Com “Folklore”, Taylor Swift muda estética e padrões que ela mesma criou para si

Resultado é um álbum muito mais original e cativante que antecessor, "Lover"

por Soraia Alves

Para muitas pessoas, o isolamento social causado pela pandemia tem resultado em uma mudança na percepção de hábitos e valores. Essa ressignificação de conceitos chegou à Taylor Swift, que mudou totalmente sua forma de lançar um novo álbum. Nada de pistas codificadas em mensagens do Instagram, nem de teasers ou singles sendo trabalhados meses antes do disco completo sair. Dessa vez tudo foi extremamente simples e direto, com o anúncio de “Folklore” feito um dia antes de sua chegada aos streamings. Simplicidade é também uma característica muito presente no trabalho, na melhor das significâncias: este é um álbum descomplicado e sincero.

Swift trabalhou à distância com Aaron Dessner, produtor e guitarrista do The National que assina 11 das 16 faixas do álbum. Além dele, outro nome conhecido do “universo indie” que aparece no trabalho é Bon Iver, que canta com Taylor em “Exile”, única música que traz uma parceria no disco todo.

“Exile” também é uma das faixas mais belas do trabalho, com uma delicadeza de amolecer qualquer coração. O piano que permeia toda a canção é o arranjo perfeito para casar as vozes de Taylor e Bon Iver, enquanto eles descrevem suas visões da relação que chegou ao fim. A canção só cresce até finalizar deslumbrante.

“Folklore” também é genuíno por, depois de muitos anos, trazer músicas que não funcionam só como um “shade de sucesso”. Swift ainda fala de muitos amores e decepções, mas dessa vez tudo soa mais verdadeiro, mais íntimo e menos provocativo. A estética da “pobre garota branca e rica que é sempre a vítima” ainda sonda as composições da cantora – afinal, é como ela se vê – mas felizmente não é isso o que define o álbum. “Quando você é jovem, eles supõem que você não sabe nada” ela canta em “Cardigan”, que lembra bem “Young and Beautiful”, de Lana Del Rey. “Folklore” é sobre nostalgia e sobre como olhar a vida e a si mesmo por outros ângulos.

Um ponto a ser analisado é como nem sempre as músicas entregam todo o seu potencial de cara. É o caso de “My Tears Ricochet”, que cresce absurdamente só depois de 2 minutos, ou ainda de “Mirrorball” e “Mad Woman”. Isso compromete um tanto o andamento do álbum, embora seja uma característica dos trabalhos de Dessner. Uma exceção é “This is Me Trying”, cujo início lembra bastante “Lazarus”, de David Bowie.

Para Taylor Swift, a mudança estética e de seus próprios padrões comerciais resultou em um trabalho muito mais original e cativante que seu último disco, “Lover”, lançado há menos de um ano. Isso não significa, porém, que “Folklore” seja uma unanimidade entre seus ouvintes. Muitas pessoas ainda se prendem a rótulos e definições extremamente arcaicas sobre qualquer coisa – e isso não é diferente no mundo da música. As intituladas cantoras pop têm, de um lado, os julgadores que nunca valorizam seus trabalhos por serem “só pop”. Do outro lado, fãs que não aceitam qualquer flerte com estilos que vão “além do pop”.

No entanto, quando cantoras pop se libertam de rótulos e abraçam variadas experimentações, a tendência é que produzam seus trabalhos mais interessantes. É o caso de Beyoncé com “Lemonade”, Lady Gaga com “Joanne”, Rihanna com “ANTi” e, agora, Taylor Swift com “Folklore”.

nota do crítico

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