatou precisamente os versos de Belchior que representam essa resistência e que tanto nos acompanharam em 2019: “Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro, ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”.

10º. Tássia Reis – “Próspera”

Tássia Reis já abre este novo trabalho com a deliciosa “Amora”, uma canção calcada na fusão de samba e Hip Hop, e que nos deixa a sensação de que este pode ser o trabalho mais rebuscado da cantora até agora. E é, mesmo que em alguns momentos os sintetizadores de voz deixem a impressão que poderiam ter sido menos utilizados. No fim, nada atrapalha quando você tem pérolas como “Dollar Euro”, “Preta D+” e “Myriam”.

9º. Djonga – “Ladrão”

Em seu terceiro disco, Djonga fala muito sobre não se perder no meio do caminho – e isso pode significar muitas coisas. Para tanto, o rapper mineiro baseia sua reflexão na busca pelas raízes e reforça as críticas ácidas aos preconceitos existentes no Brasil, especialmente o social e o racial. Tudo isso enquanto nos apresenta variações de flow que não eram típicas de seus vocais, sempre mais diretos e até gritados. A mudança, no entanto, não mexeu com a base do Rap “limpo” e “raiz” de Djonga, de batidas e arranjos simples – tal qual as influências que ele pretende não perder.

8º. BaianaSystem – “O Futuro Não Demora”

Usando da fórmula gingada que lhe já é característica, a BaianaSystem conseguiu entregar um disco que te faz pensar com as letras inteligentes das canções enquanto ainda balança o corpo levado pela guitarra swingada e os arranjos de percussão sempre magistrais. Mas há momentos surpreendentes como “Sonar”, com participação de Curumin e Edgar e que mostra uma outra face da banda – uma mais contida e melódica, digamos.

É deste álbum também que saem alguns dos melhores hit da banda até hoje, caso de “Bola de Cristal” e “Sulamericano”, a segunda sendo fruto de uma parceria deliciosa com Manu Chao e de uma forte reflexão:

“Nas veias abertas da América Latina
Tem fogo cruzado queimando nas esquinas
Um golpe de estado ao som da carabina, um fuzil
Se a justiça é cega, a gente pega quem fugiu”.

7º. Terno Rei – “Violeta”

O indie não morreu, e “Violeta” pode provar isso. Tratando de temas dos relacionamentos modernos, o álbum da banda Terno Rei resgata uma sonoridade bem conhecida dos fãs de bandas indie dos anos 2000 e 2010, usando uma gama de influências Lo-fi, Surf Pop e Indie Rock. O resultado é delicado e choroso, com aquele quê desgostoso do “indie raiz”. Entre sintetizadores e guitarras, destaque para a música de abertura do disco “Yoko” e para a bela harmonia de vocais de “Medo”.

6º. Céu – “Apká”

Não se engane com a doçura de Céu em “Apká”. Em meio a tantas camadas sonoras, a cantora fala mais sobre emoções flutuantes e a importância da responsabilidade emocional que de um amorzinho fofo. Assim como seu disco anterior “Tropix” (2016), o álbum de 2019 é bem conceitual e nem por isso é um trabalho difícil ou despido de “hits óbvios”.

É impossível não cair no balanço de “Forçar o Verão”, que resgata um pop oitentista nos moldes de Marina Lima. Aliás, vale acrescentar que “Apká” é uma obra tão vintage quanto moderna.

5º. Boogarins – “Sombrou Dúvida”

Boogarins é daquelas bandas que não tem um disco ruim na carreira – nem sequer um meia boca – e este quarto álbum da banda é mais um exemplo dessa qualidade absurda. Mantendo a característica principal de Rock Psicodélico, em “Sombrou Dúvida” continuam as experimentações dosadas, como na ótima faixa “Sombra ou Dúvida”, dotada de compassos lentos e pausas não silenciosas echeias de ruídos. Não deixe de prestar atenção em cada detalhe da genial “Dislexia ou Transe”, que abre com o típico som de viola caipira antes de adentrar em camadas de sintentizadores e vocais.

4º. China – “Manual de Sobrevivência para Dias Mortos”

Não há meias palavras no sexto álbum do cantor China. É um disco político do começo ao fim, seja pelas feridas sociais que toca ou o pedido claro de “O mínimo que a gente pode cobrar do Estado é segurança” – frase que inclusive termina a primeira música do álbum, “Vivo?”. Embora a base toda do trabalho seja o Manguebeat, China vai buscar inspirações até no Punk Rock, a exemplo de “Fascismo Tupinambá”. Para quem não entende (ou não quer entender) recados e referências em tantos trabalhos de protesto criados no país nos últimos anos, o artista deixa um recado bem claro e direto.

3º. Elza Soares – “Planeta Fome”

Elza Soares começa este álbum bradando “Eu não vou sucumbir!”, e não há quem duvide disso. A faixa, criada em parceria com BaianaSystem e Virginia Rodrigues, é apenas a primeira de uma sucessão de músicas que abordam temas como resistência, luta contra o racismo, desigualdade social presente em cada esquina e a polaridade brasileira que, na verdade, não é novidade: em “Brasis”, Elza mostra como na verdade sempre existiram dois Brasis, o dos ricos e dos pobres, e a polarização de hoje é só um reflexo disso. Mesmo este sendo seu 34º álbum, Elza consegue nos entregar momentos novos como em “Blá, Blá, Blá”, que tem a contribuição de BNegão e Pedro Loureiro.

Ainda que siga o estilo de “A mulher do Fim do Mundo” e “Deus É Mulher”, “Planeta Fome” não deixa de ser um dos discos mais politizados da cantora até hoje. Necessário!

2º. Black Alien – “Abaixo de Zero: Hello Hell”

Que retorno, Black Alien! Desde o último álbum, “Babylon By Gus – Vol. II: No Príncipio Era O Verbo” lançado em 2015, Gustavo de Almeida Ribeiro – mais conhecido como Black Alien – não viveu um mar de rosas em sua vida pessoal, e “Abaixo de Zero: Hello Hell” fala exatamente sobre como é, agora, viver sóbrio, sem álcool e cocaína, mesmo que isso seja contado ora usando metáforas, ora falando da forma mais clara possível.

Embora a temática seja pesada – em especial por ser sobre como é para um ex-viciado em drogas ter que encarar a vida como ela é – Black Alien faz isso através de uma trilha incrivelmente delicada, usando bases de piano e até inspirações do jazz. O resultado é o disco de Rap mais melancólico do ano, e é um prazer ouvir faixas como “Área 51”, “Carta Pra Amy”, “Au Revoir” e “Aniversário de Sobriedade”.

1º. Emicida – “AmarElo”

Quando Emicida lançou o single “AmarElo”, em parceria com Majur e Pabllo Vittar e usando o sample de “Sujeito de Sorte” de Belchior, um certo sentimento de “resumo de 2019” acompanhou a canção. Falando basicamente sobre saúde mental, a música funciona como uma jornada de apoio e fortalecimento, que aborda sobre aquilo que nos puxa pra baixo, mas também mostra como sair dessa.

“AmarElo”, o disco, é inteiramente essa jornada de resgate da alegria de viver, seja prestando atenção nas pequenas ações que tornam o dia a dia mais suportável (“Pequenas Alegrias da Vida Adulta”) ou contando com o apoio de quem está do nosso lado (“Quem Tem Um Amigo Tem Tudo” – ótima música em parceria com Zeca Pagodinho e a Tokyo Ska Paradise Orchestra).

Além das críticas sociais que são características de seus trabalhos, Emicida também foi primoroso em toda a produção do disco, que é de Rap, mas também traz pop, MBP, Soul, samba, jazz e até poesias declamadas pelo pastor Henrique Vieira e pela atriz Fernanda Montenegro. No contexto todo, o álbum exemplifica demais a resistência pedida e tão estimulada neste ano. 2019 foi “AmarElo”!

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