“Space Force” é paródia política comportada do criador de “The Office”

Falta acidez e sobram boas intenções nos primeiros episódios da sitcom criada por Steve Carell e Greg Daniels, que imagina a nova divisão espacial dos EUA

por Pedro Strazza

A combinação era irresistível demais. Steve Carell e o produtor Greg Daniels, dois dos nomes mais alardeados na concepção do remake estadunidense de “The Office”, estavam retomando a parceria criativa para uma série de comédia sobre a então recém-criada divisão espacial do exército dos EUA, a “Space Force” do presidente Donald Trump. Com a contínua renovação do sucesso da antiga sitcom e a manutenção do desgaste e criticismo sobre a gestão atual chefe do executivo norte-americano, essa mistura na época do anúncio – lá no início de 2019 – parecia mesmo apontar a produção para um único cenário de sátira, no deboche das instituições públicas e o desgraçamento perante os escândalos do governo federal do país – ainda mais agora, quando o mundo se encontra literalmente entre quatro paredes, preso num cenário de horror coletivo com a pandemia do coronavírus.

Quem resolver começar a assistir “Space Force” neste próximo dia 29 de maio à espera de uma sátira política incisiva deve se decepcionar, porém. Ao contrário de “Parks and Recreation”, a outra série política que Daniels ajudou a criar, a nova comédia da Netflix é bem menos ancorada na realidade imediata do público quanto se acredita, mesmo quando o tema é tão político quanto possível. Caricaturas de nomes relevantes do atual cenário em Washington são minguantes (salvo uma representação pouco discreta da congressista Alexandria Ocasio-Cortez), enquanto Trump mal é citado por nome no curso do programa, reduzido à abreviação “POTUS” – assim como a primeira-dama Melania Trump, tornada “FLOTUS” pelos oficiais. Há também frustração a quem resolver prestigiar a produção na expectativa de presenciar o nascimento de um “novo The Office”: a dinâmica do humor, aqui, é menos ditada por uma questão de vergonha-alheia que o remake situado na Pensilvânia.

Este ajuste expectativas se faz importante à série porque, embora se passe como mais uma das superproduções da Netflix (muito pelo elenco, liderado por Carell e John Malkovich, mas também pelo visível alto orçamento) e tenha uma origem “nobre” aos olhos do público (graças à própria ligação emocional com “The Office”), “Space Force” a princípio carrega motivações modestas e pertencentes a qualquer sitcom em início de carreira. Pelo menos em seus primeiros seis episódios (aos quais o B9 teve acesso antes do lançamento oficial da primeira temporada), o seriado demonstra uma preocupação evidente em encontrar seus personagens e dramas dentro da história que conta ao invés de efetivamente partir para as cabeças nos temas ao seu redor, uma constatação que pode soar bastante frustrante dado o nível da aposta do público e do serviço de streaming no programa.

É um clima de “arroz e feijão” da comédia televisiva norte-americana que se percebe bastante entre os episódios e na forma como eles lidam de diferentes formas com o elenco de personagens, em especial o general Mark R. Naird de Carell. Por mais que o ator mantenha um padrão na forma como encarna o oficial, escolhido para liderar a divisão das forças armadas estadunidenses para conquistar o espaço e “colocar coturno na Lua”, é visível como cada capítulo busca tirar à sua maneira o humor do protagonista, seja por um viés físico (toda a história no habitar lunar) ou transformando-o numa versão militarizada do Michael Scott de “The Office” – o segundo episódio envolve uma missão de resgate com um macaco que parece mesmo saída das situações absurdas do escritório da Dundler Miffin. São várias pequenas apostas que não saem de um ponto confortável, com os histrionismos do personagem retornando a uma posição inicial no fim de cada passagem.

A própria comparação da personalidade de Mark com a de Michael é outra inevitável dentro do campo de busca por similaridades das produções de Daniels, e como outras “aproximações” se mostra tão frágil quanto. Embora ambos os personagens carreguem um mesmo desejo por normalidade através da família, o general já possui uma no início da série, inclusive com os embates com a filha Erin (Diana Silver) servindo de mote para alguns episódios específicos.

Mas a principal relação a ser explorada em “Space Force” parece ser mesmo entre os personagens de Carell e Malkovich, que aqui vive o oficial de ciências Adrian Mallory e divide a maior parte dos dilemas maiores de cada capítulo. O chamariz maior das brigas e amizade entre os dois é onde a série brinca mais com o teor político explícito, até porque os dois representam “lados” do atual cenário absurdista dos Estados Unidos e do mundo ao qual Daniels puxa as atenções da produção. É um grande conflito entre a postura racional do conhecimento humano com a insistência animalesca incorporada pela hierarquia militar, com Mark constantemente atropelando as soluções científicas de Adrian para impor uma resolução de lógica rasa (para não dizer burra) e quase sempre desastrosa. O seriado nem sempre trata essa dinâmica como validação imediata do raciocínio do cientista, entretanto, e é aí que “Space Force” começa a mostrar seu valor.

A série é um conflito entre a postura racional do conhecimento humano com a insistência animalesca militar

compartilhe

Este “equilíbrio desequilibrado” de forças no caso segue um padrão nos projetos tocados ou criados por Daniels e vem para fomentar o humor, sem dúvida, mas sua aplicação aqui se aproxima bastante do modo de operação que o executivo desenvolveu para “Upload”, sua outra série de comédia para o streaming que também foi lançada este ano. Por mais que os projetos sejam diferentes em sua proposta e essência (a produção da Amazon demonstra um interesse maior pelo humor negro e o drama, por exemplo), ambos projetam suas histórias e temas em direção ao futuro e o peso das decisões tomadas agora em relação aos Estados Unidos e – por que não? – o mundo. Só este posicionamento quebra qualquer identificação de “Space Force” e “Upload” com os trabalhos mais celebrados do showrunner, até porque “The Office” e “Parks and Recreation” em grande parte de sua duração foram pautados por uma reflexão dos hábitos presentes – a primeira sobre as transformações do trabalho no começo do século XXI, a última pelo olhar mais generoso e crente de um futuro das políticas públicas pré-Trump.

Qual é a visão de “Space Force” sobre o futuro, portanto? Deve ser por isso que a série seja bem mais cautelosa que a colega da Amazon em sua primeira temporada, pois enquanto “Upload” tem na exploração da premissa futurista um norte sem grandes dilemas para além das questões éticas que se propõe a discutir, a sitcom da Netflix precisa se relacionar com itens ainda inscritos no presente, dessa piada franca com a divisão espacial militar do país que continua atual aos EUA – e manter-se ligado ao presente quando discutindo o futuro pode ser um erro, vide todo o andamento “quebrado pelo mundo” de “House of Cards”

A opção por não seguir pela sátira pura aparece aí: pelo menos nos seis primeiros episódios, Daniels e Carell mostram querer um caminho mais nobre, afastando Mark de qualquer assimilação como um personagem detestável e o enquadrando como homem a lidar com um status quo deturpado. A Space Force é tratada como piada por oficiais e um interesse de poder pelo comandante da força aérea (Noah Emmerich, nesse começo um pouco desperdiçado), mas ainda há missões e tarefas a serem cumpridas e consequências nobres que podem ser extraídas no meio do caminho, um debate que não por acaso é encenado no capítulo da reunião orçamentária com o “clone” de Ocasio-Cortez.

A série afasta Mark de qualquer assimilação como personagem detestável e o enquadra como homem a lidar com status quo deturpado

compartilhe

Esta meta tem sua cota de boas intenções e esperança, obviamente, mas o que falta neste início de trabalho é tom. Enquanto “Upload” em seu início já segue pelo humor de situação com pé no macabro, “Space Force” hesita muito sobre que caminho seguir exatamente, mesmo cercado de uma equipe criativa forte (além de Daniels, Paul King e Dee Rees dirigem dois capítulos e Paul Liberstein é listado como roteirista na reta final) e um elenco talentoso – difícil pensar em outro programa que tenha nomes do porte de Ben Schwartz, Emmerich, Lisa Kudrow e o saudoso Fred Willard em papéis coadjuvantes. Nesta primeira metade, nenhuma esquete ou momento de comédia é encenado sem passar a sensação de que avança em direção ao garantido, mesmo quando trafega por temas mais “ariscos” como o ridículo dos rituais militares ou espionagem.

Neste quesito, a melhor inspiração que Daniels e Carell podem ter neste momento para seguir em direção ao lugar criativo não está nos sucessos passados da dupla, mas em algo como “The Good Place”, comédia comandada pelo antigo parceiro criativo Michael Schur e que também buscava lidar com temas mais teóricos sem tirar um dos pés do chão – além de se manter ácido em alguns comentários, um traço necessário a “Space Force” para decolar de vez.

Compartilhe: